quarta-feira, janeiro 24, 2007

(Memórias do) Vinho de Carcavelos

Perdi a noção ao tempo. Não sei qual foi a última vez que traguei um Carcavelos nem vislumbro minimamente o evento para que possa ter uma aproximação da data. A minha lembraça do Vinho de Carcavelos é antiga, a preto e branco.
As crianças não bebem vinho, já se sabe. Porém, o meu pai era apreciador, hoje não pode beber, e lá em casa havia sempre vinho. Eu, como todos os miúdos, gostava de imitar os adultos, sobretudo o exemplo do pai. Quando havia festa abria-se um vinho especial. De vez em quando calhava um Vinho de Carcavelos. Como era doce deixavam-me bebericar um bocadinho, coisa pouca, pequenino trago. Este talvez tenha sido o primeiro vinho que bebi. O meu pai não se lembra, como não se lembra também do seu primeiro néctar. Talvez tenha sido um Carcavelos, pois a família tem tradição em Belém e Estoril e entre um poiso e outro ficavam (ficam) os vinhedos. E de que me lembro? Dum odor e sabor delicados, de toque muito macio na boca e um doce amendoado. Mas isto são generalidades!
O Vinho de Carcavelos é um vinho generoso de grande tradição, mas que perdeu o encanto por falta de comparência de vinhas, adegas e produtores. O grande azar da região e dos enófilos é a proximidade de Lisboa: a cidade cresceu e tornou-se numa metrópole, engolindo à volta as vilas, as aldeias e os campos. Onde antigamente havia quintas hoje há urbanizações, empresas, estradas, edifícios públicos e todo um património edificado pertencente à sociedade urbana.
Embora seja muito antiga a fama do Vinho de Carcavelos, só em 1908 é que a região foi demarcada. No entanto, o prestígio já era bastante grande no século XVIII. Sabe-se que Sebastião José de Carvalho e Melo, primeiro conde de Oeiras e primeiro marquês de Pombal, era um apreciador deste vinho e também produtor na sua quinta às portas de Lisboa.
A Denominação de Origem Controlada abrange os concelhos de Cascais e de Oeiras: (freguesias de Carcavelos, Parede, São Domingos de Rana, e parte das freguesias de Alcabideche - lugares de Carrascal de Manique de Baixo e Bicesse e do Estoril - lugares de Livramento e Alapraia; parte da freguesia de Oeiras e São Julião da Barra - lugares de Ribeira da Laje, Cacilhas e Porto Salvo, parte da freguesia de Paço de Arcos - a faixa confinante com a freguesia de Oeiras e São Julião da Barra até à Ribeira de Porto Salvo). Este generoso faz-se tanto com uvas tintas (castelão e preto martinho) como brancas (galego dourado, ratinho e arinto). As castas obrigatórias têm de constar sempre num mínimo de 75% do lote. Sendo um generoso, o teor de álcool mínimo é de 15% e o máximo de 22%.
O Vinho de Carcavelos partilha com alguns Vinhos do Porto algumas parecenças, além do facto de ser generoso. A semelhança está no facto de ser comum tratar-se de um vinho de lote de vários anos, em que a qualidade é uniformizada através da adição colheitas de estirpe superior, embora também existam garrafas duma só vindima. Assim sendo, as semelhanças acontecem com os Porto Ruby e Tawny. Um outro ponto de contacto deu-se no século XVIII, mandava então no Reino de Portugal, como secretário de Estado, o marquês de Pombal. Em 1756, Sebastião José de Carvalho e Melo demarcou a região do Douro (Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro), proibindo o trânsito de vinhos doutras proveniências para aquela parte do país, punindo quem o fizesse com a pena de morte. Porém, se reconheceu a qualidade superior dos vinhos do Douro para não os querer mestiçados com outros portugueses, o conde de Oeiras abriu uma excepção para o vinho de Carcavelos. Poderá questionar-se se a «benevolência» do governante se deveu à qualidade ímpar dos vinhos próximos de Lisboa ou ao facto dele próprio ser produtor de vinho em Oeiras.
Maquinações conspirativas à parte - até porque as duas situações podem ser verdadeiras e nenhuma interessa agora explorar -, o facto é que o marquês de Pombal era apreciador do Vinho de Carcavelos, tanto que o enviou numa importante embaixada ao Imperador da China em 1752.
No século XVIII Carcavelos não chegava a ser uma aldeia, era mais um lugar de algumas casas, com hortas e vinhas. O retrato hoje não pode ser mais diferente. A ruralidade está tão distante que não se sabe ao certo quantas quintas produzem ainda Vinho de Carcavelos, nem o local se presta, como no campo português, a bater às portas e perguntar às gentes aquilo que se quer saber. Há quem diga que restam duas quintas produtoras, embora sobreviva uma meia-dúzia de propriedades rurais com vinhas. Certa, certa a produzir é a Estação Agronómica Nacional, uma dependência do Ministério da Agricultura, que está instalada na antiga quinta do marquês de Pombal. No entanto, há quem me garanta que a Quinta dos Pesos ainda vinifica e até há bem poucos anos havia vida na Quinta do Barão (de Mossâmedes). A quantidade produzida hoje é diminuta, irrisória, uma mera curiosidade. No século XVIII a Quinta do Marquês (de Pombal) chegou a dar 500 pipas num ano. Hoje, serão uns poucos milhares de garrafas?
Hoje é quase uma curiosidade histórica. A boa notícia é que o Vinho de Carcavelos vai ter um museu, que se situará na Quinta do Barão e cuja instalação está a cargo da Câmara de Cascais. O espaço vai abrir ao público até ao final de 2007. O núcleo museológico ficará situado na antiga adega e desconheço o futuro do terreno envolvente. Desconfio que, ficando a adega ocupada e tratando-se duma zona cercada por espaço urbano, a célebre Quinta do Barão - existente desde o século XVIII e produtora desde essa época - se torne em mais um espaço edificado. O meu coração parte-se. O fígado chora.
E de que me lembro? Dum odor e sabor delicados, de toque muito macio na boca e um doce amendoado. Mas isto são generalidades! Tenho muitas saudades e muito mais curiosidade.

Nota: Imagem do palácio dos condes de Oeiras e marqueses de Pombal.

5 comentários:

sxwwdfox disse...
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Kroniketas disse...

Mas procurando bem ainda se pode encontrar à venda. Recentemente vi, não me lembro onde, mas creio que foi num hipermercado.

João Barbosa disse...

Lá encontrar, encontra-se, o que há é pouca gente a fazê-lo. Sei que se vende nas garrafeiras Coisas do Arco do Vinho, Garrafeira de Campo de Ourique, na Estação Agronómica Nacional... no restaurante Lisboa à Noite também há. O que me dói a alma, coração e fígado é o desaparecimento dos vinhedos e produtores. Quando um vinho para existir tem de ser feito pelo Estado quer dizer que é um «bicho em vias de extinção».
Saudações

Edgard Piccino disse...

Pode exportar vinhos para o Brasil, aqui tem mercado e o melhor Vinho Verde que recebemos é o Casal Garcia...

João Barbosa disse...

a coisa vai mal... temos de melhorar isso!