ponto de ordem à mesa

O mundo gira e dá voltas. Teimosamente às voltas. Pensava que o joaoamesa.blogspot.com estava morto ou, pelo menos, em estado de coma. Ou pior, sem qualquer sinal vital, ligado à blogosfera por nostalgia e arquivo. Mal morto, o blogue mantém o endereço, mas muda de título.

segunda-feira, maio 25, 2015

Quarta edição do Festival do Vinho do Douro Superior

O meu queixume faz sorrir quem vive num país grande. Lisboa dista de Foz Côa 390 quilómetros e diz o Google que se percorrem em pouco mais de três e meia… suspiro quando penso no que não importa.
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Fui na sexta-feira e regressei ontem do Festival do Vinho do Douro Superior, organizado pela Revista de Vinhos para o município de Foz Côa.
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Participei como jurado do concurso do festival, que, mais uma vez, se distinguiu por uma grande qualidade dos vinhos em prova.
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O melhor vinho branco foi Bons Ares 2003, da Ramos Pinto. O Duorum Vinhas Velhas Reservas 2012, da Duorum Vinhos, ganhou nos tintos. Nos generosos, o vencedor foi o Vinho do Porto Quinta da Ervamoira Vintage 2005, da Ramos Pinto.
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Mais informações sobre o concurso podem ser obtidas no sítio da Revista de Vinhos.

quinta-feira, maio 21, 2015

Bebei Babel

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Não sei as vezes que escrevi palavras alinhadas, mais ou menos, como estas. Sei que as envio repetidas para algumas pessoas. Lamento, mas…
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Quando a vergonha se acanha e, de tão atiçada, se faz forte, põe as garras de fora e luta, porque a sobrevivência é mais fácil do que a pobreza.

A notícia correu à velocidade das pernas e do boca-em-boca, na época não existiam nem telefone, muito menos telemóveis nem se sonhava com os falecidos peigeres, nem telégrafo, nem telexes, nem imailes, nem ésse-éme-ésses, nem éme-éme-ésses, nem internete, nem rádio-telefonia, nem televisão, nem ualquitolquies… havia palavra escrita, mas não jornais. Podiam fazer-se sinais de fumo, mas naquelas terras não se usavam.
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Soube-se pela velocidade dos passos e destreza da boca: caiu a Torre de Babel.
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Agora que há todos os meios que citei é rápido informar que a minha obra-prima nem se conseguiu erguer.
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Ora tentem fazer uma torre de vinho.
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Nota: Pintura de Albert Anker.

quarta-feira, maio 20, 2015

Fazer vinho é canja mas galináceos não fazem parte dos lotes

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Chrétien de Toyes escreveu e fez-se o Graal.
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José de Arimateia levou-o e o tempo perdeu-o. Achá-lo só os puros e de merecimento. Sir Galahad, Sir Bors e Sir Percival conseguiram.
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O Graal desapareceu. Se está escrito, existe. A letra impressa não mente.
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Muito mais antiga é a demanda da Pedra Filosofal. Tão antiga que, pelos artifícios da alquimia, se descobriram verdades de ciência.
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Antiga e já conseguida. Cientistas conseguiram fabricar ouro. Ouro que vale mais do que ouro, só um trilionário sem juízo compra esse metal. A natureza vende mais barato...
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Se bem que o conseguimento não é bem um concretizamento. A Pedra Filosofal tem de transformar em ouro qualquer metal plebeu; os sábios apenas conseguiram fazê-lo e não que consiga metamorfosear qualquer calhau.
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Ah! O mais prosaico… o Elixir da Eterna Juventude. A morte chega a todos e assusta muita gente. Também os poderosos do mando falecem e temem o dia em que a gadanha os faça fechar os olhos.
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Com o ouro pagaram a homens de ciência e virtude. Como nos contos das «Mil e Uma Noites», a habilidade estava em conseguir manter o patrono entretido, acreditando que os progressos se faziam.
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Aldrabão e famoso, o alquimista era chamado à Corte. O ouro tão perto, puro veneno. A cobiça e o pesadelo. A maior competência não era fabricar vida, mas não criar a morte. Ter as perícias para progressos e um sofrimento esperançoso por não ter tido ainda sucesso.
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A vida eterna é no Além. Ou… a espada, cutelo, machado, garrote, forca ou. O fabuloso mercúrio. O mortal mercúrio.
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Todos os mestres foram um dia aprendizes, mais tarde ainda esperaram como oficiais. Entre os mestres, uns melhores do que outros – nunca esquecendo que dois mais dois podem não ser cinco.
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Johann Wolfgang von Goethe poemou «O Aprendiz de Feiticeiro», que não poderei ser. Acreditei nos livros das ciências sem mestre e montei um laboratório com os ingredientes e ferramentas, sabendo colher dos mestres o conhecimento aproveitável, vinho monovarietal engarrafado.
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Em segredo comprei as essências e pela noite até de manhã nada mais fiz do que procurar o Graal, a Pedra Filosofal e o Elixir da Eterna Juventude.
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Vinho!
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Não sei que horas eram quando finalizei a poção. O melhor vinho do mundo!
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Engarrafei-o em frascos de perfume de sete decilitros e meio, devidamente rolhados. Sobre o todo, lacre, como antigamente.
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Exausto adormeci, sonhando com Xerazade, Isolda, Julieta, Dulcineia, Dinamene, Bela Adormecida e Maria Carolina de Bourbon Duas Sicílias.
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Ainda fatigado, revelei o vinho – Elixir da Eterna Juventude, Pedra Filosofal e Graal.
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Não tentem fazer isto em casa. Dos vários escolhidos, enófilos de escol ou só de folia, recebi um quase unânime:
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– Não é bom. Acho que nem é propriamente mau, é muito esquisito.
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Houve um que sentenciou:
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– É uma grande…
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Se tivesse sido um êxito, não revelaria a fórmula. Para memória de chacotas futuras, deixo a composição:
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Encruzado (15,3%), arinto (15,3%), chardonnay (15,3%), touriga franca (15,3%), alicante bouschet (15,3%), loureiro (7,7%) touriga nacional (7,2%), alvarinho (5,7%) e syrah (2,9%).
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Era suposto ser palheto, mas só consegui tinta de escrever, mas em encarnado.
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Com as sobras aproveitáveis criei uma pujança, uma espécie de tiro da Big Bertha, por isso dei-lhe a alcunha de Thor. Alvarinho (40%), syrah (33,4%) e touriga nacional (26,6%). Um pouco mais bronzeado do que o anterior, e mais bebível.
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Nota 1: Por incapacidade da caixa de etiquetas, deixo aqui a relação dos artistas cujas obras tiveram a infelicidade de ilustrar o meu vinho... Lawrence Alma-Tadema, Paul Delvaux, André Derain, Ticiano, Constant Troyon e Mårten Eskil Winge.
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Nota 2: A imagem principal designa-se por «O Alquimista» e é de autoria desconhecida, mas enquadrável no género alemão, estando datada de 1880.





sexta-feira, janeiro 16, 2015

Siza 2009 – muito mais do que um vinho

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A crónica é sobre vinho, garanto! Contudo, há mais coisas para escrever. Quem não quiser ler além do estritamente vínico que salte para onde o texto retoma a sua cor habitual.
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Tenho uma frustração: não segui belas artes. No tempo em que estava no liceu – Escola Secundária Gil Vicente – a minha primeira opção para prosseguir os estudos era pintura. O design atraía-me e a escultura nem por isso. Sonhava também com casas, mas arquitectura estava fora de opção.
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Acabei por desistir por causa de três cadeiras absolutamente inúteis para quem quer seguir pintura, design de comunicação ou escultura: matemática, física e química. Nunca percebi por que haveria de ser flagelado se quem ia para letras estava dispensado – aliás, a única via em que o terror estava ausente.
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Anos depois compreendo a minha frustração. O sentido de justiça e a falta de lógica toldavam-me a razão. Birra?... Penso que não. Olhando para esses anos e relativizando, percebo que seria justo que todas as hipóteses pedagógicas deveriam ter matemática. Isso, só por si iria fazer prosseguir os estudos sem ser por fuga.
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Mudei-me para letras – sem sacrifício, pois a escrita e a história sempre estiveram comigo como as artes plásticas. Não me sinto ou senti frustrado, propriamente, apenas desgostoso. Nunca fui bom aluno a matemática, desde a primeira classe. Até ao nono ano safei-me à tangente.
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No décimo e décimo primeiro a loiça era outra. Dizia-me uma Professora (com «p» bastante grande) que não compreendia como era possível ter as notas que obtinha, quando era o primeiro ou dos primeiros a entender a matéria.
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Na verdade, esses patamares de matemática foram, em toda a minha vida escolar, os que melhor entendi em números. Porém, a minha vocação era tão grande, que o resultado era em linguagem binária: 0 e 1 – zero e um!
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Tive explicadores e ajudas familiares. Entendia, tudo bem. Porém, chegada a véspera do teste todo o conhecimento se evaporava. Entendo hoje, a reacção psicológica… ter matemática, física e química não tinham lógica nem função. Já a geometria descritiva não me causava dores… fazia sentido para o futuro que ambicionava.
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Acabei por mudar de área vocacional. Cheguei ao 12º ano com 19 anos. Um professor – professorzeco, com «p» minúsculo – de filosofia gostava muito de ser gozão. Mas gozo humilhante. Na primeira aula decidiu tentar enxovalhar-me, por causa da idade com que chegava ao último ano do secundário.
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No final, dirigi-me a esse senhor – baixinho de altura e carácter – e enfrentei-o. Baixou os olhos e engasgou-se ligeiramente. Pelos vistos, nenhum aluno o enfrentara nos olhos e o contestara. Expliquei-lhe por que tinha 19 anos e ia terminar o ano lectivo com 20.
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Rancoroso, ainda tentou ensaiar alguns achincalhamentos. A minha resposta visual recuavam-no e seguia a tentativa de humilhação para outro aluno. Sempre muito capaz nas coisas das letras e com leituras acertadas, espantei-me quando saiu a nota da primeira avaliação: 2,5 valores.
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Percebi que não podia permanecer com o sujeitinho como professor. Anulei a matrícula e candidatei-me a exame nacional: 16 valores. Nas provas de admissão à faculdade, outros 16 valores. Confirmei o quanto era pequenino esse sujeitinho, que era professorzinho.
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Com demasiado tempo livre, na altura o 12º apenas tinha três cadeiras (hoje não sei) e eu tinha anulado uma, tornei-me jornalista em Janeiro de 1990, no Diário Económico. Cresci imenso e fiz-me mais crescido, mimetizando os mestres.
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Tardei em acabar o curso de história, e cedo percebi que não o iria utilizar, e cá continuo às voltas com reportagens, sobretudo. Disciplina maior do jornalismo, que tenho o privilégio de exercer regularmente.
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As artes não morreram. Ainda hoje desenho e pinto, com frequência insuficiente. Quem olhar para o blogue preto perceberá que a arte vive-me e que a uso não como ilustração, mas como complemento do texto, em diálise – embora haja situações em que são ilustrações e noutras em que a ilustração é o texto, em forma de legenda.
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Teimo em gostar de arquitectura e dou-me a liberdade de a julgar. Não tenho habilitações académicas ou de tarimba, mas se todos podemos discutir literatura, música ou cinema, por que não arquitectura?!
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Bem, a arquitectura não é uma ciência artística, embora alguns arquitectos e paisanos pensem que sim. A arquitectura, como o design ou a enologia, é saber técnico. A estética vem por acréscimo – certo disso é que nunca aspirei a seguir arquitectura, licenciatura que, à época, era ministrada nas faculdades de belas artes. Tanto quanto sei, hoje está enquadrada em universidades técnicas.
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Sendo arte ou ciência técnica, a arquitectura pode ser discutida pelos curiosos e ignorantes, como tudo. Viva a liberdade! Álvaro Siza Vieira é um dos melhores arquitectos do mundo, vencedor do Prémio Pritzker, referente a 1998, pelo Pavilhão de Portugal na Exposição Internacional de Lisboa. Aquela pala é fantástica e espero que o engenheiro – deve ter passado semanas acordado – que fez os cálculos estruturais tenha ganho também um troféu, não consegui apurar.
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Nas minhas liberdades de discussão de arquitectura, afirmo que detesto o trabalho de Álvaro Siza Vieira. Em parte é para chatear a minha prima, Maria Carolina Palma, que exerce e tem nesse arquitecto do Porto um marco de referência.
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Um dia disse-lhe desastradamente:
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– A arquitectura do Siza Vieira não é gira!
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Deu-me uma resposta em forma de tiro de canhão:
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– Giros têm de ser os brincos.
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Assunto arrumado.
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Na verdade, o que me chateia na obra de Siza Vieira é a obsessão pelo branco. Não é a síntese do traço ou o conceito dos edifícios. É o branco, que se torna melancólico. Para melancólico basto eu!
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É certo que são conhecidas bizarrias, (birras) e teimas. Quem as não tem? Tratando-se de trabalho (técnico) criativo, Siza Vieira tem todo o direito de defender a sua estética e de a exercer.
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Não vou enumerar o que gosto e não gosto nos edifícios de Siza Vieira, digo somente que o Pavilhão de Portugal é uma construção que o mundo merece ver, nem que seja em fotografia.
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Tenho tido a possibilidade de ver e tocar desenhos, em liberdade, de Álvaro Siza Vieira, nomeadamente na Quinta do Vale Meão. À solta, em rótulos ou por aí, os traços agradam-me muito.
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Enófilo, já se percebeu, tem concretizado adegas e rótulos. A Adega Mayor, em Campo Maior, é um objecto para se ver. O rótulo que se mostra no vinho que Rui Azinhais Nabeiro – homem dos maiores que Portugal deu à luz – é duma simplicidade, ou síntese, arrasadora.
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Tratando-se dum vinho de homenagem, o Siza 2009, não o irei classificar com uma nota redutora, ainda que assumidamente subjectiva e excêntrica. Não tenho esse direito. É uma homenagem que um amigo fez ao outro.
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Bonito – como os brincos que a minha prima me atirou à prosápia – o rótulo não é uma ilustração, mas parte integrante dum objecto que se faz também de vinho. O vinho, pretexto para esta crónica, é obra dos enólogos Paulo Laureano, o chefe, e Rita Carvalho, que tenho pena ter deixado de exercer.
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O que é este Siza 2009? É um abraço alentejano, que a casta alicante bouschet deu o corpo e o espírito. É um alentejano verdadeiro. É um vinho escuro, que se reflecte na cor do rótulo e se aviva no branco que Siza Vieira tanto aprecia.
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Não quero falar em descritores, que são coisas a que não dou um valor determinante. Porém sublinho o cacau e a potência educada como se revela na boca.
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Produziram-se apenas 2.500 garrafas. Ainda bem que são poucas, pois acrescentam valor ao desejo de o beber. Álvaro Siza Vieira e Rui Azinhais Nabeiro merecem um vinho destes.
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Origem: Regional Alentejano
Produtor: Adega Mayor
Nota: X/10

Pala da Lebre Branco 2013

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A crónica é sobre vinho, garanto! Contudo, há mais coisas para escrever. Quem não quiser ler além do estritamente vínico que salte para onde o texto retoma a sua cor habitual.
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Vinho sem emoção tem interesse? Talvez tanto quanto quando é bebido por beber. Os momentos fazem os vinhos. Nem sempre os vinhos fazem os momentos. Viver é muito mais do que prazer e ter um só prazer sabe-me a poucachinho.
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As artes plásticas, sobretudo a pintura, dão-me um prazer que não substitui o vinho, nem por ele é substituível. A elas posso juntar a música, a heráldica cívica ou vida de dois países que inventei quando era criança e que mantenho porque o devo.
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Um só copo pode ser exagero e duas garrafas um défice. Como os beijos e as zangas. Tanto já se disse escreveu acerca dos momentos e emoções e seus acompanhamentos báquicos. A eles junto a estética visual.
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O vinho é várias coisas e uma delas pode ser manifestação artística. Ao mesmo tempo, o seu embrulho pode dar-lhe valor, diferenciação ou coisa nenhuma. Infelizmente, a sensibilidade artística é escassa, falta «mundo» a muitos produtores. Há vinhos que se bocejam, tal como rótulos.
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Nem todas as casas podem aspirar a serem – em euros disponíveis para a arte – o Château Mouton Rothschild. As garrafas desta vinícola do Médoc conheceram obras exclusivas de Picasso, Henry Moore, Kandinsky… é assim desde 1924. Por cá temos o Esporão, que aposta nos artistas portugueses.
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Volta e meia deparo-me com preciosidades. Sim, os olhos comem e já comprei vinhos por causa dos rótulos. Por que não?! Uns valiam a pena e outros não. O mesmo se passou com o título da obra.
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Os vinhos Ninfa, do meu homónimo, são a mais recente descoberta artística, com os seus sólidos impossíveis. Aliás, penúltima, porque chegou-me uma garrafa de Pala da Lebre. A 29 de Junho de 2014 publiquei uma nota acerca da nova imagem deste produtor duriense. Desde esse dia que está prometido um texto acerca do vinho enviado para prova.
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É chegado o tempo. Agora, porque sim. Agora, por que não?! Coisas da vida, nas suas larguras, alturas, comprimentos e espessuras, que me abstenho de esmiuçar. É agora!
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Já se percebeu que me maravilhei com o rótulo deste branco. Basta olhar para o blogue encarnado para se perceber que não gosto de lá ter ilustrações. Não bem não gostar, é não reconhecer interesse estético no que mostram.
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O trabalho foi concebido pela Essência do Vinho, mas os créditos devem ser atribuídos a Maria Adão. O Pala da Lebre é infantil, é a capa dum livro de estórias que uma avó lê ao neto. Mais do que belo, é terno; e a ternura é confortável. Não sugiro que se esteja a incentivar o consumo de álcool por parte das crianças. Realço o calor que me transmite.
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Embora seja difícil acontecer, uma vinha pode ser tão entediante quanto uma máquina de engarrafamento. Quando não o é? Quando quem olha aprecia a natureza, das ervinhas à bicheza.
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O rótulo do Pala da Lebre tem as árvores, os montes e as vinhas; animais que se recolhem à capoeira e outros que são vadios. Fechado numa cidade aberta, vi-me em descanso campestre, enquanto o bebia e acompanhava com… não me lembro.
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O afecto e o prazer contaminam, mas tentarei ser justo, ainda que assuma toda a subjectividade a que tenho direito neste bloco público. À nota atribuída, 0,5 ponto é prazer visual.
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O Douro encanta-me e o seu vinho dá-lhe mais luzires. Daí obtenho os tintos mais prazenteiros – generalizando – e brancos diferenciados. O Pala da Lebre Branco 2013 responde ao que gosto de encontrar.
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A região tem as alegrias da personalidade e da família. O Douro sabe a Douro. Este branco tem aquele leve adocicado – que não é – petulante, que se conjuga com a terra e as ervas bravias em secagem.
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Rui Walter da Cunha é o responsável pela enologia. As castas são as gouveio, rabigato e malvasia fina. O Douro sabe a Douro. Não é um vinho poderoso, mas tem volume e elegância – esta última nem sempre se consegue por lá. Na garrafa cabem maçãs granny smith sem euforia, a lembrança de rebuçado e restolho. Na boca mostrou-se equilibrado e fresco. Faltam-lhe 100 metros, podia o final ser mais longo.
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Origem: Douro
Produtor: Patamar Ancestral
Nota: 7,5/10
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Nota: Este vinho foi enviado para prova pelo produtor.

domingo, dezembro 21, 2014

Domini Tinto 2012, Domini Plus Tinto 2011, Hexagon Branco 2013, FSF 2011 e Lancers Espumante Bruto

O tempo passa… vi num documentário que há um mecanismo no nosso cérebro, deve ser algo como a espiral da corda dos relógios mecânicos, que faz com que a percepção do tempo varie com a idade.
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Será por causa desse mecanismo que o período de aulas é demorado para as crianças e vertiginoso para os adultos. Quando conheci o anãozinho cá de casa tinha ele quase quatro anos e era um bocadinho trapalhão a andar… andava esquisito. Hoje… corre como um Fórmula 1.
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Assim está a acontecer com este blogue. Os vinhos vão sendo provados – bebidos, porque aqui há pouca ciência e mais prazer – e levam meses até se plasmarem em letras. Está bem que a minha vida não é esta… sou jornalista freelancer, não me posso dar ao luxo de faltar ou de meter baixa ou ter férias. Cada trabalho é benvido (recuso-me a escrever bem-vindo), há a família, outros óbis, dormir…
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Portanto, só posso pedir desculpa pelos atrasos a quem me enviou vinho para prova, pois partiu do pressuposto que seriam publicados os textos a eles relativos em tempo de novidade e procura direccionada.
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Uma das minhas vítimas preferidas é a firma José Maria da Fonseca. Aqui vão as linhas da minha avaliação dos vinhos enviados. Começo com os mais prováveis de chegar às mesas no Natal.
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Desta vez, ao contrário do que é hábito, coloco as pontuações junto ao texto relativo a cada vinho.
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Domini Tinto 2012
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Bendita (estão a perceber por que é que deve ser benvindo e não bem-vindo?) touriga francesa, nome da tradição e que o enólogo-mor desta casa lhe voltou a chamar. Não é envergonhada, mas não é protagonista. Porém, sem ela o Douro não pode ser Douro – ainda me vou tramar com esta afirmação.
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No lote deste vinho constam a touriga nacional (48%), a tinta roriz (30%) e a touriga francesa (22%). Um coro bem afinado, onde a touriga nacional é a maestrina, a tinta roriz os instrumentos de sopro e a touriga francesa o conjunto de vozes.
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Cá vou aos malditos descritos, pois hoje apetece-me. Lá está o doce de cereja – nada de compotas ou outro conduto de pão e bolachas – uma pitadinha de violetas. Ao fundo o terroso da touriga francesa e umas agradáveis notas de madeira. Na boca mostra-se elegante, de fino trato, com boa acidez e bom final.
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Origem: Douro
Nota: 6,5/10
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Domini Plus Tinto 2011
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Acho estranho não ter escrito antes acerca deste vinho. Consta dos meus cadernos de anotações, que inclui o telemóvel, cuja diversidade de recurso não me permite estabelecer uma linha temporal de prova. Devia escrever a data, mas sempre fui mau com números.
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Este está acima do seu sucessor. A razão, que aqui é assumidamente subjectiva, é a quantidade de sumo de touriga francesa: 68%. A tinta roriz (22%) e a touriga nacional (10%) são as parceiras. Obviamente que o trabalho enológico se repercute.
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As diferentes percentagens das composições dos dois vinhos espelharão as virtudes de cada casta em cada um dos anos. Ainda assim, acredito que a pontaria primeira à touriga nacional, no 2011, possa estar relacionada com o apetite do consumidor.
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Este é muito mais Douro. Tem os aromas bravios da região e as casas solarengas das quintas. Uma mão cheia de socalcos – não sei se a propriedade os tem, é mero recurso. Na avaliação olfactiva estão o xisto e sua terra, as estevas, aquela nota de madeira, talvez de azinho, que lhe oferece a touriga francesa. Domingos Soares Franco, enólogo-mor, refere frutos pretos… sim, não divirjo muito; às amoras, mirtilos e ameixas junto figo seco. Quanto a violetas, ná! Continuo na minha, no Douro não topo muito esta flor, parece-me sempre mais o doce, geleia e compotas de cereja e/ou outros frutos vermelhos. Na boca é equilibrado, com boa acidez e um final longo.
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Origem: Douro
Nota: 8/10
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Hexagon Branco 2013
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A marca Hexagon nasceu para os tintos e o seis a que alude referem-se ao número de castas. Neste branco há apenas quatro: viosinho (34%), verdelho (30,5%), antão vaz (20%) e alvarinho (15,5%).
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Por partes: acho gira a combinação de castas tão diferentes e de regiões diversas. Não penso que seja arriscado, é um vinho para amantes assumidos, que premeiam a diferenciação, e para os apreciadores do estilo desta firma de Azeitão.
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Como enófilo premeio as diferenças, ainda que, por vezes, não me sacie completamente o prazer. Reafirmo, este não é um blogue de crítica «séria» (é sério porque respeita o meu gosto), as provas não são cegas, o ambiente não é de sala de provas, mas de amizade e convívio e reflecte o meu gosto. Ainda assim, quando me surge um vinho que não me cai no goto, mas que tem manifesta qualidade, não o posso penalizar completamente.
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Acresce que não sou enólogo nem vitivinicultor, não tenho bases académicas para argumentar enologia nem dar conselhos comerciais e empresariais. Quem me lê sabe o quanto aprecio o trabalho de Domingos Soares Franco e sua equipa (e família).
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Já se percebeu que não gostei deste vinho. O não gostar é relativo! A escala decimal é aberta como a de Richter, sendo que o 3 é positivo, pois não vejo interesse em classificar o evitável (2) nem o imbebível (1).
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Ora, este vinho – atenção refiro-me a gosto – tem vários «defeitos»: antão vaz e alvarinho. O viosinho lembra-me o Douro dos meus amores, onde leio uma alma grande. O verdelho diz-me o nome do enólogo, que tão bom partido sabe tirar desta casta. A alvarinho é casta que raramente aprecio fora dos frios de Monção e Melgaço. No Sul, enjoa-me um bocadinho. Depois vem a casta Yeti – a abominável cultivar do Alentejo.
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Na «prova», os comensais gostaram muito. Eu não! Tenho reparado que a antão vaz só é bebível quando se lhe junta o arinto – excepção feita ao primeiro Solista, da Adega Mayor, com direcção de Paulo Laureano, que jurou que me porá a cantar laudes a esta «coisa».
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Tentando ser justo quanto a qualidade e gosto pessoal… 6! Os restantes 7.000.000.000 de terráqueos provavelmente deliciar-se-ão. Tem tudo para agradar.
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Origem: Regional Península de Setúbal
Nota: 6/10
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FSF Tinto 2011
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Adoptei não pontuar vinho de homenagem, a menos que surjam anualmente ou com grande regularidade. É o caso: Fernando Soares Franco, figura enorme dos vinhos portugueses.
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É um vinhaço! Em grande! Fez-se de syrah (79%), trincadeira (17,3%) e tannat (3,7%). Caiu-me muito bem. Mostra-se variado quanto a olfacto, desde a mineralidade quente das areias, ao figo seco, à menta e chocolate preto. Enche a boca, com calor e acidez que a equilibra, um final muito longo!
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Origem: Regional Península de Setúbal
Nota: 8,5/10
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Lancers Espumante Bruto, branco e sem indicação de ano, produzido é método contínuo.  É um vinho que calha muito bem no Verão e que na passagem de ano contrabalança os enfartamentos e os doces típicos da época.
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Tem uma acidez notória, bolhas brincalhonas a fazerem cócegas, aromas de frutas de Verão, não tropicais. É prá festa!
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Lancers Espumante Bruto
Origem: Portugal
Nota: 5/10
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Nota: Estes vinhos foram enviados para prova pelo produtor.