segunda-feira, outubro 16, 2017

José de Sousa 2015 + José de Sousa Mayor 2015 + J de José de Sousa 2014 + Puro Talha Branco 2015 + Puro Talha Tinto 2015

A fabricação de vinho em recipientes de barro tem séculos e não é exclusivamente portuguesa. Contudo, o processo não deixa de estar na tradição alentejana – cuja introdução é geralmente atribuída aos Romanos.
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O método caiu em desuso e perdeu-se o conhecimento de produção das talhas. Como resultado, quem as quiser tem de as comprar a preços, que dizem, elevados.
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Nada que não se resolva, pois no Cáucaso – onde se vinifica em grandes ânforas – ainda são moldadas. Digo com a certeza dos ignorantes, é só contratar um artesão e levá-lo ao Alentejo.
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A produção de vinho em talha é residual, mas tornou-se num interessante produto de marketing. Há lotes parcialmente feitos nesses depósitos – alguns com décadas, como nesta casa, onde não se trata de mero argumento comercial – e quem se aventure na totalidade do processo.
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Os puristas afirmam que engarrafar vinhos de talha é uma modernice, que não tem qualquer referência histórica nem tradição. Dizem que a verdade habita nas tabernas alentejanas.
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Essa é discussão em que não me meto. Sei que o vinho vindo da talha é diferente e que acrescenta paixão aos enófilos.
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A firma José Maria da Fonseca há muitos anos que utiliza vinho em talha para fazer o lote do José de Sousa. Agora, apresenta um branco e um tinto integralmente produzidos nas ânforas. O resultado é muito feliz, não apenas pela diferença, mas também pela qualidade formal.
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Os Puro Talha Branco 2015 e Puro Talha Tinto 2015 foram apresentados conjuntamente com as novidades aneiras da José Maria da Fonseca. O momento de debutar assinalou também uma recolocação da Adega José de Sousa na empresa-mãe. A ideia é a de autonomizar a marca, aproveitando a tradição identitária e reputação da casa alentejana.
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Esta decisão vem fazer justiça, pois a Adega José de Sousa é uma casa quase tão antiga quanto a José Maria da Fonseca – a alentejana reporta a 1878 e a de Azeitão a 1834 –, com carácter próprio e reputação de qualidade.
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O José de Sousa 2015 é fiável – se há algo que muito aprecio é a fiabilidade. Chateiam-me aqueles vinhos (referências) que umas vezes são bons e noutras resultam maus. Isso não tem nada a ver com os anos, mas com a consistência.
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Certamente que uma referência tão antiga conheceu alterações com o tempo. É mais do que provável subtis correcções de perfil do vinho. Os consumidores substituem-se, mas outros mantêm-se. Compreendo que agradar aos habituais e não deixar de seduzir os novos não seja tarefa fácil. Aqui há ainda o respeito pela variação dos anos, mantendo-se o patamar da qualidade.
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O José de Sousa 2015 é uma junção das castas grand noir (52%), trincadeira (33%) e aragonês (15%). Estes vinhos fazem parte da minha memória. Nunca conseguirei ser totalmente isento na avaliação – refiro-me ao gosto pessoal e com rótulo à vista. A parcialidade, no blogue, é assunto reconhecido e assumido por mim. «Cientificamente» é igualmente um vinho de grande qualidade. Ponderando, sinto-lhe o mesmo nível, tanto na a emoção quanto na frieza.
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Embora o lote se tenha feito com as mesas castas, a personalidade do José de Sousa Mayor 2015 é diferente: grand noir (58%), trincadeira (30%) e aragonês (12%). Noto-o mais fresco, complexo e longo na boca face ao anterior.
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 J de José de Sousa 2014 é um grande vinho em qualquer parte do mundo. Este não foi da única colheita que bebi, este pareceu-me estar mais alto. Porquê? Por todas aquelas coisas que têm vinhos superiores: complexidade aromática e de paladar, evolução no copo, comportamento e demora na boca. Essas coisas.
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Parece-me que chegou, ou vai chegando, a moda da mineralidade. Os vinho da José de Sousa sempre tiveram essa característica, herdada dos solos graníticos de Reguengos de Monsaraz. Os Puro Talha têm o acrescento das notas barrentas, atribuídas pelas ânforas, e de salinidade.
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A malta da ciência encartada e a da verdadeira ciência aqui não é chamada, ou então guarde a sapiência exacta na bata laboratorial ou na dos equívocos. Não sei como avaliaria estes vinhos de talha se me aparecessem às cegas.
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São estranhos. Não só os artesanais não se parecem com nada, como estes, construídos por gente séria e competente, também não se parecem com coisa nenhuma. Sabia o que estava a provar, depois beber, e houve erros de paralaxe – não duvido, é a emoção. Contudo, a qualidade formal está lá.
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Quero lá saber das formalidades! Aqui no blogue reina o sentimento. Com tempero de sensatez – nunca pontuei mal um vinho bom e que não me agradasse na boca e no nariz –, digo que são dois belíssimos vinhos estranhos. Um enófilo curioso e/ou com vontade de aprender, tem de conhecer os Puro Talha, pois são muito didácticos.
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Na Adega José de Sousa existem 114 talhas – um tesouro, literal em valor em euros e enológico. Os dois Puro Talha fizeram-se mantendo a tradição do mandar tudo lá para dentro. O branco fez-se com antão vaz, diagalves e manteúdo, em proporções não especificadas. O tinto com grand noir (50%), trincadeira (30%), aragonês (10%) e moreto (10%).
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José de Sousa 2015
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Origem: Regional Alentejano
Produtor: José de Sousa / José Maria da Fonseca
Nota: 7/10
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José de Sousa Mayor 2015
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Origem: Regional Alentejano
Produtor: José de Sousa / José Maria da Fonseca
Nota: 8/10
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J de José de Sousa 2014
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Origem: Regional Alentejano
Produtor: José de Sousa / José Maria da Fonseca
Nota: 9/10
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Puro Talha Branco 2015
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Origem: Alentejo
Produtor: José de Sousa / José Maria da Fonseca
Nota: 8/10
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Puro Talha Tinto 2015
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Origem: Alentejo
Produtor: José de Sousa / José Maria da Fonseca

Nota: 8/10

Ervideira – Prova comparativa dos «Vinho da Água» e dos que estagiaram à superfície

Duarte Leal da Costa não tem só um apurado sentido comercial e de promoção. Mais do que coisas conhecidas da tribo do vinho, o homem da Ervideira arrisca. Felizmente, para ele e para quem prova e bebe, os resultados são positivos.
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Assumo-me céptico – muitas vezes com incredibilidade peremptória – e pessimista. Quando Duarte Leal da Costa depositou umas garrafas de vinho sob a água da barragem de Alqueva disse:
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– Ah e tal! Condições controladas cá fora dão o mesmo resultado! É golpe para vender vinho.
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Marketing não é pecado nem crime. Disse isso porque sinceramente acreditava que se tratava apenas duma boa iniciativa de promoção.
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Como é recorrente, a realidade bateu-me à porta e esbofeteou-me. Vermelho da vergonha e da pele escaldante dos estalos, assumo que, provados, os vinhos que ficaram guardados à superfície e os mergulhados… estão diferentes.
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Tantas e tantas vezes repito uma mínima parte d’ Os Lusíadas. Digo-o para mim, para que me mantenha céptico – não quanto à ciência – relativamente a mim e que tenha abertura de espírito para compreender o que se diz diferente ou novo.
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Os sábios do século XVI – como anteriores e futuros – desdenharam do que desconheciam. Os marinheiros eram homens duros e dados à fantasia. O fogo de Sant’Elmo era uma patranha. Embarcado, Luís de Camões testemunhou várias dessas supostas invenções. Por isso escreveu as maravilhas fabulosas, sentenciando:
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– Vejam agora os sábios na escritura / que segredos são estes da Natura.
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Sabendo que os vinhos são os mesmos, as condições de luz e quietude idênticas. No solo, a temperatura de arranque estava a 13 graus e foi até aos 20, e os submersos mantiveram-se a 17 graus. Duarte Leal da Costa referiu existirem condições de humidade comparáveis. As garrafas eram idênticas. Obviamente, a pressão é diferente – quatro quilogramas mais nos aquáticos. Os níveis de acidez mantiveram-se, tal como os de açúcar.
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– O que determina as diferenças?
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– Serão as nuances suficientes para as alterações? Quais ou em conjugação?
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Não se sabem as razões, mas há quem esteja a fazer um mestrado tendo este assunto como tema.
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Os primeiros em prova não eram exactamente idênticos. Os espumantes comparados foram três:
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– Vinha d’Ervideira Espumante 2015.
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– Vinho da Água Espumante 2015 – maturado com degorgement.
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– Vinho da Água Espumante 2015 – maturado com leveduras.
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O primeiro mostrou-se muito fresco, com notas de maçã reineta caramelizada. O segundo estagiou a 30 metros de profundidade e estava mais guloso. O terceiro registou a segunda fermentação sob a água e tornou-se mais complexo, em aromas e sabores.
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Quanto aos brancos tranquilos, provaram-se:
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– Conde d’Ervideira Reserva Branco 2015.
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– Vinho da Água Branco 2015.
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Também aqui, o mergulhado ganhou complexidade e registaram-se acrescentos de frescura e vivacidade, mais gastronómico.
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Os tintos em avaliação foram quatro:
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– Conde d’Ervideira Reserva Tinto 2014.
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– Vinho da Água Tinto 2014.
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– Conde d’Ervideira Reserva Tinto 2015.
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– Vinho da Água Tinto 2015.
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As conclusões não divergiram! Maior frescura, maiores complexidades de aromas e sabores, mais prazenteiros, com uma gulodice – não derivada de doçura – incrível.
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– Vejam-me agora tolo da escritura / que segredos são estes da Natura.
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Duarte Leal da Costa, obrigado por esta tareia no meu preconceito!

Fiuza Chardonnay 2016 + Fiuza Rosé 2016

A região do Tejo tem conhecido uma assinalável melhoria. Não só da percepção, mas sobretudo da qualidade – o que alimenta a reputação.
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Ainda o Tejo era Ribatejo – designação com má fama – e já a Fiuza & Bright produzia vinhos de qualidade. Não foi a única pioneira, mas, puxando pela cabeça, lembro-me de mais quatro casas. Possivelmente estarei a ser injusto, mas é a memória:
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– Quinta da Alorna, Casal Branco, Casa Cadaval e DFJ.
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Com o tempo foi aparecendo mais gente com espírito de trabalhar para a qualidade. Chegaram empresas doutras regiões, formaram-se grandes produtores, cooperativas mais empenhadas e surgiram pequenas adegas de projecto de enólogo.
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Até há uns anos – nem muito distantes – o modelo era conseguir grandes quantidades, para as garrafas serem vendidas a preço de saldo.
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De há uns anos para cá, mudou muita coisa. Não apenas a alteração da designação. As vinhas deixaram os terrenos mais ricos, que possibilitavam as grandes quantidades, e os mais pobres receberam-nas.
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Não gosto – muito raramente refiro ­– de abordar a questão do dinheiro. Cada um tem o seu gosto, sabe do recheio da sua carteira e tem o seu limite de predisposição a gastos. Por isso, considero que estabelecer relação entre a qualidade e o preço é tarefa apenas pessoal e, quanto a mim, abusada quando não referente a quem a diz.
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Contudo – não me referindo especificamente a marcas e regiões – vejo no Tejo vinhos com valores muito moderados. Acabo aqui o tema.
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Enviaram-me dois vinhos, um branco e um rosado, para acompanhar sushi, que chegou na mesma encomenda.
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Uma vez que não como peixe, a maridagem foi avaliada por pessoas que convidei. Fugi e não toquei na garrafa de branco. Garantiram-me que comportamento foi muito bom, muito feliz. Aliás, ninguém se arriscaria a inventar um casamento entre comida leve e um tinto pesado – obviamente, um trabalho profissional!
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O rosado foi bebido depois – pela sua doçura, achei-o mais para convívio descontraído do que para acompanhar uma refeição.
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Foram eles:
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– Fiuza Chardonnay 2016 – que estagiou dois meses em barricas de carvalho.
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– Fiuza Rosé 2016 – lote de cabernet sauvignon e touriga nacional.
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Ambos com saudáveis taxas de álcool; o branco 12,5% e o rosé 11,5%.
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Visto não ter tocado no chardonnay e não poder também fazer justiça à ligação do peixe com o rosado, vou abster-me de atribuir notas.
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Nota: Os vinhos foram enviados para prova pelo produtor.

domingo, outubro 15, 2017

Tons de Duorum Branco 2016

O calendário manda, mas São Pedro desmanda. Outubro e temperaturas de Junho e Julho e não chove.
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Se o Verão formalmente acabou, não deixa de ser tempo para um vinho branco leve. Aliás, embora a natureza enquadre os desejos, a vida seria muito austera se nos agarrasse-mos à formulação dos brancos para o estio e os tintos para o frio.
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Passando os considerandos, o Tons de Duorum Branco 2016 mantém-se fiel ao estilo e à qualidade. Um vinho descontraído, que não é de piscina. Contudo, também refresca um começo de conversa antes da mesa.
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Tons de Duorum Branco 2016
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Origem: Douro
Produtor: Duorum Vinhos
Nota: 5/10

Adega Mayor Pinot Gris 2016

Dez anos é muito ou pouco? A Adega Mayor foi fundada em 2007 e é uma referência.
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Dez anos é muito ou pouco? Mudou de enólogo e a qualidade mantém-se, em consistência e respeito pela diversidade dos anos.
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Uma década depois, a Adega Mayor reviu o grafismo da identidade. Deu a conhecer em Lisboa os novos vinhos.
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Os Caiado, na entrada de gama, estão bem fixos, mantendo-se apelativos e descontraídos.
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Os monovarietais – Adega Mayor Pinot Gris, Adega Mayor Pinot Noir, Adega Mayor Touriga Nacional, Adega Mayor Verdelho, Adega Mayor Viognier – estão com um andamento de prazer e revelando-se didácticos, para compreender cada uma das variedades.
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Acima, os Adega Mayor Reserva do Comendador e Adega Mayor Grande Reserva Pai Chão são incontornáveis quando se enumeram os grandes vinhos alentejanos.
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Em Junho, a Adega Mayor teve uma loja-breve, surgida para mostrar experiências na ligação do vinho com a comida de talheres, sendo esta servida directamente na mesa. Desse momento, já findo, ficou-me um vinho a repetir o seu nome.
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Em Junho, provada a gama, a surpresa foi uma não-surpresa – já me convenci e habituei. Os monovarietais no nível da excelência e os de cima no patamar fantástico, estando o Pai Chão um pouco acima do Reserva.
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Contudo, houve mesmo uma revelação. O Adega Mayor Pinot Gris 2016 deu cabo do meu coraçãozinho!
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Adega Mayor Pinot Gris 2016
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Origem: Regional Alentejano
Produtor: Adega Mayor
Nota: 8/10

Monólogo Arinto 2016 + Monólogo Avesso 2016 + Monólogo Chardonnay 2016

Vieram-me novos três Monólogos, vinhos da região dos Vinhos Verdes, sendo que um está classificado como Regional Minho, derivado de ter sido feito com uma casta não aceite para denominação de origem.
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Depois dos 2015, vieram os 2016. Provados uns e outros, consultada a memória e revendo os apontamentos, acho-os consistentes. As colheitas, por mim, conhecidas apresentam uma continuidade de perfil. O que é bom. Mas mostram as diferenças dos anos, o que é melhor.
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Feito o balanço, mantenho as avaliações.
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Monólogo Arinto 2016
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Origem: Vinhos Verdes
Produtor: A&D Wines
Nota: 6,5/10
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Monólogo Avesso 2016
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Origem: Vinhos Verdes
Produtor: A&D Wines
Nota: 6,5/10
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Monólogo Chardonnay 2016
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Origem: Regional Minho
Produtor: A&D Wines
Nota: 6/10
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Nota: Estes vinhos foram enviados para prova pelo produtor.

sábado, outubro 14, 2017

Hexagon Tinto 2009

O Hexagon tornou-se em conversa recorrente cá em casa. Desde o primeiro que me espanto e deixo os convidados a sorrir. O tinto de 2009 não poderia ter outra sina.
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Hexágono porque as uvas são seis e vêm de seis sítios, todos na região da Península de Setúbal. A equipa é formada por syrah, tannat, tinto cão, touriga francesa – o mestre Domingos Soares Franco tem razão em a chamar assim, como fora antigamente –, touriga nacional e trincadeira.
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Encheram-se muito poucas garrafas, apenas 9.100. São 0,75 litro de prazer complexo, duradouro e que se vai modificando com o tempo no copo.
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Hexagon Tinto 2009
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Origem: Regional Península de Setúbal
Produtor: José Maria da Fonseca
Nota: 9/10 

sexta-feira, outubro 13, 2017

Vinhos de homenagem da Casa Ferreirinha

Só se é grande depois da matéria do corpo se diluir na natureza. Homenageá-los é também uma celebração aos que lhe sobreviveram ou continuaram. Quando em vida se transmite a obra a quem lhe dá seguimento é uma dádiva.
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O marquês de Pombal criou a demarcação do Douro e Dona Antónia Adelaide Ferreira matou a fome às gentes empobrecidas pelos malogros do vinho, o que lhe valeu a alcunha terna de «Ferreirinha».
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Pessoas com essa dimensão são raras. Todavia, há também quem marque e molde, herdeiros e testamenteiros. A Sogrape lançou dois vinhos de homenagem:
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– Casa Ferreirinha – Antónia Adelaide Ferreira Douro DOC Tinto 2013
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– Legado Tinto 2012
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O primeiro lembra a visionária e poderosa lavradora duriense. O segundo é a bênção do Senhor Fernando Guedes a quem ama.

Moscatel de Setúbal de 1911

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Por um Moscatel de Setúbal de 1911 vendo a alma ao Diabo. Mas não a entrego, para que me pague o dobro e assim possa sentir esse vinho, mas ido e regressado além do paralelo do Equador.
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O Navio Escola Sagres levou um casco desse vinho, um de Bastardinho de 2011 e um Moscatel de Setúbal de 2016 – todos da firma José Maria da Fonseca. O objectivo é o de os comparar com os iguais que permaneceram nas caves – embora se saiba, desde há muitos anos, que os torna-viagem evoluem diferentemente.
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O comércio da alma é possível? Sábios de várias cátedras, sacerdotes de diversos ritos, escritores, especuladores e vigaristas disseram, ao longo dos séculos, que sim. Até há livros que ensinam as fórmulas e os procedimentos.
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O problema é que não sou Fausto e o Diabo não existe.
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Dr. Fausto pintado por Georg Friedrich Kersting.
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Contrato celebrado entre o Diabo e Urban Grandier, sacerdote católico sentenciado à morte, na fogueira, por bruxaria.

Colinas do Douro Colheita Tardia 2015 + Colinas do Douro Superior Branco 2015 + Colinas do Douro Verdelho 2015 + Colinas do Douro Branco Reserva 2015 + Colinas do Douro Superior Rosé 2015 + Colinas do Douro Tinto 2015 + Colinas do Douro Reserva Tinto 2015 + Quinta da Pedra Cavada Grande Reserva 2012

A firma Colinas do Douro é recente, mas começa bem. Situa-se no Douro Superior, mas próxima da Beira Interior. Quer isto dizer que o chão não é totalmente de xisto, mas também de granito. Estas duas pedras conjugadas com a altitude traduzem-se em complexidade e frescura.
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Conheci este produtor no Festival do Vinho do Douro Superior de 2017, que se realizou em Foz Côa, entre 19 e 21 de Maio. A firma deu a conhecer os seus vinhos, mas pouco mais se divulgou. O balanço é muito positivo.
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Jorge Rosa Santos, que se projectou no produtor Casal de Santa Maria, é o responsável técnico da Colinas do Douro Superior. O trabalho em Colares foi muito elogiado e, agora no Douro, e certamente continuará a ser no Douro.
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Tanto os brancos quanto os tintos mostraram-se muito gastronómicos, com frescura e elegância. Conhecendo-os na boca bem se entende que espelham essa terra de transição.
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O Quinta da Pedra Cavada Grande Reserva 2012 é um grande vinho, com a alma do Douro.
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Colinas do Douro Colheita Tardia 2015
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Produtor: Colinas do Douro
Nota: 6/10
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Colinas do Douro Branco 2015
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Origem: Douro
Produtor: Colinas do Douro
Nota: 6/10
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Colinas do Douro Verdelho 2015
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Origem: Douro
Produtor: Colinas do Douro
Nota: 5,5/10
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Colinas do Douro Branco Reserva 2015
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Origem: Douro
Produtor: Colinas do Douro
Nota: 7/10
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Colinas do Douro Rosé 2015
Origem: Douro
Produtor: Colinas do Douro
Nota: 5,5/10
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Colinas do Douro Tinto 2015
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Origem: Douro
Produtor: Colinas do Douro
Nota: 6/10
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Colinas do Douro Reserva Tinto 2015
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Origem: Douro
Produtor: Colinas do Douro
Nota: 7/10
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Quinta da Pedra Cavada Grande Reserva 2012
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Origem: Douro
Produtor: Colinas do Douro
Nota: 8/10

Taylor's 325

Quando era miúdo adorava ficar a ouvir os velhos, com as suas conversas verdadeiras, equívocas e aldrabadas. Não gosto que me mintam, mas adoro que me falem de países antigos, meninices distantes e episódios de capa-e-espada.
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A História e a Estória são irmãs. Nada como a verdade. Nada como a fantasia. Nada como o plano inclinado entre o Sol e a Lua. O que seria da rectidão sem a mentira? O honesto amanuense não tem de contar, mas o bandido é complexo.
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Nas caves das firmas mais antigas de Vinho do Porto vivem fantasmas, que guardam tonéis e lhe subtraem gotas. Os papéis são testemunhos e a história que se conta das casas está iluminada pelos mitos do tempo.
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Ninguém quer saber de quando as empresas inglesas traziam lã e levavam vinho. A história é conhecida sem que esteja escondida. Os porões dos navios, cheios com garrafas, são muito mais interessantes do que fardos de pêlos e carvão.
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A Taylor’s, uma das mais antigas firmas britânicas completa 325 anos de história. Em 1692, Sebastião José de Carvalho e Melo, que viria a criar a demarcação do Douro (1756), não tinha nascido (1699). Nem mesmo tinha sido assinado o Tratado de Methuen (1703), que estabeleceu primazia aos trapos britânicos e ao vinho português.
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As datas são para se celebrarem, como as tradições são para se cumprirem e se desfazerem. O lembrar dos 325 anos fez-se com um vinho tawny, engarrafado na réplica possível – o artesanato tem a perfeição da imperfeição – das usadas no comércio antigo.
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Conhecida pelos seus vinhos de categoria superior, a Taylor’s criou uma edição especial e limitada, resultado da junção de vinhos com idades diferentes, dos dez aos 40 anos de espera em grandes cascos de madeiras nobres.
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Mereceu ainda o direito de ostentar as armas reais britânicas.
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Porque parte significativa da sua história se passou no mar, a Taylor’s patrocinou o velejador Ricardo Diniz, na prova Original Singlehanded Transatlantic Race, que se realiza de quatro em quatro anos. O veleiro Taylor’s 325 cumpriu a recriação das viagens entre Gaia e Londres.
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Taylor’s 325
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Origem: Porto
Produtor: Taylor’s / The Fladgate Partnership
Nota: X/10
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sábado, setembro 30, 2017

Monte da Ravasqueira Vinha das Romãs 2014

Queira-se ou desqueira-se, somos condicionados pela meteorologia. Aproxima-se tempo fresco – espero que bem molhado, a terra precisa – e o corpo dá sinais de preferência por comida mais enfartante e vinhos mais substanciais.
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Apresentado em Março – em claro contraciclo do que é hábito, em que se apresentam as novidades para o Verão – o Vinha das Romãs 2014 começa agora a fazer sentido. Não digo isto para me justificar pela demora na escritura desta crónica.
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É um vinho com estrutura e acidez, ideal para quando se deixa o frescor ou o frio do outro lado da vidraça e se põem à mesa aquelas coisas que nos engordam. Perdura nos sentidos.
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Não há vitivinicultor que não diga que tem, pelo menos, um terroir na sua propriedade. Não há produtor alentejano que não garanta que a sua parcela é um outro Alentejo. Às vezes é verdade.
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A altitude, a composição do solo e a orientação natural conferem a esta propriedade, situada no concelho de Arraiolos, diferenças. O espaço da vinha das romãs – assim nomeada por nesse sítio ter havido um pomar de romaneiras – é singular dentro do mesmo domínio.
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O Vinha das Romãs 2014 é um lote de duas das minhas castas tintas preferidas, a syrah e a touriga francesa. Todo estagiou 20 meses em barricas novas de carvalho francês.
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Tem vida pela frente.
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Origem: Regional Alentejano
Produtor: Monte da Ravasqueira
Nota: 8/10
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Nota: Este vinho foi enviado para prova pelo produtor.

sexta-feira, setembro 29, 2017

Santa Vitória Branco 2016 + Inevitável 2015

Por vezes surpreendo-me com as certezas. Certamente por desatenção e alguma preguiça – na vida e no vinho. Quando me esqueço, fica algo por questionar. Felizmente tenho memória e constato esta falha.
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Vítimas disso são os vinhos Santa Vitória. Há sempre uma razão para as coisas, mesmo que seja inconsciente. Talvez aqui seja porque o meu sentido estético se estatela na roupagem das garrafas. Sim, penso que como todos, os meus olhos comem.
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Há uns meses fui almoçar ao Palácio dos Arcos, hotel do grupo Vila Galé, que é igualmente o produtor dos vinhos Santa Vitória. É uma unidade hoteleira de charme, com património bem cuidado e banhada pelo Sol e pelo seu reflexo na água de Entre-o-Tejo-o-Mar, cujo azul enche a alma.
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Aqui divide-se o texto. Agora está o vinho e, para lá, a história da casa.
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Serviram-me o Santa Vitória Branco 2016 e o tinto Inevitável 2015. Se o primeiro não encaixa completamente no meu gosto – não me refiro à qualidade – o segundo veio fundo. A responsabilidade enológica é de Patrícia Peixoto e consultadoria de Bernardo Cabral.
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Com bastantes notas tropicais, Santa Vitória Branco 2016 mostra-se fresco na boca. É resultado da junção de arinto e verdelho e não fez qualquer estágio em madeira.
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O Inevitável 2015 enche a boca e demora-se. Nele se notam os frutos vermelhos e compota da touriga nacional alentejana e o chocolate preto e ameixas em passa do syrah – variedades em partes iguais no lote.
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Quando anda muita gente a desdenhar a madeira, com exuberantes elogios à fruta e à flor – quantas vezes a razão é prosaica e respeita a euros de poupança – aqui houve um estágio de 14 meses em barrica e não retórica. Não sendo caruncho, gosto de madeira e as frutinhas e as florzinhas enfadam-me frequentemente.
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Santa Vitória Branco 2016
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Origem: Regional Alentejano
Produtor: Santa Vitória
Nota: 6/10
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Inevitável 2015
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Origem: Regional Alentejano
Produtor: Santa Vitória
Nota: 8/10
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Não fiz roteiro de todas as casas do país, mas este edifício é dos mais belos que conheço. Tal como a generalidade das casas nobres portuguesas, é um palácio pequeno, em que o estilo arquitectónico lembra várias coisas e todas reconhecíveis na estética nacional.
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Na história cabem muitas coisas: verdade, equívoco, lenda e mentira. Pelos sítios passam figuras e figurões, gente de carne e fantasmas. Pelas casas antigas passaram sempre reis, fidalgos caídos em desgraça, burguesia de mérito e paisanos famosos.
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Diz-se que o Palácio dos Arcos se tornou Paço dos Arcos. Por este paço – designação dos palácios onde pernoitou um monarca – anda a personagem de Dom Manuel I, possivelmente o primeiro monarca que ali se deitou.
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Contam que as caravelas e naus dali partiam para o mar-oceano. Há quem acrescente que O Venturoso ali se quedava para as ver afastar. Como se não lhe bastassem as vistas de Belém e Restelo e a marinhagem preferisse afastar-se mais de Lisboa. Parecem-me tão plausíveis quanto o Castelo de São Jorge ter tido as muralhas pintadas de vermelho.
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Conta-se que, a dado momento, a casa acumulou uma nomeação pleonástica: Palácio do Paço ou Paço do Palácio… uma das coisas. Situado na freguesia – e vila – de Paço de Arcos, parece-me muito crível que o edifício tenha dado o nome à terra.
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Erguido no século XV, foi mexido, remexido ou reerguido no século XVIII, consequência do terramoto e maremoto de 1755. Sinceramente, os meus olhos ainda lhe lêem o pitoresco do renascimento português, mas igualmente as pedras pombalinas.
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Com tanta idade, é natural que tenha tido muitos donos. Antão Martins foi quem o ergueu. Foi Capitão donatário da Vila da Praia, nos Açores, o que significava, à época, elevado estatuto. Não encontrei – nem me esforcei – o rasto dos seus proprietários, até chegar a Dona Teresa Eufrásia de Meneses.
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Visto a senhora não ter deixado descendência, ofereceu a casa e o seu Morgadio de Paço de Arcos ao amigo Dom Jorge Henriques, sexto senhor de Alcáçovas – família que, na pessoa do 14º senhor, recebeu o título condal, em 1834.
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A casa talvez tenha um feitiço, pois regularmente aconteceu fim de descendência, passando para parentes. A última beneficiada foi a família do Conde de Arrochela e Conde de Castelo de Paiva. Em 2001, a Câmara Municipal de Oeiras tomou a sua posse. Em 2013 tornou-se em hotel, após obras de reabilitação.
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O que tem isto a ver com o vinho? Sem pessoas e lugares não há narrativa. Sem história, a vida é mais pobre. Tal como se lhe faltar o vinho.
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Bastardinho de Azeitão 40 anos

Bonito por fora e por dentro, é um dos melhores vinhos que alguma vez provei. Confirma – mais além – a mercê da fama antiga. Atesta que em Portugal nem só no Douro e na Madeira se fazem obras de classe mundial.
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O Bastardinho de Azeitão 40 Anos é o último suspiro. Não há mais que conte dos tempos. A última vinha foi arrancada na década de 80 do século passado e, muito mais tarde, foi plantada uma nova, pela firma José Maria da Fonseca.
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Felizmente, mais produtores plantaram a casta bastardo – a trousseau – e agora há a espera. Uns vinhos virão mais cedo e outros vão demorar-se. Todavia, só dentro de 40 anos haverá para comparar com este que agora se finou.
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Na verdade, é ainda mais. O número 40 engana. Na verdade, este vinho é uma mistura de diferentes colheitas, entre os 40 e os 80 anos. Apenas 2.300 litros em garrafas de meio litro.
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O que define este vinho? Tanto e tanto e tanto e mais o que se possa imaginar ou mentir. Cheira e sabe a quê? A si próprio, e pouco importa um dicionário de etiquetas com referências redutoras ou hiperbólicas.
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A nomenclatura burocrática estampa-lhe uma injusta classificação de regional – não que seja desprimor para alguém ser regional, mas porque se refere a um vinho antigo e famoso. Por isso, não o deixam ser «generoso», apenas o plebeu «licoroso».
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Não tenho por hábito usar imagens de produto, mas aqui torna-se obrigatório. Quem possa, faça um brinde aos bastardinhos que virão.
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Origem: Península de Setúbal
Produtor: José Maria da Fonseca
Nota: 10/10
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O que é bonito, é bonito e deve ser visto!
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Bastardinho

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Era do Lavradio, de toda aquela península até ao mar da Caparica. Bebi tão pouco que quase não há.
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Chegava de fragata e já o Cacilheiro estreitava o rio entre a capital e a província. Pelo Tejo se ia ao piquenique, sob latadas ou corando no areal.
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Por ali piquenicar, dizia uma bisavó que não era da Caparica, era a Costa da Paparica.
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Não percebo por que se ia vestido para a praia. É tão bom assim quando o frio permite a areia secar e estaladiça se deixar definir pelas patas das gaivotas.
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Talvez por francesa, a Trousseau ali se tenha eternizado Bastardo. Ali saciava e atravessando o rio.
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Se o passado não tem futuro, e que, como a frase acima, seja incompleto para deixar esperança.
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Renascendo sem ressuscitar.
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Nota 1: Instalação luminosa de Regine Schumann
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Nota 2: A fotografia de Artur Pastor.
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Nota 3: Desenho de J. Novaes Jr
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Nota 4: Fotografias de autor não identificado.
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Nota 5: A fotografia de David Hixon.

terça-feira, agosto 08, 2017

Planalto Reserva Branco 2016

Os Planalto são vinhos que todos conhecemos. A fama ajuda e desajuda. Quando é a qualidade é fraca, o óbito é uma questão de tempo ou, eventualmente, a indigência. Quando é boa, o elogio passa de boca para orelha... o primeiro veio ao mundo em 1964.
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O Planalto Reserva Branco 2016 é vinho que combina com o Verão e, para sorte (mérito) do seu produtor, mantém-se visível nas prateleiras de venda. É vinho que vai com comida mais leve e acompanha bem a conversa, com 12,5% de álcool.
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A regularidade e a consistência são características que valorizo muito.
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Planalto Reserva Branco 2016
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Origem: Douro
Produtor: Sogrape
Nota: 4,5/10

segunda-feira, agosto 07, 2017

Quinta do Pôpa Touriga Nacional 2012 + Quinta do Pôpa Tinta Roriz 2012 + Quinta do Pôpa Vinhas Velhas 2013

A pensar para os dias depois do Verão… três vinhos com o carácter do Douro, com características bem diferentes – o que convém.
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A Quinta do Pôpa não é uma empresa com passado, mas está a construir o seu caminho. Não chegou uma desilusão e mantenha-se o empenho e o futuro terá luz.
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Não é comum no Douro fazerem-se monovarietais. Neste caso há dois e outro com o lote feito numa vinha velha. Um facto interessante é a ousadia de guardar vinho durante alguns anos, por saber que terão mais-valias.
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Digo ousadia porque a pressão de distribuidores, retalhistas e restauradores – talvez dos enófilos – impõe uma (i)necessidade de juventude. Às vezes dá para fantasiar com alguém a comprar vinho de vindima por acontecer – não confundir com os negócios de futuros.
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O Quinta do Pôpa Touriga Nacional 2012 traduz o Verão quente desse ano. Tem os sabor do doce das geleias de frutos vermelho e já uma ligeira patina, muito longe de sinónimo de cansado do tempo. E pode guardar-se.
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O Quinta do Pôpa Tinta Roriz 2012 não é melhor, mas preferi-o. Tem notas de noz-moscada e, ao fundo, cravinho. Aqui a patina do tempo é menos notória. E tem também vida pela frente.
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O Quinta do Pôpa Vinhas Velhas 2013… não sei bem o que dizer… É o Douro. Parece que as videiras antigas têm sabedoria. Devemos ouvir os antigos.
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Quinta do Pôpa Touriga Nacional 2012
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Origem: Douro
Produtor: Quinta do Pôpa
Nota: 7/10
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Quinta do Pôpa Tinta Roriz 2012
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Origem: Douro
Produtor: Quinta do Pôpa
Nota: 7,/10
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Quinta do Pôpa Vinhas Velhas 2013
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Origem: Douro
Produtor: Quinta do Pôpa
Nota: 8/10

Pouca Roupa Branco 2016 + Pouca Roupa Rosé 2016

Como o nome indica, os Pouca Roupa falam para o Verão, quando se desejam comidas mais leves e os corpos, sovados pela praia, ou apenas pelo calor, não desejam vinhos mais encorpados e alcoólico, ambos com 12,5%.
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O Pouca Roupa Branco 2016 fez-se com uvas sauvignon blanc, verdelho e viosinho. O Pouca Roupa Rosé 2016 engloba aragonês, cabernet sauvignon e touriga nacional. Ambos não tiveram estágio em madeira.
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Pouca Roupa Branco 2016
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Origem: Regional Alentejano
Produtor: João Portugal Ramos
Nota: 4,5/10
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Pouca Roupa Rosé 2016
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Origem: Regional Alentejano
Produtor: João Portugal Ramos
Nota: 4,5/10

domingo, junho 25, 2017

Loios Branco 2016 + Marquês de Borba Branco 2016

De Estremoz chegaram-me dois brancos diferentes um do outro – convém, mas nem sempre acontece – e complementares. Ambos felizes para o Verão e capazes de irem para a mesa com comida.
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O Loios Branco 2016 fez-se com as castas arinto, rabo de ovelha e roupeiro. Tem uma frescura e baixo teor de álcool, 12,5% – ainda há uns anos seria estranho. É para momentos descontraídos e alinha com saladas e mariscos.
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O Marquês de Borba Branco 2016 tem mais corpo e aguenta-se a pratos um pouco mais substanciais – isto não é cozido à portuguesa, obviamente. Direi queijos e carnes de aves. Tal como o anterior, a graduação alcoólica é de 12,5%.
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Embora antipatizando com a antão vaz, reconheço que quando em teores alcoólicos mais baixos funciona bem. A ela se somam uma das grandes castas portuguesas e uma francesa que se dá muito bem no Alentejo. O Marquês de Borba Branco 2016 é um lote de arinto, antão vaz e viognier.
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Loios Branco 2016
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Origem: Regional Alentejano
Produtor: João Portugal Ramos
Nota: 4,5/10
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Marquês de Borba Branco 2016
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Origem: Regional Alentejano
Produtor: João Portugal Ramos
Nota: 5/10
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Nota: Estes vinhos foram enviados para prova pelo produtor.

sábado, junho 24, 2017

Grão Vasco Branco 2016 + Grão Vasco Tinto 2016

Grão Vasco é das marcas mais antigas de que tenho na memória. É dum tempo em que o Dão tinha fama e em poucas casas havia uma referência com identidade. A região decaiu e está a ressurgir.
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Os renascimentos não se fazem sozinhos, mas quando uma empresa com a dimensão da Sogrape se põe a trabalhar é certo que a aposta é ganha. O Dão ainda não recuperou completamente a fama, mas têm surgido firmas competentes. Pela minha memória, fico feliz por o Grão Vasco estar nesta causa.
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Nestes dois vinhos, a Sogrape assume a imagem que marcou os rótulos: São Pedro no trono, pintura de Vasco Fernandes datada do início do século XVI. É uma associação feliz, visto o Grão Vasco, alcunha com que o artista passou para a história, ter uma ligação, por nascimento e ofício, à cidade de Viseu. Esta obra está no pequeno, mas excelente museu que herdou o nome deste mestre renascentista, situado na capital do Dão.
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Há uma outra novidade que surge na etiqueta: a referência a Carvalhais. A Quinta de Carvalhais é a principal propriedade da Sogrape no Dão e dá o nome a vinhos de grande qualidade. Aqui aparece como simples alusão, pois nestes nem todas as uvas foram colhidas no domínio.
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Contudo, o que importa não é o embrulho, mas o presente. As oferendas são o que deu fama à região: elegância. O Grão Vasco Branco 2016 é um lote de encruzado (39%), malvasia fina (37%), bical (16%) e gouveio (8%) e tem frescura e capacidade para acompanhar comida. O Grão Vasco Tinto 2016 é um conjunto de touriga nacional (42%), tinta roriz (25%), alfrocheiro (24%) e jaen (9%).
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Nenhum dos vinhos passou por madeira. Há uma moda ou tendência, em Portugal, de louvar os vinhos sem estágio em madeira – provavelmente, em grande parte, para não assumir os cortes nas despesas. Pois que sim e também pois que não, como em tudo.
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Reconheço que esta situação me chateia um bocadinho. Passa-se do elogio à madeira – mesmo quem não abusava – para o conceito do esplendor da fruta e das flores. Raramente, muito raramente, um tinto que não tenha passado por um recipiente de pau me contenta. Não que Grão Vasco Tinto esteja desgostoso, mas falta-lhe aquele-não-sei-o-quê…
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Mas de enologia e de vender vinho não percebo nada. E de previsões ainda menos.
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Quando foram apresentados, houve uma demonstração da longevidade dos vinhos do Dão. Tanto os brancos (1981, 1983 e 1992) como os tintos (1977, 1991 e 2006) estão joviais e são cheios de prazer.
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Grão Vasco Branco 2016
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Origem: Dão
Produtor: Sogrape
Nota: 6/10
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Grão Vasco Tinto 2016
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Origem: Dão
Produtor: Sogrape
Nota: 5,5/10

Assobio Branco 2016 + Assobio Rosé 2016

É Verão, pois é. Estes dois vinhos falam a sua linguagem. Alegram o fim do dia, a refeição e o serão. Descalço e sem pensar em preocupações. Tanto um como o outro, são filhos de uvas típicas do Douro.
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O Assobio Branco 2016 é um lote de códega de larinho, gouveio, rabigato, verdelho e viosinho. É um vinho com frescura, no nariz e na boca. É escorregadio e com um saudável volume de álcool: 12,5%.
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Não posso afirmar que um é superior ao outro, mas Assobio Rosé 2016 caiu-me mais no goto. É um lote de rufete, tinta roriz, tinto cão e touriga nacional. Este tem um teor alcoólico superior (13,5%), mas tem frescura que o alivia.
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Assobio Branco 2016
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Origem: Douro
Produtor: Esporão
Nota: 5,5/10
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Assobio Rosé 2016
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Origem: Douro
Produtor: Esporão
Nota: 5,5/10
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Nota: Estes vinhos foram enviados para prova pelo produtor.

sexta-feira, junho 23, 2017

Esporão V 2016 + Esporão 2 2016

Vieram ter ao meu copo dois vinhos brancos do Esporão, casa já sedimentada situada em Reguengos de Monsaraz, que se recomendam para o estio, que ainda agora começou e já mostrou o Inferno.
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O V significa verdelho e traz ao nariz o doce do maracujá e o fresco dos citrinos. É um vinho intenso na boca. Tem uma frescura que nem sempre se encontra nos brancos alentejanos.
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O 2 revela-se óbvio: duas castas. A roupeiro e a viosinho, em partes iguais. Não o coloca nem acima nem abaixo do anterior, mas encontro-o mais curioso, pela conjugação de duas variedades das terras quentes, mas afastadas. A roupeiro do Sul e a viosinho do Douro.
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Embora com notas cítricas, o 2 não é parecido com V. Nem que seja por isso, vale a pena compará-los em simultâneo ou em sequência. Só porque é giro! J
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V (Verdelho) 2016
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Origem: Regional Alentejano
Produtor: Esporão
Nota: 5,5/10
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2 (Duas Castas – Roupeiro e Viosinho) 2016
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Origem: Regional Alentejano
Produtor: Esporão
Nota: 5,5/10
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Nota: Estes vinhos foram enviados para prova pelo produtor.

Papa Figos Branco 2016

O papa-figos é um passarinho bonito e migratório. O Papa Figos é um vinho com carácter inspirado na leveza que se espera duma pequena ave. Não vai e vem todos os anos, porque cada ano é um nado-vivo.
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Este branco é o segundo passarinho. Naturalmente estará para criar ninho, pois teve muito acolhimento – como acontecia também com o tinto. Os rótulos distinguem-se pelo género da ave: o macho surge no tinto e a fêmea no branco.
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O Papa Figos Branco 2016 é um lote de castas típicas do Douro e a arinto, que, apesar de plantada na região, lembra-me outros locais – variedade que sou muito apreciador. A fórmula: 55% de rabigato, 15% de viosinho, 15% de arinto, 10% códega e 5% de moscatel galego. Os frutos vieram de vinhas de locais elevados, da sub-região do Douro Superior.
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Papa Figos Branco 2016
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Origem: Douro
Produtor: Casa Ferreirinha (Sogrape)
Nota: 5,5/10
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Nota: Estes vinhos foram enviados para prova pelo produtor.

Tyto Alba Tinto 2013

Há surpresas, mesmo quando chegam de casas que conhecemos qualidade e enólogos de competência – Companhia das Lezírias e Bernardo Cabral. Fiquei deslumbrado com este tinto.
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A simplicidade é algo mais complicado do que o pensamento súbito pode concluir. Nada me pareceu a mais. A perfeição não existe, aqui poderia dizer que aconteceu. Porquê? Nada em especial: caiu-me no goto.
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Fez-se com alicante bouschet, touriga franca e touriga nacional. Os 14% de álcool não lhe pesam.
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Origem: Tejo
Produtor: Companhia das Lezírias
Nota: 6/10

terça-feira, junho 06, 2017

Cistus Grande Reserva 2009

Belo! Não me ocorre outra palavra. Digo que aqui não é adjectivo, mas substantivo. É um vinho que tem a alma do Douro, não engana, de aroma e paladar. Está vivo e promete cá andar uns bons anos.
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O produtor declara Cistus Grande Reserva apenas em anos que considera excepcionais. Antes deste houve em 2004 e 2008.
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Este vinho, filho de uvas da sub-região do Douro Superior, é um lote de tinta roriz (42%), touriga franca (35%) e touriga nacional (23%). Estagiou durante 21 meses em barricas novas de carvalho francês.
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Origem: Douro
Produtor: Quinta do Vale da Perdiz
Nota: 8/10

segunda-feira, junho 05, 2017

Lancers Branco + Lancers Rosé + Avis Rara Branco 2016 + BSE 2016 + Periquita Branco 2016 + Periquita Rosé 2016 + Quinta de Camarate Branco Seco 2016 + Quinta de Camarate Branco Doce 2016 + Quinta de Camarate Rosé 2016 + Colecção Privada Domingos Soares Franco Verdelho 2016 + Colecção Privada Domingos Soares Franco Moscatel Roxo 2016

A firma José Maria da Fonseca apresentou as propostas para o Verão. É claro que os vinhos devem ser bebidos quando apetece, mas há épocas em que cada género acompanha melhor. Não gosto da expressão «vinho para o Verão», todavia não encontro, de momento, outra melhor.
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Como é Verão, esta empresa criou um guia de esplanadas: www.guiadeesplanadasbse.pt
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São 11 vinhos. Não há refeição ou outro convívio que não tenha proposta desta vinícola de Azeitão. Dos mais populares aos mais formais – embora a formalidade no Verão seja um conceito um pouco extravagante.
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A propósito de extravagância, apareceram uns extraterrestres. Quero com isto dizer, uns vinhos que poucos ousam fazer: ou estão fora de moda ou parece mal ou outra coisa qualquer. Deixo-os para o fim.
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O Lancers é um clássico português, tendo surgido em 1944, sucedendo ao Faísca. Começou por ser apenas rosé e há uns anos evoluiu para um vinho branco. Tem o Verão no ADN. Esta edição tem uma imagem renovada.
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A firma abriu concurso para uma edição especial, restrita a alunos do IADE (Instituto de Arte, Design e Empresa), tendo recebido cerca de 150 propostas. Escolheu a ideia de Soraia Morgado, que se inspirou na pop art e na banda desenhada.
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Uma vez mais, o Lancers não desilude. Ano após ano, a regularidade impera. Pese que esta edição não tem indicação de ano de colheita. Isto é válido tanto para o branco quanto para o rosado.
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O BSE 2016 mantém-se fiel à tradição. Leve e despreocupado, pronto para a mesa ou só para a diversão. Quem me lê sabe o quanto detesto a casta antão vaz… pois Domingos Soares Franco, que dirige a enologia, consegue pôr-me a gostar de um vinho com aquela uva maldita. Aqui, está com 64%, sendo a parte restante de arinto.
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O Periquita Branco 2016 tem outro balanço, pede mais mesa do que o BSE. Continua descomplicado e fácil e não o dou como vinho de estação. Não é só para Junho a Setembro. Fez-se com verdelho/verdejo (62%), viognier (33%) e viosinho (5%).
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O Periquita Rosé 2016 é um vinho de calções. Direi que tem menor vocação de mesa do que o irmão branco, mas vai lindamente com umas saladas e grelhados. Fez-se com castelão (52%), aragonês (26%) e trincadeira (22%).
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Achei o Quinta de Camarate Branco Seco 2016 um pouco excessivo na boca. Cansou-me um bocadinho. Possivelmente devido à quantidade de alvarinho (77%), que a Sul nem sempre sai do meu agrado. A parte restante é de verdelho.
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O Quinta de Camarate Rosé 2016 tem a cereja pouco madura e toques vegetais, da touriga nacional (72%) e da cabernet sauvignon (28%). Dançam bem uma com a outra e daí resulta um vinho para a mesa.
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Domingos Soares Franco assina alguns dos vinhos da empresa, responsabilidade incomum. Colecção Privada Domingos Soares Franco Verdelho 2016 expressa uma saborosa tropicalidade, sem qualquer enjoo. Este não é para piscina, é para a mesa, mesmo que se continue com chinelos havaianos.
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Acho que me convenceram. Tanto estranhei os rosés de moscatel roxo que acabei rendido. O Colecção Privada Domingos Soares Franco Moscatel Roxo 2016 é para a mesa ao fim da tarde.
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Agora os extraterrestres. Na década de 80, do século passado, surgiu um branco doce que fez sensação. Produzido na Península de Setúbal, com uvas moscatel de alexandria, o João Pires era muito procurado e aplaudido.
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Depois passou de moda. Há muitos factores que levam as coisas – e as pessoas – a passarem de moda. Não irei por teses sábias quanto a isso. Digo é que, além de deixar de ser fixe, o doce tornou-se foleiro.
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Ora pois, que juízo tenho pouco – não por questão de gosto, mas por ao assumir – tenho a declarar que gosto de vinhos doces. Não me refiro aos consensuais de vindimas tardias, generosos e licorosos. Gosto dos chamados «vinhos maricas».
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Aqui há coragem de dar a volta ao preconceito. A José Maria da Fonseca decidiu fazer vinho doce com qualidade e, espero, tire as teias de aranha da cabeça de muita gente.
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O Quinta de Camarate Branco Doce 2016 resulta dum lote de alvarinho (72%) e loureiro (28%) e mostra-se elegante, com ares frescos e sabores mais gordos. Não sei que comida lhe pôr, mas irá bem…
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O Avis Rara Branco 2016 é mesmo maluquice. É um salto às memórias da década de 80. Não é que seja o gémeo do João Pires, mas a gulodice do moscatel (50%) é rica em lembranças. A parte restante é de fernão pires. Vem dos solos quentes de areia e traz as flores da primeira casta e o pêssego da segunda.
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Lancers Branco
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Origem: x
Nota: 4,5/10
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Lancers Rosé
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Origem: x
Nota: 4,5/10
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Avis Rara Branco 2016
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Origem: Regional Península de Setúbal
Nota: 5/10
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BSE 2016
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Origem: Regional Península de Setúbal
Nota: 5/10
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Periquita Branco 2016
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Origem: Regional Península de Setúbal
Nota: 5,5/10
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Periquita Rosé 2016
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Origem: Regional Península de Setúbal
Nota: 5,5%
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Quinta de Camarate Branco Seco 2016
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Origem: Regional Península de Setúbal
Nota: 6
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Quinta de Camarate Branco Doce 2016
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Origem: Regional Península de Setúbal
Nota: 6
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Quinta de Camarate Rosé 2016
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Origem: Regional Península de Setúbal
Nota: 6,5/10
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Colecção Privada Domingos Soares Franco Verdelho 2016
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Origem: Regional Península de Setúbal
Nota: 7,5/10
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Colecção Privada Domingos Soares Franco Moscatel Roxo 2016
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Origem: Regional Península de Setúbal
Nota: 7,5/10