Potpourri é uma palavra que me faz sempre sorrir. Não sei
porquê. Aqui neste texto tem um significado além do significado o acrescento da
simpatia com que fui sempre tratado por José Bento dos Santos e (recentemente)
Francisco Bento dos Santos, seu filho e parceiro.
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Conversei presencialmente com José Bento dos Santos não mais
do que três vezes, guardando uma imagem de vivacidade e paixão por aquilo que
faz. Vendo-o na televisão percebi a mesma simpatia, que diria de franqueza, e
alegria. Contei a Francisco alguns defeitos nos programas, mas José Bento dos
Santos será sempre um Matateu (sou Belenenses) num programa de gastronomia (no
seu sentido verdadeiro, incluindo o vinho).
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Há diferença entre conhecimento e cultura. A afirmação dá
para horas de debate, peiperes (papers) universitários, pós-graduações. Não
entrarei fundo, resumo: tem conhecimento, experiência e, sobretudo, mundo. O
«mundo» ajuda muito.
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Aparte. Contaram-me uma vez que um famoso financeiro (não me
recordo do nome) fazia as entrevistas finais aos candidatos a um emprego
qualificado. Uma equipa já teria questionado, passado por testes de vária ordem
e ficando «licenciados» teriam de ir à oral com o banqueiro.
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Certamente nervosos, do que iriam falar? Do óbvio, cifrões,
parcelas, margens, taxas de juro, spreads... ou... música, desporto,
gastronomia, ciência, banda desenhada ou outra arte... e era aqui que entrava a
decisão. Gente que sabe fazer contas e tem olho para o negócio até abunda, mas
quem tem «mundo» tem a vantagem de saber usar microscópios e telescópios,
transmitindo esse conhecimento transformado em cultura. Quem tinha «mundo» era
quem ficava com o lugar, ainda que tivesse conversado acerca dos lacraus do
Saara e o banqueiro disse não soubesse. O financeiro lia os olhos, a expressão
da boca, a dança do corpo, a vivacidade, as vistas largas.
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É essa a ideia que transporta José Bento dos Santos.
Constou-me, acredito, que faz harmonizações gastronómicas com música. Óbvio? Talvez
não – Há mais quem tivesse feito, mas por marquetingue e não por efervescência
do produtor.
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Não sei se cultura implica alegria ou só contentamento ou se
pode ser macambuzice ou só isso. Para mim, cultura implica paixão e paixão é
dor, é explorar o «ser» amado até à alma. É isso que vejo em José Bento dos
Santos.
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A primeira vez que convivi com José Bento dos Santos foi
numa reportagem que fiz para o programa (agricultura e pescas) «Da terra ao mar»,
transmitido de 2004 a 2009, na RTP 2. Penso ter uma cultura acima da média e uma
inteligência abaixo do meio, mas consigo saber calar-me quando não sei, quando
o oponente sabe mais, ou quando o parceiro me fala sobre o «mundo» e me
arrebanha a atenção.
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Chegados à Quinta do Monte d’Oiro, José Bento dos Santos
tratou de mostrar a sua família vegetal, contando sonhos para fazer, falando de
amizades e seus significados.
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E assim continuamos até ao almoço, em que me brindou com um excelente vinho da Borgonha... abriu-me mais uma janela para o «mundo», tão raras são as vezes em que provo vinhos de grande calibre e doutros países. Ainda o tenho na boca da memória.
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E assim continuamos até ao almoço, em que me brindou com um excelente vinho da Borgonha... abriu-me mais uma janela para o «mundo», tão raras são as vezes em que provo vinhos de grande calibre e doutros países. Ainda o tenho na boca da memória.
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Voltando à Quinta do Monte d’Oiro... não gosto do nome da
quinta e disse-o, talvez sendo mal-educado com o meu anfitrião. Só há uns meses,
conversando com Francisco Bento dos Santos, percebi: Monte d’Oiro por causa da
tonalidade dourada que assume no pôr-do-sol. Quinta do Monte d’Oiro é nome
bonito e poético... «mundo».
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Obviamente que «conheço» muito pior Francisco Bento dos
Santos, mas parece-me herdar do pai o gosto pela vida grande (não é vida em
grande).
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José Bento dos Santos tem uma paixão pelos vinhos da Côte du
Rhone e pelos de Chapoutier, especialmente – foi a impressão com que fiquei. Na
visita pela Quinta do Monte d’Oiro, o meu anfitrião revelou-me dois dos seus
sonhos: plantar uma vinha igual a uma velha que existe no Domaine e outra com
os três melhores clones dessa vinha ou duma outra muito boa também – não me
recordo. Em troca, o amigo francês plantou touriga nacional.
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Se não erro, as vinhas são quase só de syrah e de viognier, casta
branca que tempera a tinta – à moda da sua apaixonada região francesa. Mas há
ainda petit verdot, touriga nacional e tinta roriz.
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Os syrah (mais viognier) de Bento dos Santos são icónicos.
Melhor, pior, igual são injustiças. Não posso dizer que são os melhores syrah
portuguesas, mas posso afirmar que se não são, são quase...
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Volto atrás! Corrijo. Francisco Bento dos Santos vai pelo
«mundo» do pai. Prova? O vinho feito para a Tasca do Joel, restaurante de
Peniche, evocando a prova do campeonato mundial de surf que ali tem decorrido
desde 2009. Não me recordo ao ano do campeonato a que se refere nem à colheita.
Lembro-me é da festa, do vinho. A diversão começa no rótulo, um chinelo de
enfiar no dedo – flip flop, dizem lá fora. O sapato de praia formado por
palavras alusivas ao surf e seu ambiente. Não vou comentar o vinho, até porque
foi (é) uma brincadeira.
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Neste momento impõe-se um pedido de desculpas a José Bento
dos Santos (provavelmente a toda a sua família) por uma crónica que escrevi
sobre o vinho que homenageou António Carqueijeiro. O que está escrito e
publicado, está escrito e publicado, e o que entra na net nunca mais sai, mesmo
que seja «impossível» de encontrar.
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Avaliei o Homenagem a António Carqueijeiro 1999 com nota
oito, numa escala decimal. Relembro ou conto, que a minha escala de notação (de
prazer) não é óbvia, pois o três já é positivo. Não vejo por que hei-de elaborar
uma escala de vinhos «evitáveis» (dois) ou «imbebíveis» (um). Ora, oito
significa «fantástico».
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A nota é muito boa, mas o que tem de errado? Trata-se duma
homenagem e hoje, com mais pensamento, considero não ter o direito de
classificar a oferta que alguém atribui a um amigo, sobretudo se esse amigo já
não está na carne. Podem dizer que o vinho estava à venda e que o comprei, pelo
que posso dar-lhe uma nota. E não interessa se foi caro ou barato nem a sua
relação entre a qualidade e o preço (coisa que me diz zero). Não, nop,
nestum... homenagens, não são meras lembranças, não tenho o direito de as classificar.
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Aprendi sozinho, porque foi por me ter posto a matutar. Não
sendo estúpido (embora fique abaixo da média) consegui pôr-me no «lugar do
outro». Espero não ter ofendido José Bento dos Santos, provavelmente nem leu a
crónica (de toda a forma, que significado tem este blogue e que importância tem
o seu autor?). De toda a forma peço-lhe desculpa e a todos os que se terão
melindrado.
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De modo diferente, poderia escrever acerca do Paisagens por
José Avillez 2007 – mas tendo-se tratado duma oferta, e num contexto que não
vou explicar, abstenho-me de dizer... o mesmo acontecendo com o Quinta do Monte
d’Oiro Reserva 2008 e o Quinta do Monte d’Oiro Madrigal 2012.
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Vendo, percebendo, o mesmo encanto em mim, Francisco Bento
dos Santos ofereceu-me uma colecção de DVD do programa televisivo «O sentido do
gosto», obra do seu pai.
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Por tudo o que escrevi, percebe-se a minha estima por José
Bento dos Santos, apesar de nos termos cruzado poucas vezes. Entrou, pela
«janela» muitas vezes em minha casa, por isso tenho o direito a sentir afecto.
E por tudo o que escrevi, mesmo sem nota de prova ou de apreciação, os vinhos
que citei... nem é preciso pensar.
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