terça-feira, agosto 12, 2014

H’our Branco 2012 e H’our Tinto 2010

Quando era miúdo tinha uns livros muito giros do Hergé, as aventuras de Joana, João e do macaco Simão. Ora, os amigos Joana Pratas e João Nápoles podia adoptar um macaquinho, mas em vez disso meteram-se a fazer vinho.
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Ainda bem, porque os chimpanzés devem viver no seu habitat ou nos zoos, e os vinhos destes dois simpáticos e bem-dispostos vitivinicultores podem ser visitados em mais sítios. E em boa Hour se desafiaram. H’our é a marca dum branco, dum tinto e dum azeite delicioso.
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A propriedade era originalmente uma, mas as necessárias partilhas separaram-nas. Num lado está a Quinta do Monte Travesso – com néctares muito bons – e noutra nasceu a Quinta de Montravesso. O domínio fica na sub-região duriense do Cima Corgo, entre a Régua e o Pinhão. O enólogo é Pedro Francisco.
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O azeite, infelizmente, é pouco, pouquíssimo. Notei-o num equilíbrio entre a tradição e a tendência mais moderna, em que os aromas naturais e frescos fazem apetecer molhar o pão ou regar alimentos em cru.
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Tanto pela quantidade como pela qualidade, o Azeite Virgem Extra enquadra-se no que se pode chamar de segmento de «ourivesaria». As árvores têm entre 60 anos e um século. As cultivares são as tradicionais da região: cobrançosa (50%), negrinha (20%), madural (20%) e verdeal (10%). Em 2013 engarrafaram-se apenas 300 garrafas. Este ano foram 6.300, o que é praticamente o mesmo. Ponham-se na fila depressa, antes que esgote.
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Quanto ao vinho... João Nápoles vendia uvas à Sogrape e o que sobrava não lhe acrescentava o valor de ter uma marca própria. Mas em 2010 nasceu a ideia de lançar um vinho de quinta (embora sem menção no rótulo). A culpa é da Joana, é uma empresária cheia de genica, com espírito de iniciativa e de talento empreendedor.
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Bingo! A Joana Pratas estava certa. A aposta foi ganha. Dois belíssimos vinhos.
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A altitude da Quinta de Montravesso situa-se entre os 450 e os 550 metros e o solo é de xisto. As trepadeiras estão bem instaladas, pois não necessitam de rega. Querem melhor exemplo de «terroir»?!
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A quinta é pequena, mesmo para os parâmetros da região, com apenas 14 hectares, dos quais 12,5 de vinha. As castas tintas são touriga nacional (dois hectares), tinta barroca (1,5 hectares), tinto cão (0,5 hectare) e sousão (3.000 metros quadrados). As brancas são: viosinho (1,3 hectares), verdelho (um hectare), rabigato (um hectare) e côdega (um hectare). A estas áreas somam-se perto de três hectares de vinha velha, que como é comum no Douro é formada uma grande variedade de cultivares.
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Quem habitualmente me lê sabe que («nunca») falo de preços nem de relação entre a qualidade e o preço. Cada um tem um padrão de qualidade e suas balizas de euros. Não é por isso que entrarei agora. Mas vou cingir-me a um patamar concreto, usado comercialmente: está num segmento médio e a puxar para cima ligeiramente.
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Em vez de enunciar as chatíssimas notas de prova – é que não me apetece mesmo e cada vez menos – digo que tanto o H’our Tinto 2010 como o H’our Branco 2012 mostram bem o que é o Douro do Cima Corgo, com evidente frescura. São vinhos que agradecem comida.
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Negativo: não há touriga franca na quinta.
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H’our Branco 2013
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Origem: Douro
Produtor: PNC
Nota: 7,5/10
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H’our Tinto 2010
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Origem: Douro
Produtor: PNC
Nota: 7,5/10

segunda-feira, agosto 04, 2014

Quinta da Ponte Pedrinha Branco 2013 - Quinta da Ponte Pedrinha Tinto 2012 - Quinta da Ponte Pedrinha Touriga Nacional 2012

Acabei de publicar no blogue o texto da Adega de Borba em que referia, como aspecto claramente positivo, a regularidade da qualidade, a fiabilidade.
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Fiabilidade quanto à qualidade intrínseca, quer no respeito pela identidade da região e pelo ano em que foram colhidas as uvas.
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Ainda outro dia me queixei da tourigação que anda neste país. Mas há duas excepções, que quanto a mim definem as duas linhas por onde vão os vinhos de touriga nacional, o Dão e o Douro.
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Falando apenas de gosto pessoal – que é a regra do blogue – tendo sempre para o Douro, até na touriga nacional. Mas isso é gosto e um resultado de local. No Dão sobressaem as violetas, às vezes com mais uma ou outra flor.
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O Quinta da Ponte Pedrinha Touriga Nacional mostra bem a casta. Passar uma refeição com amigos a falar de vinhos é uma chatice, mas não os comentar é uma injustiça – tal como a comida. Esqueço-me dos marrões (nerd – não queria escrever em inglês) dos vinhos (os enochatos, grupo em que tento não me incluir) que podem esmiuçar... safa! Numa mesa com gente normal e que gosta de vinho – estando a entrar ou simplesmente apreciar no modo «gosto» ou não gosto» - este néctar é didáctico. É uma touriga nacional do Dão.
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Aliás, os outros vinhos mantém essa certeza. Respeito pela região. Penso que acrescentar será mais do mesmo. O branco tem a frescura da encruzado – de todos os que bebi deste produtor, este foi o que caiu melhor – e o tinto define igualmente a região, com o lote de touriga nacional, alfrocheiro, trincadeira e jaen.
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Quinta da Ponte Pedrinha Branco 2013
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Origem: Dão
Produtor: Quinta da Ponte Pedrinha
Nota: 7/10
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Quinta da Ponte Pedrinha Tinto 2012
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Origem: Dão
Produtor: Quinta da Ponte Pedrinha
Nota: 6/10
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Quinta da Ponte Pedrinha Touriga Nacional 2013
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Origem: Dão
Produtor: Quinta da Ponte Pedrinha
Nota: 6/10
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Nota: Estes vinhos foram enviados para prova pelo produtor.

Montes Claros Reserva Branco 2013 e Montes Claros Reserva Tinto 2012

Bebi estes dois vinhos e dei por mim a pensar acerca do que escrever. Seja para premiar, seja para criticar, qualquer juízo tem de ter uma fundamentação. Só sim ou só não... não deve ser assim.
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Sentei-me para escrever e senti aquela força negativa da síndrome do papel em branco, mal que afecta todos os criadores. Deixei a folha do word aberta e infotocopiei, feicebuquei, sarfei na internet, adiei, e o mesmo, e o mesmo e e o mesmo.
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Resumir o vinho a notas de prova é quase insultuoso, quer para o vinho, quer para quem o fez, quer para quem o bebe. As notas de prova são giras para jogos de convivas à mesa. Duvido que alguém compre um vinho por causa das notas de prova.
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Olhei tantas vezes para os meus apontamentos e fiquei com a mesma sensação que tinha nos testes de matemática:
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– O que é que eu faço?...
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Convém referir que eu era (sou) tão dotado para a matemática que os professores, para me incentivarem, me davam as notas em linguagem binária... 0 e 1.
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Hoje ocorreu-me o modo de definir estes dois belíssimos vinhos, sentimento que é, obrigatoriamente, extensível à empresa e quem o faz: Suíça.
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– Suíça?!
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– Sim! Rigor, certeza, fiabilidade e qualidade.
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A qualidade dos vinhos da Adega de Borba e do seu enólogo, Óscar Gato, é uma certeza. A fiabilidade e a segurança de comprar estes vinhos é uma conquista de toda uma equipa. Sim, nota-se a añada nos vinhos da empresa e estes contam com os elogios já referidos.
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Claro que não aprecio castas estrangeiras aprovadas para vinhos DOC (denominação de origem controlada), mas quanto a isso nada posso fazer; é assunto dos produtores. Claro que não gostei da presença do antão vaz – e quase contradição acerca do que acima escrevi sobre as cultivares.
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A respeito da antão vaz só tenho a dizer que a arinto faz milagres!
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O branco fez-se com antão vaz, arinto, roupeiro e verdelho. O tinto resultou de aragonês, touriga nacional, cabernet sauvignon (deu frescura, a sua verdura) e syrah.
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Montes Claros Reserva Branco 2013
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Origem: Alentejo
Produtor: Adega de Borba
Nota: 6,5/10
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Montes Claros Reserva Tinto 2012
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Origem: Alentejo
Produtor: Adega de Borba
Nota: 7,5/10
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Nota: Estes vinhos foram enviados para prova pelo produtor.

João Portugal Ramos Vinho Verde Loureiro 2013

Como pode uma região destruir-se ou, pelo menos, não se construir se tem argumentos para ascender?
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Apesar dos renomeados alvarinhos de Monção e Melgaço, que conseguem com mérito afastar-se do retrato-robô e de poucos produtores – em número e muitíssimo menos em percentagem no todo da região – a região dos Vinhos Verdes é reconhecida pelos preços (tão) baixos que, não tenho dúvidas, estraga negócio a quem faz bem feito e tem um projecto profissional, não apenas técnica, mas também de gestão.
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Pergunto-me, muitas vezes, o que passará pela cabeça dum alemão, apreciador de vinho, mas sem ser erudito, quando vê numa prateleira Vinho Verde que custa trocos e outro que tem mais umas moedas em cima.
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Outra pergunta que me faço é que reacção tem um consumidor que experimentou Vinho Verde de cêntimos quando bebe um vinho «a sério».
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Felizmente, tem aparecido gente apostada em descolar-se dessa realidade de vinho baratucho – diga-se que é enorme a quantidade de Vinho Verde ao nível do decapante – e com sucesso. Que mais surjam.
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Há na região produtores que, apesar de venderem barato, sabem o que fazem e nada disso é condenável. A Aveleda é um produtor que sabe fazer bem e barato – produzir em grande quantidade não é fácil e os vinhos desta sociedade antiga e familiar de Penafiel merecem todo o respeito.
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Não vou entrar em enumeração de produtores, pois iria ser injusto com esquecidos, mas achei por bem notar o caso da Aveleda, que até na dimensão é um caso à parte.
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Com este enquadramento pretendo notar que é muito benvinda – lamento, mas bem-vinda não tem lógica, os doutores da língua que aprendam – a chegada de João Portugal Ramos à região dos Vinhos Verdes.
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O Vinho Verde vende bem e João Portugal Ramos sabe fazer e gerir bem. Chegar ao Vinho Verde só mostra que a região quem potencial para vinho de qualidade e que o faro de negociante rastreou consumidores – pelo menos lá fora – dispostos a pagar mais. Cá, duvido. Não perguntei, mas palpita-me que esta entrada no Noroeste é mais para exportar.
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Quanto ao vinho em si... surpreendeu-me alguém não fazer um monovarietal de alvarinho na sub-região de Monção e Melgaço. Surpreendeu-me e bem, muito bem. Aqui, o lote é constituído em 85% por uvas da variedade loureiro, ficando o alvarinho com a parte restante.
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O Verão vai alto, mas com tempo bastante para saciar fins-de-semana e férias, além de que os brancos, mesmo os leves, não são consumíveis apenas no estio.
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Este é do mais fresco – ou refrescante – que há. É uma delícia! Pelos citrinos... e com uma elegância feminina das flores de laranjeira, um pouquinho de jasmim... um pequeno jardim.
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Origem: Vinho Verde
Produtor: João Portugal Ramos
Nota: 6,5/10


domingo, julho 27, 2014

Haxixe Vintage 2011

Há vinhos para todos os gostos – quiçá até para quem não gosta de vinho. Tenho o meu, e não sendo o único que me interessa, é o que me toca. Qual é o meu gosto? Penso que, como toda a gente, não tenho um padrão a preto e branco, nem mesmo com densidades de cinzento, mas com todas as cores.
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E dou graças a Deus pelas contradições...
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Há vinhos para gostos, conceitos, tesouraria... Que mal tem fazer vinho para as massas? Nada, só que pode ser entediante, pois a tendência é para seguir os mesmos caminhos. Independentemente da qualidade intrínseca do vinho.
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Um dos meus tintos preferidos é um vinho para concurso e tem o condão de agradar ao estreante e ao conhecedor experimentado.
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Há vinhos perfeitos? Se houver uma definição taxativa talvez haja. Mas o que há, e com toda a certeza, são vinhos «perfeitinhos».
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O perfeitinho é mau? Talvez não. Mas não tenho de gostar. Compreendo perfeitamente quem os faz e quem os encomenda. Lembram-me uma namorada de Verão, uma francesa linda, de olhos azul-cobalto e cabelo dourado, boca fina, sensual... cansou-me tanta beleza e simetria.
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Há produtores que estão no vinho por arte. Outros são obrigados a fazer cedências por causa do vil metal. Há os que consideram um mero investimento ou uma forma de rentabilizar a propriedade que compraram para o fim-de-semana. Há os que insistem numa dissonância, o tropeço pensado ou permitido. Os perdulários e que perdem alegremente fortunas, os que querem fazer milhões, os que querem centenas de milhares, os que querem dezenas de milhares, os que querem milhares, os que conseguem produzir numa garagem e os que fazem num alpendre.
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Haverá mais géneros, mas a ideia é esta. Todas válidas e que, por si, não significam bom nem mau, prazer ou desgosto. Não entro na discussão se é mais difícil fazer uns milhões ou 2.500 garrafas – isso é misturar competência técnica, com ou sem talento artístico e criativo ou capacidade de diferenciação – com artesanato, com ou sem talento artístico, capacidade de diferenciação ou competência técnica.
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Só ao de leve – porque não é assunto meu – não me parece certa a aposta na promoção duma só casta. Penso que devíamos vender Portugal e isso quer dizer lote, até talvez só castas portuguesas... mas não tenho de pagar ao enólogo, ao técnico de viticultura, ao adegueiro, aos vindimadores, os fitofármacos ou os do biológico, nem designer, nem rótulos, nem gráfica, nem vidro, nem rolha, nem cápsula, nem selo de certificação, nem a comerciais, nem viagens, nem pavilhões em feiras...
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Vou dar um exemplo pessoal. Com o tempo comecei a compreender o meu pai e suas opções. A minha frustração, quase zanga, adolescente deu lugar a um agradecimento. O meu pai é artista plástico – agora chamam-se artistas visuais – e cresci entre telas, madeiras, cobre, pincéis de pêlo de marta, diluentes, petróleo, tinta de óleo (entediantes esperas para que secasse e pudesse voltar a dar tinta), vernizes, espátulas, cavaletes, estiradores, cadeiras altas, papel, aguarelas, desilusões por preferir o inacabado ao acabado...
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O meu pai, hoje com 90 anos, não pinta; falta-lhe precisão na visão, segurança na mão e outros problemas físicos comuns nos velhos – velho é uma palavra bonita!
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O nome do meu pai não é conhecido do grande público, nem mesmo de toda gente que anda no negócio. Há questões geracionais, afastamentos... Consta da mais ampla obra publicada, que conheço, de resenha de artistas plásticos portugueses do século XX. Está presente em museus de vários países, em colecções privadas, em Portugal e no estrangeiro, mais ou menos conhecidas, em instituições – pese que nunca tenha gostado nem fosse particularmente dotado para o retratismo.
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O meu pai deixou de pintar, se não erro, em 1998, quando teve um acidente vascular cerebral, que não deixou mossas, aos 74 anos, idade produtiva em qualquer actividade intelectual. Tive pena. Já há muitos anos que não expunha a solo, apenas em colectivas.
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O meu pai tinha/tem talento e foi reconhecido bem no início de trabalho. A sua geração está reduzida, embora permaneça um fresquíssimo e maravilhoso Júlio Pomar. Começou bem ou até muito bem.
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A dada altura foi pai e deparou-se com um dilema:
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– Pinto o que gosto e quero ou pinto o que gosto menos, que não pensara, que recusara, mas que me dá para pagar as despesas, agora que tenho filhos?
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Compreendo-o e hoje enternece-me e agradeço-lhe a abnegação. Deixou a vanguarda portuguesa – sem que algum par o tenha criticado pela frente ou nas costas, porque essas coisas acabam sempre por se saber – e dedicou-se ao facilmente vendável – e nunca foi um Tony Carreira ou Toy da pintura – nasceu uma frustração que deu origem a alcoolismo, em que foi, cada vez mais, desistindo dos bons vinhos e bons destilados, que em boa hora os deixou, até ao nível «do que me dá menos variações de humor ou irascibilidade».
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Apurou a técnica e a análise, estudou sempre e investigou, chegando ao ponto de ter sido referenciado (talvez injustamente) como quem, em Portugal, sabia compor tinta à moda duma época ou dum mestre e capaz de perfeitamente dominar a aplicação de folha de ouro.
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Tenho em casa uma reprodução – não nas medidas do original – do retrato de Dom Sebastião, de Cristóvão de Morais, patente no Museu Nacional de Arte Antiga, onde passou semanas a analisar e estudar a obra. Este que tenho na parede foi um ensaio para a encomenda que lhe fizeram, e durante anos teve colados pequenos adesivos a indicar tons... onde vejo um ou dois pretos – a maioria das pessoas não consegue topá-las – o meu pai tinha talvez mais de dez.
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Esta partilha de intimidade – provavelmente desnecessária – serve para mostrar que compreendo e aceito todos os modos de se estar no vinho e que considero que mais do que alimento, vinho é arte. Sem soberba, penso ter alguma autoridade para opinar acerca do tema do vinho, pelo que já expliquei.
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Filho de pai alcoólico, a minha mãe, quando comecei a levar o vinho para o centro da minha vida, apavorou-se e hoje está tranquila, seria natural que abominasse álcool ou me tivesse tornado viciado. A única coisa que me destroça os nervos são as pessoas que se comportavam como o meu pai – que nunca andou bêbado na rua nem a cair, fazendo tristes figuras. Trabalhei com uma pessoa, jornalista competente, com quem me impacientava e engolia e engolia enervado, pois era um sósia.
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Deixei de comprar a revista Wine por causa duma «besta» – relativamente polida – cuja opinião é muito levada em conta: José Peñin.
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Nunca gostei das suas opiniões, embora as lesse, embora o achasse banalíssimo. Não o leio, porque não me interessa.
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O José Peñin – que talvez seja boa pessoa e amigo do seu amigo – sabe mais de vinho em coma induzido do que eu acordado e com 15 cafés. Mas é um talibã, obrigatoriamente com ideias feitas, muitas delas pouco ou mal pensadas.
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Escreveu, dando lições de moral, numa soberba insuportável, o que deve ser um enófilo. A dada altura sobe ao pedestal para se diferenciar dos demais e diz qualquer coisa deste género: O enófilo esclarecido é aquele que aprecia e que sentindo a tentação do álcool a sabe evitar e resistir à alarve tentação, que é coisa de brutos e alcoólicos... Algo mesmo MUITO assim.
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Em primeiro lugar, o que escreveu é besteira, mas o que me indignou foi a soberba. Não estou para ler parvoíces. Além do mais, o que escreveu traduz que não sabe absolutamente nada do que é a história do vinho e da cultura do vinho. Do vinho e doutros álcoois.
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O vinho chegou até nós, em grande parte, porque inebria. Se foi desenvolvido, apurado, burilado, se implicou estudo é muito por causa do álcool. Note-se que estar embriagado não é ser-se alcoólico.
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Grave, muito grave, é beber vinho e conduzir. Embriagar não é mergulhar de cabeça numa piscina de álcool.
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O álcool é a droga social do Ocidente, estendendo a longitude aos locais onde se descobriu ou inventou. Além de ser alimento, desinibidor, objecto de festejo e brinde
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Grave é o álcool entre os ameríndios e os aborígenes australianos, onde a falta de contacto secular com o tóxico causa um total descontrolo, ao ponto de ser comparável à heroína. O National Geographic Channel realizou um conjunto de documentários acerca das drogas e o que mostrou a situação do alcoolismo no Alasca lembra a década de 90, em que se viveu o píncaro do pesadelo da heroína em Portugal.
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Volto para o que me trouxe e que é bem mais leve. Ando há meses para escrever acerca duma coisa e dispersei-me.
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A tourigação entristece-me. Não há quinta que não tenha os seus pés de touriga nacional. Os produtores pronunciam touriga nacional com um sorriso orgulhoso.
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Claro que é uma grande casta. Claro que dá coisas diferentes dependendo dos locais. Mas, basta. Começo a tremer cada vez que me ameaçam com um tinto. Não que a casta seja excessiva – por vezes é-o – mas porque há demasiados vinhos de touriga nacional.
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A minha touriga é a franca, que dizem ser caprichosa com a terra e o clima onde a põem. Tantos enólogos me dizem que é a melhor casta portuguesa e que só pelo seu temperamento não é a casta que serve de bandeira ao país.
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Pois! Digo ainda bem! Deixem-na estar no Douro ou em alguns locais especiais. Digo, mas pensam diferente. Depois de alcatroarem o país com touriga nacional, parece que agora vão tourigar a francesa. Até em zonas onde se demonstrou repetidamente que não se dá bem a estão a plantar. Noutros sítios até pode ir bem, mas sinceramente noto-a banal fora de sua casa.
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Aprecio na touriga franca a necessidade que tem de companhia, não conheço muitos monovarietais – até o vinho que foi, há dois ou três anos, feito pelo José Mota Capitão, que é perito com esta trepadeira precisava duma amiga – não me fez palpitar e cantar laudes.
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Depois transmite o Douro e pouco diz doutros locais. Nisso a irmã é mais maleável.
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Tenho-me vindo a aperceber que vem crescendo em mim o prazer com a pinot noir. O meu homónimo fez um néctar ímpar e a Fundação Stanley Ho tem notáveis.
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Há também a touriga nacional das uvas brancas – a alvarinho. Há bons alvarinhos em «todos» os locais do país. Mas para quê se ela reina em Monção e Melgaço? Fora de casa, a alvarinho não deslumbra.
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Quanto a mim – entra uma ou duas provável contradição – a arinto é maravilhosa em toda a parte e tem um claro brilho em Bucelas. As contradições estão em aqui, na defesa que se espalhe e que tem um local onde deslumbra.
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A arinto dá frescura ao chardonnay e ao meu ódio, a antão vaz.
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Não querendo generalizar, até porque se podem enumerar vários vinhos com esta táctica, chateia-me que juntem a antão vaz com a alvarinho no Alentejo, por vezes até com chardonnay. Se há arinto... é outra loiça!
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Não posso dizer que a casta antão vaz é uma má casta, ou não houvesse uma multidão de defensores, além da tradição – coisa que aprecio. Simplesmente não gosto.
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O enólogo Paulo Laureano prometeu-me conversão, que haveria de me dar a beber vinhos de antão vaz que me mudariam a opinião. Tive de aceitar o desafio, até porque é interessante. Outra contradição: bebi um antão vaz maravilhoso, onde senti, pela primeira vez e na sua forma mais nítida e agradável, coentros – o primeiro Solista, da Adega Mayor, que foi feito pelo Paulo Laureano.
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Abomino Vinho Verde tinto! Pretendo continuar. Não querendo ser egocêntrico, não quero que tentem fazer Vinhos Verdes tintos para quem não gosta de Vinho Verde tinto. Deixem-no estar com sua tradição e enquadramento na mesa e de mais cultura.
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O enólogo Domingos Soares Franco disse-me que se está a revelar – nos ensaios científicos realizados – que a sousão do Douro não é a vinhão do Vinho Verde, sendo apenas aparentadas. Como se percebeu, vinhão está «out», sendo que no Douro tendo a não ser grande fã da sousão, mas faz parte do todo e tempera.
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Há uns anos nutria uma embirração pela sauvignon blanc como a que sinto pela antão vaz. Tenho de dar a mão à palmatória, em Portugal há bons néctares desta cultivar.
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Esta já outro dia referi. Quando comecei a prestar mais atenção e tempo ao vinho, como qualquer novato, deixei-me levar por bocas alheias. Pateticamente disse mal da cabernet sauvignon. Gosto e gosto muito.
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Mais sucinto porque tenho menos para explicar: taninos e bolhinhas, não obrigado. Dispenso espumantes de baga ou doutra tinta.
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É por preguiça, por uma infantil «parece mal», por uma infantil e insegura «se não escreve é porque não sabe de vinho», que escrevo notas de prova. Na grande maioria das vezes é o mesmo que comentar o tipo de letra do rótulo. Além de que não conheço ninguém que ande pelos supermercados e garrafeiras à procura dum vinho que tenha frutos do bosque ou notas de eucalipto. Às vezes justifica-se, mas nenhum vinho é bom ou mau por ter odor a violetas.
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Embora goste de vinho com madeira, mesmo marcada, mas não sou caruncho. Beber fósforos ou tarolos não quero.
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Chateiam-me os tintos «oak free»... não tenho paciência e não bebi nenhum que não me cansasse depressa.
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Outro dia, num concurso, três vinhos diferentes eram iguais. Brancos de tangerina e madeira fumada. Oh tédio!
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Penso que se exagera nos elogios que se fazem à fruta que se sente num vinho! Também às flores, mas sobretudo à fruta. Há tanto mais que me fascina: os vegetais – maravilha – os minerais – abençoados. Na fruta, uma grande excepção: os citrinos – a laranja é a minha fruta favorita, bebo limonadas sem açúcar... é feitio!
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A grande embirração é ser-se o que não se é. O legislador – ao longo das épocas – teve por certo que uma denominação de origem controlada (DOC) significa ser melhor do que regional ou do que vinho de mesa. Por isso, ou talvez também por isso, que hoje há topónimos portugueses onde entra o syrah ou a cabernet sauvignon. Bom vinho é bom vinho! Tradição é tradição. A Bairrada entristece-me por isso – e é terra de belíssimos produtores e gente muito séria. Atenção: usar castas estrangeiras numa DOC não é falta de carácter nem de seriedade.
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Não sei se sou muito levado a sério pela malta do vinho. Escrevo esquisito, invento palavras, marimbo-me para a – desculpem – plebeia consideração acerca da relação entre a qualidade e o preço... qualidade é qualidade, raridade é raridade, marca, é marca... ou tenho dinheiro para ter ou não compro ou protesto.
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Não sei se sou levado a sério ou se pensam que sou amalucado – tenho-me vindo a aperceber, mas nem é novidade, é uma constante, pelo que não me surpreende que o pensem – pois por vezes digo umas coisas que causam uns sorrisinhos e umas expressões que mo fazem pensar nessa hipótese. Mas estou literalmente nas tintas, até porque não é de hoje. Além de que é comum nos artistas, coisa que cada vez mais penso ter de nascimento: já me assumo como poeta e reconheço que fiz um grande erro em não ter estudado Belas Artes.
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Este parágrafo é importante, porque outro dia repeti um vinho e surpreendi-me. Muito bem surpreendido. Gosto de descobertas. É por causa dos sorrisinhos e comentários que – por respeito ao produtor – não citarei o vinho, pois posso ser mal interpretado, como fui, podendo causar, se interpretarem da mesma forma, a sensação de estar a querer ridicularizar o vinho.
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Nele encontrei o que nunca esperei ou experimentei: o perfume do haxixe.
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Por que não? Se há acetona, alcatrão, fermento de pão, brioche, pimento, coentros, esteva, tangerina, lenha de azinho... por que não haxixe? Eufemisticamente: meta-eucalipto!
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A expressão fica aquém e é pouco rigorosa...
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Cheirava a haxixe e essas raridades valorizo muito
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Nota: Pintura de David Ligare

Uma mão-cheia de Cidrô

A Real Companhia Velha apresentou um conjunto de vinhos de que é impossível ficar indiferente. Genericamente têm três vantagens: fáceis de agradar, carácter e nota do trabalho do enólogo, que neste caso é Jorge Moreira.
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Esta empresa multissecular tem uma marca para testar a reacção dos consumidores, a Séries. Têm a vantagem de que se não pegar não «suja» a marca consagrada e a desvantagem de o cliente gostar e, no ano seguinte, matar a cabeça para provar a segunda edição. Mas isso são problemas que não me assistem.
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A Quinta de Cidrô é o ginásio da casa, onde estão plantadas diferentes castas, que são testadas quanto a interesse enófilo e comercial.
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Séries Chardonnay e Pinot Noir 2011 é um casamento perfeito em Champanhe. Este vinho não se fez num ambiente que tenha a ver com essa região do Norte de França. Daí, penso, nasce uma curiosidade que os enófilos vão valorizar.
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É um espumante fresco no nariz, onde domina maçã verde – desculpem mas não me lembro do nome da cultivar, é daquelas muito verdes, rija e que se trincam com enorme agrado – não está lá «pão», mas evocações de palha seca. É fino de bolha, elegante, suave e fresco.
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O Séries Arinto 2012 realça a minha desconfiança: a melhor casta branca portuguesa é a arinto. Acho que só por escrever estas linhas vou tentar fazer uma sopa, passada, não creme, de espargos e ervilhas. Gostei das margaridas. É fresco na boca, com doçura e fundo.
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O Séries Rufete 2010 agrada-me muito. Não apenas pelo prazer que proporciona, mas porque vai-se reconhecendo como uma casta muito prazenteira e injustamente desprezada. É leve, dizem que é bom para sardinhas assadas – nã come pêche – apreciei o metal, o vegetal, é seco e ao mesmo tempo guloso. O que diz nariz mostra-se coincidente com o que pronuncia a boca. Perigoso em ambientes festivos.
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O Quinta de Cidrô Rufete 2011 é mais austero que o «experimental». É menos surpreendente, mas mantém leveza e suavidade. Gostei muito da secura final.
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O Quinta de Cidrô Alvarinho 2013 é uma festa de flores – não é um jazigo! Antes pelo contrário, pois dominam as rosas. Na boca mostra-se adocicado. Preferi cheira-lo a bebê-lo. Mas é um belo vinho.
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O Quinta de Cidrô Sauvignon Blanc 2013 tem a vantagem comercial da sauvignon blanc – que se comprova por tantas apostas na casta – e a desvantagem de me aborrecer um bocadinho, a cultivar. É um vinho trendy, com as tangerinas – graças a Deus não levou madeira... e se eu gosto de madeira... tipo caruncho – e ervas verdes. Transmite doçura e a tangerina e sua frescura.
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O Quinta de Cidrô Semillon 2013 tem um citrino que me parece raro – ou sou eu que ando distraído ou não me tem chegado ao copo – que é a tângera (híbrido de tangerina e toranja), que se mistura bem com o xisto. É fresco na boca, tem fineza e fundura.
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O Quinta de Cidrô Gewürztraminer 2013 tem duas coisas – externas ao vinho que adoro: pronunciar a casta e o trema... Bem, notei-lhe muito agradável e ligeira madeira, com um fumo nada violento, raminhos de ervas de que não sei o nome, mesmo olhando para elas durante meia hora, casca de tangerina, calminha, e lírio. Na boca é gordo, muito envolvente, com raça, fresco e com final um pouco seco e levemente fumado.
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O Quinta de Cidrô Rosé 2013 – sendo um bom vinho – levou uma tareia de todo o tamanho dos outros todos. No nariz achei-o banal, cereja imatura e pétalas de rosas. Percebo a ideia... É seco e terroso, o que o aquece. Mas positivíssimo!
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Séries Chardonnay e Pinot Noir 2011
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Origem: Vinho de mesa
Produtor: Real Companhia Velha
Nota: 7/10
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Séries Arinto 2012
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Origem: Douro
Produtor: Real Companhia Velha
Nota: 7,5/10
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Séries Rufete 2010
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Origem: Douro
Produtor: Real Companhia Velha
Nota: 6,5/10
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Quinta de Cidrô Rufete 2011
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Origem: Douro
Produtor: Real Companhia Velha
Nota: 6,5/10
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O Quinta de Cidrô Alvarinho 2013
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Origem: Regional Duriense
Produtor: Real Companhia Velha
Nota: 6/10
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Quinta de Cidrô Sauvignon Blanc 2013
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Origem: Regional Duriense
Produtor: Real Companhia Velha
Nota: 6,5/10
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Quinta de Cidrô Semillon 2013
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Origem: Regional Duriense
Produtor: Real Companhia Velha
Nota: 7,5/10
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Quinta de Cidrô Gewürztraminer 2013
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Origem: Regional Duriense
Produtor: Real Companhia Velha
Nota: 7,5/10
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Quinta de Cidrô Rosé 2013
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Origem: Douro
Produtor: Real Companhia Velha
Nota: 5,5/10

Messias Vinha de Santa Bárbara 2011 e Messias Baga Clássico 2010

Grandes surpresas! Pela positiva. Fora de tudo o que estava à espera. Talvez por falta de rodagem, fiquei banzado.
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São dos vinhos bem diferentes, o que é bom, pois nem sempre assim acontece dentro da gama dos produtores.
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Sinceramente, não sei que vinho preferi. Um deles foi uma martelada com maço na cabeça, não estava mesmo à espera. O outro está mais «pronto», sendo que espero que tenham paciência para os guardar. Ou beber agora, tirar fotografia mental e mais tarde recordar e comparar.
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Vou pelo mais novo, pelo Messias Vinha de Santa Bárbara 2011. O que me agradou, aqui menos surpreendente que o irmão bairradino, um Douro que me comove. Já tenho dito muitas vezes – e hei-de escrever um nanotexto acerca – que começo a enfastiar-me com a touriga nacional. Pode ser uma grande casta e até a melhor do mundo, pode ser embaixatriz, mas... E pelo que tenho sentido, parece estar a nascer uma tendência de tourigar com a franca. Até tremo!
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Bem, mas aqui há o equilíbrio dos casamentos felizes. Tão simples: touriga nacional e touriga franca. Parece o pastel de nata, essa criação perfeita da pastelaria.
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Bem duriense sem mais do que o duo. Com as flores da touriga nacional, com alguma cereja – visto as uvas nascerem no ambiente menos quente. E a terra, a esteva e a lenha de azinho da francesa.
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Messias Tinto Clássico 2010: Como referi, talvez por falta de cultura, não estava à espera nem da potência alcoólica nem pela força demonstrada. Provei-o e decantei-o duas vezes.
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É um tiro de canhão! Até fez BUUUMMM!... Está mais que visto que tem de se deixar acalmar. Dormiu no decantador e 24 horas depois estava bebível. Tiro de canhão Big Bertha ou Kaiser  Wilhelm, a magnífica arma transportada por comboio e que os alemães usaram para bombardear Paris em 1918. É um canhão lendário e que ficou como sinónimo de força e nobreza. Tão mítico que o seu nome foi usado para baptizar uma linha de drivers da Callaway... há uns anos experimentei umas tacadas. Do driving range apaixonei-me por um Big Bertha. Andei a passear por uns campos e a única parte que gostei do golfe foi o passeio, o convívio e o conceito. Todavia, não nasci desportivo e percebi que tenho uma ausência de paciência para dar tacadas.
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No dia seguinte reforçou a frescura de boca e longevidade. Olfativamente o pinho e algum eucalipto dominam.
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Messias Vinha de Santa Bárbara 2011
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Origem: Douro
Produtor: Vinhos Messias
Nota: 7,5/10
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Messias Tinto Clássico 2010
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Origem: Bairrada
Produtor: Vinhos Messias
Nota: 7,5/10
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Nota: Estes vinhos foram entregues pelo produtor.

quarta-feira, julho 23, 2014

RCV celebra 101 anos do Evel

No ano em que a marca vínica Evel completa 101 anos, a Real Companhia Velha decidiu lançar dois vinhos comemorativos, o Evel XXI. A primeira referência é o Evel XXI branco 2013, que já está disponível em restaurantes e garrafeiras. Ainda sem data revelada será apresentado este ano Evel XXI Tinto 2012.

domingo, junho 29, 2014

Ravasqueira a bordo da Cathay Pacific

O vinho tinto Monte da Ravasqueira Vinha das Romãs 2011 foi seleccionado para integrar uma acção de promoção de vinhos portugueses, a realizar a bordo da Business Class dos aviões da Cathay Pacific, a partir de 14 de Agosto, anunciou a empresa.

quarta-feira, junho 25, 2014

O que não como

Estou de dieta e apetece-me um bolo... .
Entro na pastelaria e digo:
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– Bom dia, quero um pastel de nada, por favor.
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– Não será um pastel de nata?
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– Não! É um pastel de nada!
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– Um pastel de nada?
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– Sim, estou de dieta...
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– Não estou a perceber...
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– Oh, senhor... um pastel de nata é como as sardinhas. Ambos são símbolos gastronómicos portugueses... ambos não como... um não devo e outro não posso.
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– Ah! Então quer o quê?
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– Uma bica curta em chávena fria.
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– Aqui tem...
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– Obrigado, mas o seu conceito de curto é igual ao meu de meia chávena.
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– Aqui as bicas curtas são como os pastéis de nada... não existem.
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Nota: Não sei como engavetar esta obra na lista dos conceitos... escultura ou pastelaria? Ou escultura em pastelaria. Vou tentar comunicar com o autor, Sérgio Dias.