terça-feira, abril 12, 2016

Porto da 5 – Real Companhia Velha

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Gosto de ir à escola! Gostei e até que me fartei e ando com vontade de voltar. Enquanto não escolho uma segunda licenciatura, pós-graduação, mestrado ou doutoramento, divirto-me aprendendo nas oportunidades que encontro.
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Há quase um mês participei numa aula prática de Vinho do Porto, promovida pela Real Companhia Velha. Em apreciação estiveram tawnies colheita Real Oporto e vintages da Quinta das Carvalhas.
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O Douro é um vale e o Vinho do Porto um mundo! Espero que se mantenha sempre complexo e diverso, para que o bom não se confunda com o medíocre e, muito menos, com o mau. Desejo que nunca ninguém se lembre de descomplicar ou que é complicado, pois o estudo valoriza e a luta apalada a vitória.
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Jorge Moreira, director de enologia da Real Companhia Velha, salienta que o retorno financeiro do investimento em Vinho do Porto é difícil. Porque é caro e por o mercado ser muito disputado.
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Chegou (regressou) à Real Companhia Velha em 2010 e diz debater-se com o problema de conseguir melhorar o padrão. «Já faz tudo tão bem feito e há tantos anos que é difícil inovar e surpreender».
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Da família tawny foram apresentados os Royal Oporto Colheita 2003, Royal Oporto Colheita 1999, Royal Oporto Colheita 1980 e Royal Oporto Colheita 1977. A apresentação foi feita da frente para trás.
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Não sou muito de fixar climatologia, para isso servem os almanaques e os apontamentos. No entanto, o ano de 2003 está bem presente. Teve o Verão mais demoradamente quente que me lembro, o país ardeu muito mais do que a brutalidade habitual e, em pleno centro, Lisboa tossia com o fumo dos fogos florestais das periferias metropolitanas. A Avenida Fontes Pereira de Melo não se via de um lado para o outro.
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Jorge Moreira conta que esse foi também o ano em que foi reintroduzido o comboio a vapor no Douro. Um trem antigo é belo, mas da chaminé saltam fagulhas e o resultado foi uma sementeira de fogos.
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Lembro-me do Verão de 2003, mas não das restantes estações. Diz Jorge Moreira que foi fresco e chuvoso. Assim, nasceu um vinho simultaneamente com quentura e frescura, onde convivem aromas de menta, de amêndoa torrada e pólvora. O Royal Oporto Colheita 2003, engarrafado em 2012, é um vinho denso e muito longo na boca.
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De 1999… lembro-me de várias coisas, mas não da climatologia. Jorge Moreira, que tem melhor memória e tira apontamentos, conta que o Inverno foi «terrível» e muito frio, que se prolongou até à floração. O Verão foi quentíssimo no Douro, mas em Agosto verificaram-se três dias de chuva abundante. A pluviosidade voltaria a ser farta em alguns momentos de Setembro.
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Jorge Moreira afirma que 1999 «deu vinhos muito bonitos». Um deles foi o Royal Oporto Colheita 1999, engarrafado em 2013. É uma festa de pastelaria invernal, lembrando muito o bolo-inglês. Na boca é doce, gordo e longo.
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Em 1980 ainda se podia brincar em algumas ruas de Lisboa. Tive essa felicidade. Olhando para o retrovisor… lembro-me de coisinhas corriqueiras e do anoitecer de 4 de Dezembro, quando ocorreu o atentado contra o primeiro-ministro Francisco Sá Carneiro.
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Jorge Moreira relata um Inverno chuvoso e Verão encalorado. Royal Oporto Colheita 1980, engarrafado em 2012, é potente! Diria sólido, porque me lembra os móveis de mogno, antigos e bem tratados. Ao mesmo tempo tem delicadeza, com evocações florais e de menta. Na boca é terrivelmente feliz na gulodice e bastante longo.
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Em 1977 usavam-se calças à boca-de-sino… tinha sete anos e nem do Natal me lembro! Aqui desisti de apontar as características do ano. É segredo! Decidi que não haveria de registar… uma birra!
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E porquê? Porque é um óptimo pretexto para pedir para voltar a provar o Royal Oporto Colheita 1977, engarrafado em 2012. É fenomenal, com uma jovialidade de herói da mitologia grega. Rico em frutos secos, fruta cristalizada, massa de bolo, a ervanária dos rebuçados peitorais, mel, fósforo, mogno, caruma seca… longuíssimo e picante.
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Após os aloirados vieram os vermelhos: Quinta das Carvalhas Vintage 1997, Quinta das Carvalhas Vintage 2004, Quinta das Carvalhas Vintage 2007 e Quinta das Carvalhas Vintage 2013. Esta propriedade situa-se à entrada da aldeia de Pinhão, no Cima Corgo.
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O Quinta das Carvalhas Vintage 1997 é uma tablete de chocolate rico em cacau, com notas de caruma e uma leve resina de pinheiro. Na boca é desafiador, nada óbvio em termos de doçura. Belíssimo e diferenciado.
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Afirma Jorge Moreira que 2004 foi um ano interessante. Foi muito seco e as plantas entraram em stress hídrico. «Quando pensávamos que íamos começar a apanhar, começou a chover. Os bagos voltaram a encher-se». O Quinta das Carvalhas Vintage 2004 exige musse de chocolate e ainda é fértil em aromas florais e vegetais.
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O Quinta das Carvalhas Vintage 2007 é mais guloso do que o anterior, pois é farto em ginja, amoras, geleias e chocolate branco, que evoluiu para chocolate de leite. É muito fresco de paladar, com gulodice sem que se torne enjoativo. Conselho aos solteiros e sedutores: sirvam-no.
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O Quinta das Carvalhas Vintage 2013 é um vinho muito sedutor, onde se encontram aromas menos óbvios, como a pimenta preta, folha de louro e tabaco louro e outros mais prováveis, como rebuçado de morango, geleia de framboesa e chocolate preto. Gostei da falsa secura na boca, do doce sem agoniar e da untuosidade.
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A aula de Vinho do Porto terminou numa prova de conjugação de vinhos com comidas preparadas pela equipa do Hotel Ritz. Combinações prováveis comprovadas, alguma surpresa e apenas um casamento pouco conseguido.
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O Royal Oporto 10 anos juntou-se a «laranja confit coberta de chocolate de leite». A guloseima estava viciante… Estive tentado a pedir uma caixinha para encher e trazer para casa – obviamente é falso. Uma belíssima união.
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O Royal Oporto Late Bottled Vintage 2011 ligou-se a «snobinette de chocolate negro, ganache e frutos vermelhos». Esta maridagem é mais convencional e também resultou muito bem, com os parceiros a realçarem as suas características complementares.
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O Real Companhia Velha Vintage 1970 é um vinho notável, daqueles para levar para o Além. Para o acompanhar chegou «pêra rocha recheada com Queijo da Serra». O casamento não foi feliz. Não encontrei equipa entre a fruta e o queijo nem entre o sólido e o líquido.
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O Real Companhia Velha Vintage 1967 reuniu-se com «Stilton com cracker de especiarias e granny smith desidratada». É a conjugação clássica e que vale sempre a pena repetir ou conhecer variante. Este queijo de vaca nasceu para abraçar o Porto vintage. Esta união foi estupenda!
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Para culminar aproximaram-se dois Portos diferentes e dois charutos cubanos: Real Oporto 40 Anos e Real Companhia Velha Vintage 1957 e Montecristo Nº5 e Cohiba Robusto. Optei pelo vermelho e pela personagem de Alexandre Dumas (Pai). Excelência.
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Royal Oporto Colheita 2003
Produtor: Real Vinícola / Real Companhia Velha
Nota: 9,5/10
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Royal Oporto Colheita 1999
Produtor: Real Vinícola / Real Companhia Velha
Nota: 8,5/10
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Royal Oporto Colheita 1980
Produtor: Real Vinícola / Real Companhia Velha
Nota: 9/10
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Royal Oporto Colheita 1977
Produtor: Real Vinícola / Real Companhia Velha
Nota: 10/10
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Quinta das Carvalhas Vintage 1997
Produtor: Real Companhia Velha
Nota: 9/10
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Quinta das Carvalhas Vintage 2004
Produtor: Real Companhia Velha
Nota: 9,5/10
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Quinta das Carvalhas Vintage 2007
Produtor: Real Companhia Velha
Nota: 9/10
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Quinta das Carvalhas Vintage 2013
Produtor: Real Companhia Velha
Nota: 9/10
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Nota: Fotografias de Gonçalo Villaverde, para a Real Companhia Velha.
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Legado 2011

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Mercúrio conjurou contra mim, por rancor a Ceres e Baco. Por isso escrevo este texto tardiamente face à vontade. Desculpo-me… Bem, faz de conta que esteve em estagiar em cave durante seis meses, a contar da data da sua apresentação.
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Vai na quinta edição e o Legado é já uma referência obrigatória. É um vinho notável dentro da Sogrape e do Douro – se nesta região, então no conjunto do país. Não é o Barca Velha, não é o Ferreirinha Reserva Especial… é o Legado.
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Habitualmente são os filhos que homenageiam os pais. Aqui é o oposto. O senhor Fernando Guedes – a referência a «senhor» é obrigatória, pois é matéria rara – brinda os seus descendentes com um vinho feito com uvas duma só vinha, onde a idade média das plantas poderá rondar os 115 anos.
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A vinha tem oito hectares e situa-se na Quinta do Caêdo, em Ervedosa, na sub-região de Cima Corgo. A propriedade foi comprada em 1990 e tem 24 hectares plantados, sendo atravessada pela ribeira do Caêdo. A exposição solar é a Sul e a Poente. As plantas estão em patamares construídos antes da chegada da filoxera.
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As vinhas velhas da Quinta do Caêdo são um ramalhete de castas do Douro, que como é comum são mais do que muitas. Neste vinho convivem donzelinho (10%), rufete (5%), tinta amarela (5%), tinta da barca (5%), tinta roriz (10%), touriga franca (35%), touriga nacional (15%) e 10% de várias outras.
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Para o Legado, as uvas são apanhadas separadamente por casta e vinificadas individualmente. Por isso, a fruta é colhida no ponto considerado ideal pelos técnicos. Algumas plantas já só conseguem dar um cacho, contou o senhor Fernando Guedes no jantar de apresentação da colheita de 2011.
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Em anos anteriores, a equipa de enologia da Sogrape, dirigida por Luís Sottomayor, optou por estágios de 24 meses em madeira. O vinho daquela vinha velha mostrou-se capaz de aceitar uma vida mais longa em estágio. Por isso, o Legado 2011 estagiou 30 meses em barricas novas de carvalho francês.
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O ano de 2011 foi muito generoso para os vitivinicultores portugueses. No Douro foi esplendoroso. Por isso, este vinho está no pedestal. É um vinho de incrível complexidade aromática, que evolui no copo com o passar do tempo. Na boca mostra-se também variado, com muita frescura e durabilidade. É um néctar que se pode guardar sem medos.
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Não gosto de pontuar vinhos de homenagem. No entanto, tratando-se duma saudação em vida, porque me podem dar umas bengaladas se escrever besteiras e por ser mesmo um vinho extraordinário… abro a excepção e sai uma nota máxima.
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Origem: Douro
Produtor: Sogrape
Nota: 10/10
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segunda-feira, abril 11, 2016

Tons de Duorum Branco 2015 + João Portugal Ramos Loureiro 2014

Até coro de vergonha por ter vinhos para comentar com um ano de atraso… A vida é a vida e os blogues nem sempre são prioridades. Escrito isto, vamos ao vinho.
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João Portugal Ramos Loureiro 2014 é um vinho de grande frescura que se sabe comportar muito bem com as comidas mais leves e muito prazenteiro num convívio, seja pré-festa ou a bebida do momento.
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A casta loureiro é uma jóia que merece ser valorizada e divulgada. Este vinho fez-se também com 15% da variedade alvarinho. O casamento resulta muito feliz, com carácter mais floral no aroma e mineral na boca.
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O Tons de Duorum Branco 2015 é um vinho bem diferente do anterior. Os dois mostram duas regiões e complementam-se na mesa, onde o duriense pode amparar um prato mais substancial.
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É um vinho com complexidade interessante, resultado da união das castas viosinho (30%), rabigato (25%), verdelho (20%), arinto (20%) e moscatel galego branco (5%). É cordato em termos de álcool, com 12,5%, que o favorece o apetite.
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João Portugal Ramos Loureiro 2014
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Origem: Vinho Verde
Produtor: João Portugal Ramos
Nota: 5/10
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Tons de Duorum Branco 2015
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Origem: Douro
Produtor: Duorum / João Portugal Ramos

Nota: 5,5/10

domingo, abril 10, 2016

Ana Aragão desenhou cidades para Porto Barros

Se este blogue fosse um jornal só me desculparia se dissesse que é um anuário… Bem, em Outubro soube que a Sogevinus lançou uma colecção de garrafas, cujos rótulos foram desenhados pela ilustradora Ana Aragão.
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São apenas quatro cidades, as mais visitadas em Portugal continental – segundo informação da empresa. Aveiro, Coimbra, Lisboa e Porto apresentam-se em versão sintetizada. Diria que Faro seria a terceira cidade mais visitada, por causa de ficar no Algarve e por ter aeroporto, mas não fui à procura de estatísticas.
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Ficam os retratos das quatro cidades.
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domingo, março 20, 2016

Jacquart Bruto

A região de Champanhe tem uma coisa fantástica: só quem quer faz mau vinho. Não conheço outra região em que exista grande produtividade e boa qualidade média. Ainda bem para os champanheses, que sabem bem tirar partido da marca regional.
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Há dias (meses) foi-me dado a conhecer o Champanhe Jacquart que, apesar de levar 50 anos de história, era-me desconhecido. A empresa começou com 30 produtores e hoje reúne 1.800, representando 2.400 hectares, dos quais classificados como «Cru».
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É um Champanhe perigosamente escorregadio, que ficou pouco tempo no meu copo. Quanto a mim, não o serviria à mesa, mas para dar as boas-vindas à festa.
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Origem: Champanhe
Produtor: Jacquart

Nota: 5,5/10

terça-feira, fevereiro 09, 2016

Vinhos Duas Quintas – 25 anos (quase 26)

Tenho vergonha! Muita vergonha! Os vinhos Duas Quintas celebraram 25 anos em Maio e escrevo no Fevereiro seguinte. Os tempos foram alucinantes, por várias razões. Apercebi-me da velocidade quando notei que está prestes a cumprir-se um ano sobre a morte do meu pai – literalmente parece ter sido ontem.
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Desculpas, justificações e intimidades à parte, os Duas Quintas completaram um quarto de século. Recordo-me que a estreia causou sensação entre os enófilos portugueses. Muito embora já existissem vinhos de grande qualidade, o facto é que eram muito menos numerosos do que hoje.
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Se, por um lado, isso beneficia esta marca, em termos de notoriedade, por outro não é razão de injustiça. Vindima após vindima, a qualidade manteve-se, acompanhando as características climatológicas. Não há anos iguais, não há Duas Quintas iguais.
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O primeiro Duas Quintas reporta-se a 1990, sendo um tinto. O ano seguinte conheceu o primeiro Duas Quintas Reserva, também tinto. O nome resulta da junção de uvas da Quinta dos Bons Ares e da Quinta de Ervamoira.
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Não vale a pena contar a história de Ervamoira, pois muito se escreveu e é facílimo encontrar na internet os elementos que a constituem. Ainda assim, não resisto a nomear alguns factos históricos. Para uns será recordação, para outros é um tempo que não conheceram, de viragem do país e do mundo.
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Enquadramento histórico
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A História Contemporânea Portuguesa tem vários marcos no século XX, em que os mais importantes são o regicídio de Dom Carlos e do Príncipe Real, Dom Luís Filipe, a 1 de Fevereiro de 1908; a implantação da República, a 5 de Outubro de 1910 – véspera em Loures; a caótica Primeira República; o golpe de Estado de 28 de Maio de 1926, que antecipou o estabelecimento da Segunda República, a 19 de Março de 1933, designada por Estado Novo; a Guerra Colonial ou Guerra da Libertação (Angola, Fevereiro de 1961, Guiné, Julho de 1961, e Moçambique, Setembro de 1961), como é designada nos Estados que nasceram das antigas colónias, e da tomada dos territórios na Índia, de Goa, Damão e Diu por parte da União Indiana (18 e 19 de Dezembro de 1961); Golpe de Estado de 25 de Abril de 1974 e Revolução subsequente, que veio a permitir a instauração da Democracia, a actual Terceira República, embora com um período inicial de risco de nascimento duma ditadura comunista, que quase levou a um guerra civil, sendo o término do chamado Período da Revolução em Curso (PREC) a 25 de Novembro de 1975 (merecia ser feriado); da adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia (1 de Janeiro de 1986 – Tratado de Adesão assinado em 12 de Junho de 1985) – além da estabilização governativa, deste este último facto adveio a entrada massiva de dinheiros europeus, com inúmeros episódios de esbanjamento, oportunismo e novo-riquismo, desestatização da economia.
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Em termos mundiais, o século XX foi o mais violento da História, com dois conflitos mundiais, inúmeros regimes autoritários, de Esquerda e de Direita, sendo particularmente criminosos o Fascismo-Nazismo e ultranacionalismo do Império do Japão – sobretudo o segundo com centro na Alemanha, com o desumano Adolf Hitler, mas muito igualmente onde se desenrolou a acção japonesa – e o Comunismo – desde a Revolução Russa de 1917, que desembocaria no nascimento da União Soviética, desde o tempo de Lenine até ao seu término em 1991 –, sendo particularmente tenebroso com Estaline, além do regime na República Popular da China, com Mao Tse-Tung, e do Camboja, de Pol Pot. Do lado oposto, embora praticado por um país (supostamente) democrático, os Estados Unidos da América, a Guerra do Vietname. O período da Guerra Fria, entre 1945 e 1991, ficou marcado pelas guerras indirectas, desencadeadas e apoiadas pelas duas superpotências (EUA e URSS), que alimentaram ditaduras pelo planeta.
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Os vinhos Duas Quintas nascem no contexto do final da Guerra Fria, onde um marco notável foi a queda do Muro de Berlim (13 de Agosto de 1961 a 9 de Novembro de 1989), que dividia a actual capital alemã, entre a ditadura comunista da República Democrática Alemã e a democrática República Federal Alemã, à qual se viriam a juntar os territórios libertados. Foi o princípio da tranquilização, após a sombra duma nova guerra mundial, com uso de armas atómicas.
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Em termos menos dramáticos, a cultura popular em Portugal modificou-se, com o surgimento do chamado «nascimento do rock português» – injustificado, pois já surgiram músicos a adoptar o pop/rock na década de sessenta – que se desenvolveu e sedimentou, assinalando uma despolitização dos conteúdos musicais.
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Um reflexo do momento da transição política escutou-se com o sucesso «Portugal e a CEE», dos GNR, ainda sem Rui Reininho ao microfone, lançado em Março de 1981, sendo Alexandre Soares o vocalista  espero estar certo. Outro ponto significativo foi a construção da Barragem de Foz Côa… passo a contar.
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Em 1987, Aníbal Cavaco Silva conseguiu a primeira maioria absoluta em Portugal, renovada em 1991. O período de deslumbramento e novo-riquismo do «cavaquismo» teve tiques de arrogância governativa. Em 1994, os portugueses começaram a demonstrar saturação do estilo político, assinalando-se o momento simbólico do buzinão contra o aumento das portagens da Ponte 25 de Abril e posterior bloqueio de camionistas e apoio popular.
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No ano seguinte foi o tombo final. Nesse ano, a sociedade portuguesa uniu-se contra a construção da Barragem de Foz Côa, que inundaria um património ímpar mundial, gravuras rupestres, datadas desde o Paleolítico Superior até ao século XX.
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À porta do emblemático Mosteiro dos Jerónimos, acamparam arqueólogos em sinal de protesto e de divulgação. Na música estava em alta o tema «Não sabe nadar», os Black Company. Depressa o refrão mudou:
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Bantú não sabe nadar yo
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K.J.B. não sabe nadar yo
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Madnigga não sabe nadar yo
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Makkx não sabe nadar yei.
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Transformou-se em:
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As gravuras não sabem nadar! Yo.
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Uma ajuda veio do duque de Bragança, que se casou naquela igreja, que assinou a petição dos arqueólogos.
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A campanha correu muito e a arrogância governativa não cedeu, partiu-se. A 6 de Outubro, os portugueses escolheram o Partido Socialista, de António Guterres, que prometeu uma governação de diálogo.
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Ora, essa represa de Foz Côa não iria destruir apenas património histórico mundial, mas a Quinta de Ervamoira. Salvas as vinhas, salvaguardado o interesse público, hoje é possível conhecer um pouco desse espólio, num pequeno sítio museológico. Na vila de Foz Côa foi construído um museu exemplar, inaugurado em 2009.
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Os vinhos do quarto de século
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O Duas Quintas Tinto 1990 mostrou-se fantástico, prometendo mais anos de vida. Foi um ano com um Inverno chuvoso e um Verão quente e seco, o que colocou desafios aos técnicos da Ramos Pinto. Fez-se com uvas de touriga francesa (50%), tinta roriz (25%), tinta barroca (15%) e touriga nacional (10%), sendo engarrafado, após estágio em barricas de carvalhos francês, em Fevereiro de 1992.
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O Duas Quintas Reserva Tinto 1991… se o primeiro estava fantástico, este ficou acima. Muito vivo e apetecível. As uvas foram sobretudo de Ervamoira (80%). O vinho estagiou nove meses em casco de carvalhos português e francês, tendo sido engarrafado dois anos após a vindima. O lote foi de touriga francesa (60%), touriga nacional (20%) e tinta barroca (20%).
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A firma Ramos Pinto considera que 1994 foi o ano da década, com as características climatológicas avaliadas como perfeitas.
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O Duas Quintas Tinto 1994 está em grande forma, com grande vitalidade. Porém, achei-o excessivo, cansou-me. Apenas 20% do vinho estagiou em madeira, em pipas de carvalho português com dois e três anos de uso, durante seis meses. O lote é de touriga francesa (45%), tinta roriz (40%) e touriga nacional (15%).
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Excelentíssimo, o Duas Quintas Reserva Tinto 1994. Um néctar fabuloso. Após a fermentação maloláctica, 40% do vinho estagiou em cascos de carvalhos português e francês, durante nove meses. O engarrafamento aconteceu dois anos após a vindima. O lote é de touriga nacional (50%), touriga francesa (30%) e tinta barroca (20%).
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O ano 2000 também correu de feição. O Duas Quintas Branco 2000 está para as curvas. Metade do vinho fermentou em cubas de inox e a outra parte em madeira nova de carvalho francês. De acordo com a ficha técnica, o lote é de «mistura» (?! – 30%), rabigato (30%), viosinho (20%) e arinto (20%).
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Muito bem está o Duas Quintas Reserva Tinto 2000. Após a maloláctica, 80% do vinho estagiou um ano em barricas de carvalho francês, tendo sido engarrafado dois anos após a vindima, depois de 365 dias em garrafa. O lote é de touriga nacional (50%), touriga francesa (30%), tinta barroca (10%) e tinta roriz (10%).
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Nota 1: Música «Portugal e a CEE», dos GNR.
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Nota 2: Música «Não sabe nadar», dos Black Company.

segunda-feira, fevereiro 08, 2016

Alambre Moscatel Roxo 2010

Elogiar os moscatéis da firma José Maria da Fonseca (JMF) é como noticiar a derrapagem das contas públicas portuguesas. Vira o disco e toca o mesmo: os Governos falham e esta empresa acerta.
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Confesso que tenho grande simpatia por esta casa, que começou pelos produtos, consequentemente pelos técnicos e gestores que o permitem, e hoje se estende à família proprietária, que vai na sexta geração. Contudo, penso ter o distanciamento suficiente para avaliar o que ali se faz, até porque conto com 26 anos de jornalismo, tempo mais do que suficiente para saber controlar emoções e adjectivos. Além de que os textos publicados na Garrafeira do Infotocopiável (nova designação, mas com o mesmo endereço) não são notícias, mas opiniões, como tal subjectivos.
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Um dos aspectos que merece uma vénia é o cuidado com as plantas, que não começou agora, traduzido na maior colecção ampelográfica de castas em Portugal. Um acervo que permite o estudo, com as vantagens que daí advém na biologia, viticultura, história, preservação, oportunidade de criação de produtos, etc.
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Se hoje existe vinho Bastardinho, outrora também conhecido por Vinho do Lavradio, resulta das compras efectuadas ao último viticultor da casta bastardo da Península de Setúbal. A vinha deu lugar a cidade e, décadas depois, uma nova nasceu por via da lavoura da JMF.
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Outro exemplo é o da variedade que faz o vinho aqui em análise, a moscatel roxo. Há uns anos restava um hectare, na Quinta de Camarate, propriedade desta empresa, e hoje há 40, dos quais dez são da JMF.
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O moscatel roxo tem permitido a Domingos Soares Franco, enólogo-mor da JMF, andar a criar «terror», onde a partida maior que me pregou foi o monovarietal de touriga franca (95%) - publiquei um texto na revista online Blend - All About Wine. O rosado desta casta tem sido um sucesso, pese não me dar grande prazer. Se o mundo diz uma coisa e eu outra, provavelmente (99,999999999…%) é ser eu o equivocado.
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O generoso (fortificado) Alambre Moscatel Roxo 2010 vem na linha de edições anteriores. Fresco e convidativo, descontraído e com boas maneiras à mesa. É fino, com subtileza, o que o torna perigoso. A gulodice não advém do açúcar, mas dessa frescura e elegância.
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Não sei o que é essa coisa da relação entre a qualidade e o preço, mas posso garantir o que é um valor seguro. Entendo a designação como sinónimo de fiabilidade. O enófilo sistemático e o apreciador não militante têm a certeza do que estão a comprar – seja qual for o critério de exigência, nível prazer, conta bancária e disposição de pagar até determinado patamar, os elementos para o estabelecimento dessa equação da relação do preço com a qualidade.
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O tal distanciamento que julgo ter para a avaliação faz-me abster de divulgar a minha tabela de relação entre a qualidade e o preço. Este blogue reflecte apenas o meu gosto pessoal, sendo as notas inteiramente subjectivas. Porém, em casos em que a apreciação me pareça confrontar a qualidade, coloco esse facto em evidência, para que possa ser feito o desconto.
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Percebi que a casta moscatel roxo fica aquém (gosto) da moscatel de alexandria – o que não desfaz. No tal monovarietal resulta fantástico. Até pelo que escrevi acima, com isto não digo que se arranquem as vinhas do moscatel roxo para pôr a preferida.
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Resumando e concluando. Belíssimo vinho cuja nota dou uma margem de 0,5 pontos. Ou seja, penso que, se me abstiver do prazer pessoal, a nota estará meio ponto acima. Note-se que a escala (subjectiva) é decimal, mas em que o 3 é positivo – não vejo vantagem em estabelecer patamares para o «evitável» ou o «reprovado». Acresce outro pormenor; é uma escala aberta como a de Richeter.
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Denominação: Mocatel Roxo de Setúbal
Produtor: José Maria da Fonseca

Nota: 6,5/10

segunda-feira, novembro 02, 2015

Concurso Escolha da Imprensa 2015

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O Concurso Escolha da Imprensa 2015, organizado pela Revista de Vinhos, bateu o recorde do número de vinhos em avaliação. Os 34 jurados provaram um total de 357 vinhos, tendo premiado 79. Esta prova realiza-se no âmbito do Encontro com o Vinho e Sabores, que decorreu entre 30 de Outubro e 2 de Novembro, no Centro de Congressos de Lisboa.
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A prova está dividida em cinco categorias: Espumantes, Brancos, Rosés, Tintos e Fortificados. Os vinhos distinguidos com Grande Prémio Escolha da Imprensa foram: Murganheira Cuvée Reserva Especial Távora-Varosa Branco 2004 (espumante), Muros de Melgaço Vinho Verde Alvarinho 2014 (branco), MR Premium Regional Alentejano 2014 (rosé), H.O. Douro Grande Escolha 2012 (tinto) e Vau Porto Vintage 2011 (fortificados).
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A lista de vinhos espumantes distinguidos com o prémio Escolha da Imprensa (por ordem alfabética) foram:
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Adega d´Palmela Moscatel Branco (Adega Cooperativa de Palmela);
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Aliança Vintage Bairrada Branco 2010 (Aliança - Vinhos de Portugal);
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Murganheira Assemblage Távora-Varosa Grande Reserva Branco 2000 (Sociedade Agrícola e Comercial do Varosa);
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Murganheira Blanc de Noirs Távora-Varosa Touriga Nacional Branco 2008 (Sociedade Agrícola e Comercial do Varosa);
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Primavera Baga-Bairrada Branco 2013 (Caves Primavera);
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Quinta da Calçada Cuvée de Choix Reserva Branco (Agrimota);
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Raposeira Peerless Super Reserva Branco 2009 (Caves da Raposeira);
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Raposeira Super Reserva Blanc de Blancs Branco 2011 (Caves da Raposeira);
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Regateiro Bairrada Branco 2013 (Ares da Bairrada);
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São Domingos Cuvée Bairrada Branco 2011 (Caves do Solar de São Domingos).
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A lista de vinhos brancos distinguidos com o prémio Escolha da Imprensa (por ordem alfabética) foram:
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Adega Mãe Regional Lisboa Viosinho 2014 (Adega Mãe);           
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Aveleda Reserva da Família Bairrada 2014 (Aveleda);
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Borges Colheita Tardia Dão 2010 (Sociedade dos Vinhos Borges);
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Catarina Regional Península de Setúbal 2014 (Bacalhôa Vinhos de Portugal);
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Herdade Monte da Cal Saturnino Regional Alentejano Grande Reserva 2013 (Herdade Monte da Cal);
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Mirabilis Douro Grande Reserva 2014 (Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo);
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MR Premium Regional Alentejano 2013 (Sociedade Agrícola D. Diniz);
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Mula Velha Premium Regional Lisboa 2014 (Quinta do Gradil);
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Nostalgia 10 Barricas Vinho Verde Alvarinho 2013 (Lua Cheia em Vinhas Velhas);
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Portal do Fidalgo Vinho Verde Alvarinho 2014 (Provam);
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Pousio Regional Alentejano Reserva 2014 (Casa Agrícola HMR);
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QM Vinho Verde Alvarinho 2014 (Quintas de Melgaço);
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QM Vinhas Velhas Vinho Verde Alvarinho 2013 (Quintas de Melgaço);
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Quinta das Cerejeiras Óbidos Reserva 2012 (Companhia Agrícola do Sanguinhal);
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Quinta dos Carvalhais Branco Especial Dão (Sogrape Vinhos);
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Quinta dos Carvalhais Dão Reserva 2011 (Sogrape Vinhos);
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Rozès Noble Late Harvest Douro 2011 (Rozès);
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Serras de Grândola Edição Especial Regional Península de Setúbal 2014 (Maria Jacinta Nunes da Costa Sobral da Silva);
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Terras de Lava IG Açores Colheita Selecionada 2014 (Cooperativa Vitivinícola da Ilha do Pico);
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Titular Dão Encruzado 2014 (Caminhos Cruzados);
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Vila Santa Regional Alentejano Reserva 2014 (J. Portugal Ramos Vinhos).
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A lista de vinhos rosés distinguidos com o prémio Escolha da Imprensa (por ordem alfabética) foram:
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Casa do Lago Regional Lisboa 2014 (DFJ Vinhos);
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JP Azeitão Regional Península de Setúbal (Bacalhôa Vinhos de Portugal);
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Pluma Vinho Verde 2014 (Casa de Vila Verde);
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Quinta do Poço do Lobo Bairrada Baga Pinot Noir Reserva 2014 (Caves São João).
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A lista de vinhos tintos distinguidos com o prémio Escolha da Imprensa (por ordem alfabética) foram:
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2221 Terroir Cantanhede Bairrada 2011 (Adega Cooperativa de Cantanhede);
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Adega de Borba Alentejo Garrafeira 2009 (Adega Cooperativa de Borba);
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Adega de Pegões Regional Península de Setúbal Alicante Bouschet 2012 (Cooperativa Agrícola de Santo Isidro de Pegões);
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Blog Regional Alentejano Alicante Bouschet + Syrah 2012 (Tiago Mateus Cabaço e Cabaço);
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Cartuxa Alentejo Reserva 2012 (Fundação Eugénio de Almeida);
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Casa Santos Lima Regional Lisboa Reserva 2012 (Casa Santos Lima);
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Conde d ´Ervideira Private Selection Alentejo 2012 (Ervideira);
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Consensus Regional Lisboa Pinot Noir & Touriga Nacional 2008 (DFJ Vinhos);
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Dona Berta Douro Tinto Cão Reserva 2011 (Hernâni A.M Verdelho);
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Dona Maria Regional Alentejano Grande Reserva 2010 (Júlio Bastos);
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Elpenor Dão 2011 (Júlia Kemper Wines);
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Foral de Cantanhede Gold Edition Bairrada Baga Grande Reserva 2009 (Adega Cooperativa de Cantanhede);
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Herdade da Ajuda Regional Alentejano Syrah & Touriga Nacional 2009 (Herdade da Ajuda Nova);
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Monte Branco Regional Alentejano 2011 (Luís Louro);
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Paço dos Cunhas de Santar Vinha do Contador Dão 2009 (Paço de Santar -Vinhos do Dão);
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Pai Chão Regional Alentejano Grande Reserva 2011 (Adega Mayor);
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Poliphonia Regional Alentejano Reserva 2013 (Granacer);
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Quinta da Gândara Dão Touriga Nacional Reserva 2011 (Sociedade Agrícola de Mortágua);
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Quinta da Romaneira Regional Duriense Petit Verdot 2012 (Sociedade Agrícola da Romaneira);
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Quinta da Touriga-Chã Douro 2013 (Jorge Rosas);
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Quinta das Corriças Trás-os-Montes Reserva 2011 (Sociedade Agrícola Quinta das Corriças);
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Quinta do Grifo Reserve Douro 2011 (Rozès);
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Quinta do Quetzal Alentejo Reserva 2011 (Quinta do Quetzal);
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Quinta do Serrado Dão Touriga Nacional 2010 (Sociedade Agrícola Castro de Pena Alba);
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Quinta Seara d´Ordens Vinhas Velhas Douro Reserva 2012 (Sociedade Agrícola Quinta Seara d´Ordens);
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Titular Dão Reserva 2012 (Caminhos Cruzados);
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Velhos Bardos Douro Reserva 2013 (Vasques de Carvalho);
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Villa Oliveira Dão Touriga Nacional 2011 (O Abrigo da Passarela);
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Vinhas Antigas da Beira Interior by Rui Madeira Beira Interior 2011 (Rui Roboredo Madeira).
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A lista de vinhos fortificados distinguidos com o prémio Escolha da Imprensa (por ordem alfabética) foram:
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Alves de Sousa Porto Vintage 2009 (Domingos Alves de Sousa);
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Blackett Porto 30 anos (Alchemy Wines Port);
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Blandy ´s Madeira Bual 2002 (Madeira Wine Company);
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Duorum Vinha de Castelo Melhor Porto Vintage 2012 (Duorum Vinhos);
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Lajido Pico Vinho Licoroso Seco Superior 2003 (Cooperativa Vitivinícola da Ilha do Pico);
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Niepoort Porto Crusted (Niepoort Vinhos);
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Quinta do Seixo Porto Vintage 2013 (Sogrape Vinhos);
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Quinta Seara d´Ordens Porto Vintage 2012 (Sociedade Agrícola Quinta Seara d´Ordens);
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Vasques de Carvalho Porto 30 anos (Vasques de Carvalho);
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Vasques de Carvalho Porto Vintage 2013 (Vasques de Carvalho).

sábado, outubro 31, 2015

X < ꝏ + 1 = 1 – Há lugar para todos?

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O vinho é prazer – assim se deseja, para que uma dependência não se traduza em doença – mas também negócio. Agora vou atirar-me a uma outra chatice e espero que a equação do título esteja correcta… sei fazer contas, mas escrever equações… os 10º e 11º anos estão muito longe, já resolvo tudo com computadores, calculadoras ou cábulas.
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Continhas, assim em diminutivo. Nada que um simples cidadão, com poucos estudos, não consiga entender: quanto se gasta e quanto sobra. Do resultado saem diversas conclusões, todas alicerçadas em vontades e que, sinceramente, penso serem todas legítimas. Penso pela minha cabeça e o blogue é meu, dito.
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Um dia um vitivinicultor perguntou-me:
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– Sabe como se faz uma pequena fortuna no negócio do vinho?
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– Não.
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– Para começar tem de se ter uma grande fortuna…
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Acaba assim de forma sintética uma verdade que dá para tudo. As empresas são para darem lucro aos seus proprietários (seja qual for a forma de constituição), mas têm de pagar a empregados, fornecedores e Estado.
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Aceitando que todo o dinheiro entregue ao Estado é bem aplicado, o que sai da caixa da conta bancária também contribui para a sociedade. As empresas têm uma responsabilidade social para com as famílias de trabalhadores, fornecedores e funcionários dos fornecedores. Por aí fora. Daí que reforce a importância da gestão com lucro, a menos que se queira fazer a tal pequena fortuna.
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Em qualquer negócio se pode retirar prazer, sou optimista; mesmo que se trate de fazer roscas em parafusos ou dobrar clipes. Porém, o vinho tem uma dimensão de amor e/ou paixão, para que contribuem laços afectivos a um bocado de terra, apreciar agricultar, colher, vinificar e beber. Há história, tradição; cultura em largo espectro. Vou tentar criar uma tipologia.
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O casal Carneiro marimba-se para ganhar dinheiro. É só prazer e a conta bancária é confortável. Vender? Não! O vinho é deles e para os amigos.
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Já o casal Santos ganhou um bom dinheiro nas suas actividades profissionais e comprou uma propriedade para os fins-de-semana e velhice. As coisas sempre vão custando a manter, pelo que pensaram que seria bom ter um negócio que sustentasse as despesas. Olharam para os seus prazeres, porque sempre ajuda, e decidiram plantar uma vinha.
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Aqui há vários tons: havia adega ou foi preciso construir, reparar ou modernizar? O vinho é um nano-negócio e os próprios tratam de tudo, porque «conseguem» e vendem à malta da aldeia? É necessário contratar um enólogo, ou para quem é bacalhau gasta? E equipamento de adega? Volta-se atrás: o que se quer fazer, quanto se quer fazer, como se quer fazer, como se paga, em que prazo, a quanto se vende? Distribuição própria ou contratada? Rótulos e design para todas as faces das exigências? Há adrenalina para se querer crescer?
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Uma variante prévia que não anula o parágrafo anterior, que é a terra ser herança ou arrendada.
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Outra ainda, vender à cooperativa… espera-se (novamente) que seja bem gerida, para que pague bem ou, pelo menos, que pague.
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Por sua vez, o doutor Magalhães fartou-se da vida de executivo de topo e quis um negócio seu, e que pode incluir a tal vontade de lazer. Porém, tem a certeza que é para ganhar dimensão. Terá uma boa adega, enólogo residente, técnico de viticultura, enólogo conceituado, distribuidora cara, empresa de comunicação, investimento em publicidade, design de rótulos, embalagens e de mais necessidades entregue a um ateliê com reputação. Joga-se pelo seguro, e contratam-se os profissionais que estão na berra e fazem-se pagar bem.
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Quanto a família Pacheco herdou um negócio, com dimensão e que conheceu melhores dias. Entra a nova geração e investe, porque os equipamentos precisam de reforma ou estão obsoletos, as marcas degradaram-se… Entram aqui vários aspectos da situação anterior.
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Os Taborda estão, mais ou menos, na mesma situação que os anteriores. Só que ninguém se entende e já há na família quem não se fale. Há que vender a companhia.
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Por seu lado, os Peneda gerem um empório, erguido há uma, duas ou três gerações, mais saudável que os anteriores, pelo que as mudanças serão mais focadas em alguns aspectos inventariados e priorizados.
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O traço comum é o vil metal. Não é preciso ser-se grande para ganhar dinheiro, como não é preciso ser-se pequeno para o conseguir. O mesmo acontece com os prejuízos.
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Referida subliminarmente, lá para trás no texto, a dimensão conta. Vender 1.500 garrafas ou 1.000.000 não é a mesma coisa. O pequeno vitivinicultor até pode fazer uma zurrapa; a quantidade vende-se, mesmo que o consumidor não repita. O empresário com um barco maior vai ter de criar gamas, provavelmente investir em castas que não aprecia, ter um esforço permanente de olhar a concorrência e ter ideias para a diferenciação. Certamente passará a maior parte do tempo fechado em aviões, ou pagar a alguém para ir em seu lugar, para ir fazer negócios, apresentar-se em feiras, realizar demonstrações, participar em embaixadas económicas ou ndebater com distribuidores.
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Parece simples. Contudo, a questão de colocada em carne-e-osso não é fácil. Ninguém é genial para acordar todas as manhãs com uma ideia bombástica, soprada por um espírito amigo durante o sono. Nem todas as manhãs, nem todos os anos.
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Quando as empresas adquirem alguma dimensão, não sendo necessário chegar ao patamar do milhão, ganham visibilidade, pelo que há negócios que lhe vão parar ao colo. A empresa do engenheiro Gonçalves produz 250.000 garrafas numa região, mais ou menos, «desactualizada», com uma gama de três brancos, cinco tintos e um espumante, além dumas sobras em bag-in-box. Sem saber como, um dia – que por acaso estava na propriedade – bate-lhe à porta um negociante chinês. O asiático cumprimenta-o e explica-lhe quem lhe deu o contacto. Como não o conhece de lado nenhum, o português desculpa-se para arranjar um tempo para fazer telefonemas, apurando a reputação do empresário que ali foi dar. Está tudo bem e sentam-se à mesa.
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– Diga então, o que o traz por cá?
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– Em Cantão ouviram falar nesta região. Vários compradores conheceram-na através duma feira e penso que há mercado para se ganhar dinheiro com vinho daqui.
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(salto para depois da prova de várias garrafas)
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– Sim, senhor. Vamos a isso. O que quer e quanto quer?
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– Nesta primeira fase, preciso de 1.000.000 de garrafas. Começamos com um tinto e, após vermos como vão as coisas, podemos vender mais referências.
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Os túbaros do engenheiro Gonçalves bateram um no outro e vedaram, por efeito dominó, o esófago. Os bolsos a cantarem e a cabeça a matraquilhar:
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– (Porra! Não tenho tanto vinho, nem mesmo com as sobras… e duma só referência, além de tudo).
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Neste momento, Minerva, Mercúrio e Baco conjuram. A cabeça do engenheiro Gonçalves acrescenta a tarefa de tentar parecer que está tudo bem, para que o empresário chinês não se assuste ou descubra as suas cartas no poker.
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Há duas hipóteses:
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Hipótese A: Dizer a verdade e recusar a oportunidade.
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Hipótese B: Inventar uma desculpa credível para ganhar tempo, para que possa juntar a quantidade necessária para satisfazer a encomenda.
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Sublinhe-se que o empresário chinês não foi comprar vinho duma marca ou duma referência existente. Foi procurar quem lhe vendesse 1.000.000 de garrafas de bom vinho, daquela região, para que fizesse negócios em Cantão.
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A hipótese «A» termina com honestidade e sem glória:
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– Muito prazer em conhecê-lo, se um dia voltar venha beber um copo comigo e se um dia for a Cantão irei visita-lo.
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– Com todo o gosto. Muito bom dia.
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A hipótese «B» implica tempo. Com uma desculpa credível despede-se até amanhã, ou até quatro ou cinco dias, porque o empresário vai também a outras regiões à cata de oportunidades. Nesse período, o engenheiro Gonçalves, tendo um caderno de encargos específico quanto a preço e requisitos do produto, telefona a vários produtores da zona, para que consigam juntar aquele 1.000.000 de garrafas e abrir portas a mais negócios. Se consegue, óptimo. Se não consegue, azaruncho.
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Este caso foi real.
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A hipótese «B», se cumprindo os requisitos e o preço pretendido, nada tem de desonesto. Mas a hipótese «A» não tem nada de racional.
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Pequeno é lindo! Cemole ise biutifule!
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No final do século XX e início deste assistiram-se a vários processos de concentração empresarial. Em diferentes ramos e de modos vários, desde ofertas públicas de aquisição, troca de participações sociais, fusão ou simples compra.
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Acontece volta e meia e por todo o lado. Não me admiraria que tal viesse a acontecer em Portugal no sector do vinho. Penso ser desejável.
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Ganhar massa-crítica pode ser conseguida de diversos modos e em diferentes profundidades, desde a partilha de espaços de promoção e acções de divulgação conjunta até à constituição de empresas, participadas por várias empresas independentes, ou pelos métodos mais mediáticos e que referi.
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Para ser rigoroso e consequente, dou dois exemplos de associações felizes. Uma que não põe em causa as identidades corporativas e não lhes dá uma gestão conjunta e formal, e outra em que várias firmas são accionistas duma casa-mãe: Douro Boys e Lavradores de Feitoria. Se fugirmos do universo da individualidade, há as cooperativas – e isso é outra coisa.
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Quem faz umas centenas de milhares de garrafas ou uns milhões tem uma pressão constante, que o pequeno não tem. O anão tem umas sobras e inventa umas edições especiais, que por serem raras e bem trabalhadas em termos de comunicação, as garrafas custam trinta vezes o valor merecido. Os grandalhões têm menos flexibilidade.
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Escrevo este texto porque me pergunto insistentemente como não foram já dados passos no sentido das fusões e aquisições, ou parcerias aprofundadas, entre empresas complementares ou que acrescentem oferta idêntica.
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Pode ser o pouco racional individualismo português? Pode. Mas quem tem embarcações grandes tem tudo diferente face às pequenas sociedades. Além de complementaridade há acrescentos: a empresa da quinta duriense do doutor Fagundes junta-se à lisboeta do engenheiro Sousa e à alentejana do doutor Felisberto. Juntos somam 2.200.000 garrafas… e podem crescer.
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E se… duas, três, quatro ou cinco sociedades duma mesma região –fazem vinhos com os mesmos conceitos, têm abordagens idênticas aos mercados, quiçá com propriedades contíguas – cada qual com mais de 1.5000.000 de garrafas se juntassem?
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A união entre pequeninos, pequenos ou médio-pequenos eventualmente pode ser mais ligeira e talvez não traga grandes benefícios. Quando se passa para as centenas de milhares ou milhões de garrafas já os benefícios me parecem óbvios.
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A dimensão pode, inclusivamente, levar ao alargamento do âmbito de actuação, com aquisição de firmas, até mesmo noutros países. A Sogrape, a maior empresa do sector, é uma multinacional (familiar) e não é por isso que deixa de ser portuguesa, de apostar nos vinhos feitos por cá ou deixa de produzir vinhos de grande prestígio.
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Infelizmente para o país, a Sogrape é (verbo ser) sozinha! Quando sete das maiores empresas do sector se juntaram, na associação que ficou conhecida por G7, percebeu-se rapidamente que a multinacional não tinha muito para debater com as outras sociedades: Aveleda, Caves Aliança, Caves Messias, Finagra, José Maria da Fonseca e JP Vinhos.
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Se não erro (reporto o número que me disseram), a facturação da Sogrape é superior à soma das outras seis empresas. Isto traduz o que é o negócio do vinho em Portugal. Poderão os empresários do sector acusar-me:
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– Vem para aqui este doutor da mula ruça botar sentenças sobre negócios, quando não tem um cêntimo investido nem experiência de gestão… nem duma pequena empresa.
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Tenho de me calar. Porém, o pressuposto é verdade: as empresas são para dar lucro e a dimensão conta. De qualquer modo, reconheço que ser-se grande não significa ausência de riscos e de responsabilidades.
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Não há fórmulas mágicas – que saiba, pois se soubesse estaria a aterrar numa pista reservada, no meu jacto particular...
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Para me bronzear numa praia restrita, enquanto suspirava inquieto e puerilmente acerca a importância da estética nas sociedades contemporâneas ocidentais, tendo em conta as obras de Jeff Koons, Gilbert & George, Francis Bacon e Bansky.
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Se uma empresa for só mais uma empresa, é porque é uma empresa a mais. X < ꝏ + 1 = 1
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Jeff Koons.
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Gilbert & George.
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Francis Bacon.
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Bansky.
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Nota: Escultura de Jeff Koons, Excertos de filmes do «007», Pintura de Bansky, Pintura de Francis Bacon, Pintura de Gilbert e George, Pintura de William Trost Richards.