segunda-feira, outubro 10, 2011

A estreia dum clássico – Adega Cooperativa de Borba Grande Reserva «Rótulo de Cortiça» Gold 2007


Provavelmente, não há ninguém, maior de idade, em Portugal que nunca tenha provado um Borba Reserva «Rótulo de Cortiça». Ou, pelo menos, que nunca tenha reparado numa qualquer prateleira de loja. O Reserva «Rótulo de Cortiça» é um ícone, sinónimo de vinho alentejano, mais concretamente da denominação Borba (hoje incluída na designação genérica Alentejo).
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Os «Rótulo de Cortiça» foram, durante anos, uma referência de qualidade. Porém, a marca perdeu elã, por várias razões; o gosto do consumidor mudou, o aroma e o paladar querem-se diferentes dos da tradição; os vinhos que eram feitos para durar e viver longos estágios, hoje querem-se jovens e potentes; surgiram muitas marcas; e a qualidade média subiu muito. O Reserva «Rótulo de Cortiça» precisava dum empurrão.
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Porque o potencial está lá todo, o salto deste produtor faz-se com a apresentação da novidade Grande Reserva, que surge em edição limitada de 3.000 garrafas. Uma resposta para apanhar o que a memória tem de positivo e que o presente e o futuro exigem. O Reserva não desapareceu, tem é agora um mano superior, que lhe prolonga a tradição e os traços de família.
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Os Reservas ficaram célebres pelo lote feito com trincadeira, aragonês e castelão (outrora chamada de periquita). O Grande Reserva «Rótulo de Cortiça» pisca o olho à modernidade, com a introdução da nacionalizada alicante bouschet, embora mantendo a trincadeira.
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Existe no mundo dos vinhos o preconceito de que os néctares alentejanos não sabem envelhecer. A Adega Cooperativa de Borba demonstrou o contrário. Quando apresentou o Grande Reserva, a cooperativa trouxe à mesa algumas garrafas de colheitas do Reserva «Rótulo de Cortiça». A mais antiga a ser servida foi a primeira edição, da longínqua vindima de 1964.
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O elenco contou com as colheitas de 1964, 1977, 1982, 1994 e 2005, todas em grande forma, batendo com luva branca em quem garante, em absoluto, a pouca longevidade alentejana. Não é de todo mentira, mas não é uma verdade absoluta. As antiguidades mostravam uma coerência de estilo, e o Grande Reserva assume-se como uma continuação modernizada.
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A tradição dentro desta novidade está também na promessa de longevidade. O produtor atribui ao Grande Reserva «Rótulo de Cortiça» um pico dentro de 15 anos. Hoje, quase ninguém faz vinhos assim. Contudo, está de se beber. Como a cortiça… sempre à tona!

domingo, outubro 09, 2011

Currículo incrível – CV 2008


CV é abreviatura comum de curriculum vitae, mas neste contexto significa também Cristiano van Zeller, produtor e enólogo de currículo largo em sucessos e referenciais de qualidade. Este Douro tem tudo o que um tinto da região deve ter, com força no ataque, nas notas aromáticas… mas também uma elegância de boca, o que, nem sempre, se consegue na região.
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Se a colheita de 2007 impressionava, a do ano seguinte tem ainda mais elogios. O CV 2008 tem impressionado a crítica internacional, que lhe atribui aplausos e notas máximas ou muito elevadas. Só por isso a curiosidade deve fazer mexer os enófilos.
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A Quinta Vale Dona Maria tem uma história curiosa. Pertenceu à família da mulher de Cristiano van Zeller. Há registos da propriedade desde 1868, mas sabe-se que estava na posse há muitos mais anos. Pelo menos são de 242 anos. Em 1973 foi arrendada a uma empresa produtora de Vinho do Porto da família Symington.
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Embora tenha dado luz a uvas que serviram na produção de grandes Vinhos do Porto da Smith Woodhouse, a quinta encontrava-se um pouco abandonada quando voltou para o controlo da família. As edificações estavam em ruínas e as vinhas não chegavam a 20 hectares, dos quais dez de vinhas velhas.
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Corria o ano de 1996 quando se tomaram decisões para ressuscitar a propriedade. Lançado o projecto de reabilitação, tem vindo a ser a ampliada, com a aquisição de novas parcelas. Mas há ainda partes que arrendam em modo de longa duração. Hoje são quase 40 hectares.
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Outro ponto de nota é a junção de tradição com inovação. Por um lado, a prensagem ocorre em lagares de granito, mas, por outro, a pisa é feita com recurso a robô. Contudo, para os CV a escolha vai para as rogas de homens, com a típica pisa a pé.
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As castas são tradicionais da região e com potencial para tintos Douro e Vinho do Porto. Situada numa encosta virada a Sul-Sueste, junto ao rio Torto (na sub-região do Cima Corgo), a quinta tem um enorme leque de castas.
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O CV faz-se quase todo numa vinha velha, com mais de 80 anos. Antigamente não havia enólogos, mas havia sabedoria para juntar, na terra, as vides que melhor resultassem depois de pisadas e fermentadas. Como noutras quintas tradicionais do Douro com vinhas velhas, são muitas as castas e, normalmente, misturadas. No CV há mais de 40!

sábado, outubro 08, 2011

O elegante de Montemor – Torais Reserva 2007


O vinho, tal como muitas outras coisas, espelha quem o faz ou quem lhe dá alma. O Torais Reserva 2007 não deixa dúvidas. Tem o porte distinto do proprietário desta herdade de Montemor-o-Novo e o temperamento frontal e jovial do enólogo.
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Fernando Pereira Coutinho faz carreira na banca, como consultor da administração do Banco Espírito Santo, mas há muito que tem o prazer do vinho. Gosta e sabe da qualidade, mas não embandeira mais do que o seu prazer. As coisas técnicas não são para ele, assume.
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Diogo Campilho, o enólogo, é jovem e já uma certeza da enologia portuguesa. Fala do vinho com gosto visível. Fá-lo à medida de quem o irá vestir, mas deixa o seu traço. Aprecia trabalhar com castas estrangeiras, ou não tivesse andado pelo mundo a estudar ou estagiar.
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O projecto inicial não previa que a Herdade de Torais tivesse vinha. Fernando Pereira Coutinho comprou, em 1995, a propriedade como investimento. Quer desfrute, mas também razoabilidade económica. Aplicou poupanças numa exploração que tem de se pagar a si própria. Não quer nem prejuízo nem fazer vida de lavoura.
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Os cereais e o gado bovino foram as primeiras actividades após a herdade ter sido adquirida. Os cereais deixaram de dar e, um dia, os animais tiveram de ser todos abatidos, por causa da tuberculose.
Após o desaire ainda pensou na olivicultura, mas a enofilia resgatou-o. O seu amigo e enólogo João Portugal Ramos aprovou as condições físicas e Fernando Pereira Coutinho investiu. Primeiro só vendia uvas à Companhia das Quintas, mas nasceu a vontade de ter o seu vinho. Hoje, guarda algumas uvas para Torais e não tem uma adega xpto, como muito se viu pulular no Alentejo; trabalha com a adega da empresa a quem vende as uvas. Tudo bem pensado e medido. As quantidades são pequenas e são para manter. Deste (os reservas só vão aparecer em anos excepcionais) só se fizeram 1.500 garrafas.
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E quanto ao resultado? «O Diogo não é o típico enólogo alentejano, isso interessou-me. Não queria fazer o típico vinho alentejano, forte, pesado ou com muita madeira». Prova superada.

sexta-feira, outubro 07, 2011

De anjo a pinto – Quinta do Pinto Branco 2008

Não se pense que é o título seja uma tirada de gosto duvidoso. Não, é espelho da realidade. Há coisas na vida que estão destinadas, e esta está entre essas. Chamava-se, e teoricamente ainda se chama, Quinta do Anjo, mas é mais conhecida pela Quinta do Pinto.
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Consta, nas terras da Aldeia Galega da Merceana, que já no século XVII a apelidavam de Quinta do Pinto, porque o vinho que lá se fazia valia mais um pinto, alcunha duma moeda da época. O certo que é a família que há poucos anos a comprou é a terceira de nome Pinto a possuí-la. Além dum carismático feitor, que durante muitos anos geriu a propriedade, ser também Pinto de apelido.
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O Quinta do Pinto Branco é o topo de gama da exploração. A caminho está um tinto, mas por enquanto este que reina sozinho. Tem um toque marcadamente mineral, o que não é alheio o facto de se encontrar a 25 quilómetros do mar, em linha recta e sem entraves naturais de monta. Nota-se-lhe a frescura marítima, trazida e acrescentada pelo corredor ventoso onde se encontra.
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Rita Pinto é quem dá a cara pelo empreendimento, mas a alma e impulsionador é o pai, António Cardoso Pinto, que, depois de vender uma propriedade em Grijó, sentiu vontade de se religar à terra. E se a família está instalada em Lisboa, pois que o retiro seja mais perto da capital.
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Vinha da área do marketing, no grupo Lever, quando aterrou na Merceana. Sabia muito pouco de lavoura e de vinhos, mas foi ficando e gostando e gostando e ficando. Até frequentou aulas de mestrado em viticultura e enologia, no Instituto Superior de Agronomia.
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Rita Pinto diz ainda não tratar o vinho por tu. À conversa vai contando pequenas peripécias que lhe aconteceram ao longo destes últimos tempos de vinhateira. Vai contando e pedindo para que se não escrevam. É pena.
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Vem esta quinta juntar-se a outras, das imediações de Alenquer (Chocapalha, Cortesia, Monte d’Oiro e Pancas), que projectam alto o nome da região de Lisboa, antigamente designada por Estremadura.
Das oito brancas castas plantadas na propriedade (19 no total), foram escolhidas apenas três para este Quinta do Pinto (viognier, roussanne e marssanne), que, não tendo sido de propósito, estão em partes iguais no lote.
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António Cardoso Pinto é o patriarca. Os filhos e os vinhos seguem-lhe a vontade, mas Rita diz que nenhum por obrigação. Da paixão pelos vinhos untuosos do Ródano, nasceu este branco mineral na Merceana.

quinta-feira, outubro 06, 2011

Um estrangeiro no Douro– Bétula 2009


A bétula é uma pequena árvore, que, em tempos idos, foi usada na criação de bálsamos. Os frutos da bétula são… os frutos da bétula que agora importam são as uvas. Bagos que fazem um vinho branco diferente, na região do Douro.
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Os mais puristas dão alguns saltos na cadeira por saberem que duas castas internacionais estão a ser cultivadas na portuguesíssima região que faz nascer o Vinho do Porto. A viognier e a sauvignon blanc. Nasce assim um conjunto feito com variedades do Ródano e de Bordéus, mas em território duriense.
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O autor da proeza é Francisco Montenegro, enólogo e rosto do projecto familiar da Quinta do Torgal. A propriedade situa-se num extremo da região, em Barrô, a única freguesia do concelho de Resende daquela que é a mais antiga denominação de origem portuguesa. É mesmo numa franja, encostada à região do Vinho Verde. O clima tem já influência atlântica, e o solo é granítico e com cascalho, em vez de xistoso.
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À frescura de clima e solo acrescenta-se-lhe a altitude de 300 metros, numa encosta voltada a Norte. Um rincão arejado. Por isso tudo, a fruta nasce ali com vivacidade, com boa acidez. Ambiente propício e indicado para uvas brancas.
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Muito embora revele uma grande frescura, tem bom volume de boca. Não é um vinho de Verão. Mas também não é o branco clássico de Inverno. Vai bem com peixes com alguma gordura, mas igualmente com carnes brancas. Provavelmente brilha mais na Primavera e no Outono.
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Até 2005, a Quinta do Torgal vendia uvas apenas para a Adega Cooperativa de Penajóia. Francisco Montenegro teve da família carta-branca para fazer o que quisesse, desde que fizesse bem feito. Tudo é tudo. E tudo foi a aposta naquelas duas castas francesas, plantadas em áreas de igual dimensão e vinificadas de forma diferenciada.
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À viognier (Ródano) fermentou em barricas de carvalho francês, o que lhe deu corpo e as notas frutadas. A bordalesa sauvignon blanc fez a fermentação em depósitos de inox, conseguindo assim maior frescura e notas olfactivas vegetais. O resultado é equilibrado e com uma complexidade interessante. 

quarta-feira, outubro 05, 2011

Alto piu piu piu de Azeitão – Periquita Superyor 2008


Há empresas e produtos que marcam os tempos. Os anos passam e elas ficam, acompanhando as épocas. A José Maria da Fonseca (JMF) é um desses casos. Fundada em 1834, é a mais antiga casa produtora de vinhos de mesa em Portugal. No mundo, são escassas as que resistem cem anos. Aqui apresenta-se o mais jovem membro da família Periquita, o Superyor.
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O homem que deu nome à casa nasceu em Nelas, em 1804. Formou-se em Coimbra e estabeleceu-se em Lisboa, negociando em tabacos no Cais do Sodré. Prosperou e diversificou os investimentos. Uma aposta foi a compra da Quinta de Periquita, em Azeitão. Lá plantou uma casta que trouxe do Ribatejo: a João Santarém.
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A adaptação e o sucesso da casta foram enormes. Alastrou e ganhou uma alcunha: periquita, em alusão à quinta. Durante muito tempo, até oficialmente, também se chamou assim. Até ao dia em que a JMF pôs os pés em tribunal para garantir que periquita só o seu vinho. Hoje, o nome corrente é castelão (que já teve acoplado «francês»). Voltando ao sucesso na região… os seus encepamentos chegaram quase aos 100%. Ultimamente tem havido plantações diferenciadas, mas, julga-se, que quase 80% ainda sejam desta estirpe.
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Em 2010 celebraram-se os 160 anos da marca Periquita. Todavia, o Superyor não é um evocativo. Há já muito tempo que na JMF se queria uma coroa. Calhou 2008 ser um ano excepcional e lá debutou na efeméride, diz Domingos Soares Franco, enólogo, vice-presidente da JMF e descendente (sexta geração) do fundador. O próximo só virá doutra vindima de excepção.
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Este topo de gama é, como não podia deixar de ser, um «castelão», com quase 93% do lote. O vinho estava com muita estrutura, «mas precisava que lhe puxassem as costas», afirma o enólogo. A prótese fez-se com cabernet sauvignon (5%). Para «dar um coice de boca, para ser mais comprido», adicionou-se a tinta Francisca (2,4%). Uvas de vinhas velhas, vindimadas à mão e esmagadas a pé, porque, quando se quer qualidade, as mãozinhas e os pezinhos ajudam muito.
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Os frutos foram prensados com 35% dos seus engaços, para extrair mais taninos, o que lhe prolonga a vida. Os pormenores, ou o luxo, não foram descuidados: passou 12 meses nas melhores barricas de carvalho francês da Seguin Moreau, uma das mais prestigiadas tanoarias do mundo.
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Evolui bem no copo. O que se começa por beber não é o mesmo que termina a refeição. É um tinto para se ir descobrindo. Tanto no prazo dum repasto como num horizonte mais distante. É vinho para viver, pelo menos, mais uns 15 anos.
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Domingos Soares Franco diz que lhe lembra as colheitas de 1966, 1967 e 1969, quando havia poucas marcas em Portugal e os Periquita ainda não eram vinhos de consumo massificado. Que venham mais 160 anos.

terça-feira, outubro 04, 2011

Escondido está o pecado – Escondido 2008


É extraordinário pela qualidade. Mas também por não se revelar ao mundo todos os anos… fica escondido. Sai quando tudo acontece de feição, pelo que a vida nem sempre permite um nado-vivo.
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O primeiro foi em 2004 e veio com saúde. Houve o de 2006. Há este de 2008. Noutros anos vieram azares à vinha e um desastre na adega (2009), devido ao comportamento da madeira em que estagiou.
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O nome deve-se à pouca visibilidade que tem um vinho de pouquíssimas garrafas. Aníbal Coutinho faz e fará só uma barrica, o que coloca a produção em torno das 250(!) garrafas. Portanto, aquilo que acontece algumas vezes a todos os produtores, o asnear duma barrica, é fatal e cruel na Quinta da Murteira Pequena.
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Este nano-produtor diz que é sempre o sonho dum enólogo fazer o seu vinho. Pretende um produto exclusivo e não querer saber das pontuações de Robert Parker, o mais mediático, influente e temido crítico. Aliás, nem lhe manda garrafas para prova.
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O que lhe importa é a tradução das castas e a transferência do ambiente da vinha para o que está dentro da garrafa. Defende pouca intervenção humana, para não estragar o que a natureza deu.
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O Escondido 2008 é uma evocação dos vinhos de Bordéus de antes do boom tecnológico… ou seja, de quando ainda não imitavam os californianos, que os tinham imitado. Aqui há elegância, subtileza e longevidade. A merlot dá elegância e longevidade e a touriga nacional a força.
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A vinha, de meio hectare, situa-se em Almargem do Bispo, em Sintra, e dá um vinho de sensação fresca, onde a graduação alcoólica é baixa, rondando os 12 graus. Só isto o torna num contra a corrente. Não é consensual, é algo austero. É um vinho de salão.
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Aníbal Coutinho sempre gostou de vinho, mas foi como engenheiro civil que entrou numa outra dimensão, quando, no final da década de 90, assinou os projectos das adegas das Caves Aliança, em Sangalhos, e da Herdade da Farizoa, em Borba.
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Depois veio o curso de agronomia. Abraçou muitas vertentes no eno-mundo: produtor (Escondido e Astronaut – na África do Sul e Portugal), enólogo, consultor de compras (Modelo Continente), escanção (O Jacinto, Lisboa), formador e crítico de vinhos (Guia Copo & Alma)… Diz que assim compreende melhor o que vai da vinha ao consumidor… Ah! E é membro do Coro Gulbenkian… não há-de saber fazer vinhos afinados!…

segunda-feira, outubro 03, 2011

Uma escolha excêntrica para o Inverno – Folha do Meio Branco 2009


Ano novo, é passado o momento das grandes festas do Natal e da passagem de ano. Depois dos excessos gastronómicos, toca a limpar por dentro com uma comida menos pesada… mas o vinho, esse, não pode faltar. Em vez dum tinto encorpado, ou mesmo leve, ou dum branco estagiado em madeira, a proposta desta semana é para quebrar tradições e preconceitos.
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Apresentar um vinho de Verão em pleno Inverno é uma excentricidade, já se sabe. Mas, desculpem, não pode comer sempre e à fartazana pratos ricos e pesados. No Inverno, com a qualidade dos pescados da nossa costa, também há momentos para um grelhado. Talvez peixe-espada. Um branco ligeiro, que trata o Verão por tu, já aquece o pensamento… e toda a gente sabe que o frio é psicológico.
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Ano novo, é momento de apresentar uma novidade. A Terrenus Veritae é um jovem produtor, em que esta proposta representa a sua segunda vindima. Tal como 2011, tem tudo pela frente. É um vinho para consumir novo e com alegria. 
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Ano novo, tempo de apresentar um vinho a preço acessível, depois duma época em que as famílias ofereceram a amigos e parentes o ordenado e o subsídio de Natal. Além do que festejaram à mesa, porque há alturas em que quantidade e qualidade não podem falhar à mesa dos portugueses.
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Um dos segredos da sua leveza está na altitude em que estão plantadas as vinhas, entre os 500 e os 550 metros, em pleno Parque Natural da Serra de São Mamede, nas proximidades de Portalegre. A vinha fica em Alegrete que, além dos marqueses, ficou conhecida por uma das localizações do magnífico restaurante .
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Tomba Lobos, de José Júlio Vintém – que entretanto marchou para a capital de distrito.
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É um vinho equilibrado e fresco no nariz e na boca, com algum citrino e uma levíssima tropicalidade. Tudo por via da conjugação das castas arinto e fernão pires. Desta vez não há antão vaz num alentejano. Tudo bem casado pela mão sábia do mestre Paolo Nigra, um enólogo de vinhos elegantes.
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É um vinho fácil, não é para grandes meditações. É para dar prazer, e pronto! A mesa é para dar prazer e o prazer, tal como o Natal, é quando um homem quiser. Em resumo, vem este vinho à baila por três razões: época, juventude e preço. Tudo junto. E tudo junto vem provar que há bons vinhos a preços acessíveis.

domingo, outubro 02, 2011

Travo a ano novo – Murganeira Vintage Bruto 2004


Com o fim de ano à porta, é tempo de espumantes. Há muitos anos, os ricos bebiam Champanhe ao soar das últimas 12 badaladas… Para muitas pessoas o nome dessa região vinícola francesa foi, durante muitos anos, (ou é) sinónimo dum tipo de vinho. Mas não! Não mesmo!
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O Champanhe só o francês e da região com esse nome. Por cá fazem-se também espumantes pelo mesmo método, chamado clássico. Obviamente muito menos conhecidos, mas também com boa qualidade. A cada região o seu nome e hoje apresenta-se um Távora-Varosa, espaço não muito vasto, encravado entre as denominações Douro e Dão.
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A Távora-Varosa tem dos melhores espumantes portugueses, muito frescos e elegantes. Também os há nos Vinho Verde, na Bairrada e no Douro, e aqui ou ali. Mas é nela que se situa uma das mais conhecidas casas de espumantes portugueses, a Murganheira.
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Este vintage é um espumante bruto, ou seja com menos de 15 gramas de açúcar por litro, o que significa ser muito seco. Feito com uma casta emblemática de Champanhe, a pinot noir, este néctar é, em terminologia técnica, um blanc de noirs, ou seja, um vinho branco feito de uvas tintas.
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Mais um termo francês designa a borbulhagem, a perlage. Quanto mais persistente e suave, melhor o espumante. Este responde muito bem à exigência. Aliás, é um vinho já com reconhecimento, tendo ganho o Grande Prémio Escolha da Imprensa, da Revista de Vinhos, de 2010.
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O produtor afirma que deve ser bebido num prazo de dois anos após o dégorgement, que é o processo em que se removem da garrafa as leveduras, utilizadas na segunda fermentação. Porém, a informação não está de todo correcta, embora se possa compreender pelo facto de, após esse prazo, o vinho perder a fruta da sua juventude e evoluir para uma coisa diferente. Mas também se compreende por motivos comerciais.
Limitar este vinho a dois anos é quase um insulto. Os grandes vinhos duram que se fartam e transformam-se em interessantíssimas pomadas. Para que conste, um Murganheira Grande Reserva Bruto de 1985, provado há dias, estava em plena forma, com suas nuances de petróleo e amêndoa torrada. O que este vintage não terá se esperarem por ele!... É beber umas garrafas agora e guardar outras para depois.

sábado, outubro 01, 2011

Grande esperança – Quinta da Gaivosa Porto Vintage 2008


Quando se perspectivam os 254 anos da criação da Companhia Geral da Agricultura dos Vinhos do Alto Douro, que estabeleceu a demarcação, a obra de Domingos Alves de Sousa é um ponto. Contudo, há já muito para apreciar no trabalho deste engenheiro civil que abraçou a lavoura, em 1987.
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A sua primeira obra a ver a luz do dia foi o Quinta do Vale da Raposa Branco de 1991. Desde então têm sido vários os vinhos de interesse saídos das suas cinco quintas: Caldas, Aveleiras, Estação, Vale da Raposa e Gaivosa. Situada entre Vila Real e Santa Marta de Penaguião, é da Gaivosa, de encostas agrestes e xistosas, que saem as obras mais aplaudidas. A saber: Abandonado, Vinha de Lordelo e vintages.
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Mais conhecido pelos seus vinhos do Douro, Domingos Alves de Sousa não foge da política das principais quintas vinhateiras, que se lançaram na produção de Portos, nomeadamente de vintage. Esta palavra inglesa significa o topo da classificação dos vinhos da “família” ruby, que evoluem em garrafa, a partir duma só vindima, declarada em anos de excepcional qualidade. Em oposição há a “família” tawny, que estagia em madeira.
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O vintage de 2008 é o terceiro a ver a luz do dia, depois dos 1999 e 2003. Mas até vintage há muitos. E aqui revela-se o trabalho de excelência deste vitivinicultor, além dos Douro, nos Portos. O vintage de 2003 foi levado em braços, tendo a associação canadiana de escanções o eleito como um dos quatro melhores dessa vindima, na obra “La Bible du Porto”.
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Bem, mas esse é o 2003… acontece que quem provou o 2008 afirma que está acima, promete muitíssimo. No actual estado, o 2003 está mais bebível, visto haver muita juventude no irmão. Quando abrir faça-o meia hora antes de o servir.
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O enólogo, Anselmo Mendes, um dos mais respeitados do país, acredita que chegará ao auge dentro de 20 anos. Tradicionalmente, os vintage devem beber-se velhos, mas muitos são os que hoje os querem jovens, numa festa de aromas e sabores compotados.
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Nos gostos também há preferências. Mesmo os peritos não se entendem quanto à temperatura de serviço. O produtor recomenda que se beba fresco, a 14 graus. Outros recusam fazê-lo abaixo dos 18. É provar e escolher.