a garrafeira do infotocopiável. mim ninguém me vinifica!... e a opinião é assumidamente subjectiva.
sexta-feira, janeiro 23, 2015
sexta-feira, janeiro 16, 2015
Siza 2009 – muito mais do que um vinho
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A crónica é sobre vinho, garanto! Contudo, há mais coisas
para escrever. Quem não quiser ler além do estritamente vínico que salte para
onde o texto retoma a sua cor habitual.
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Tenho uma frustração: não segui belas artes. No tempo em que
estava no liceu – Escola Secundária Gil Vicente – a minha primeira opção para
prosseguir os estudos era pintura. O design atraía-me e a escultura nem por
isso. Sonhava também com casas, mas arquitectura estava fora de opção.
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Acabei por desistir por causa de três cadeiras absolutamente
inúteis para quem quer seguir pintura, design de comunicação ou escultura:
matemática, física e química. Nunca percebi por que haveria de ser flagelado se
quem ia para letras estava dispensado – aliás, a única via em que o terror estava
ausente.
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Anos depois compreendo a minha frustração. O sentido de
justiça e a falta de lógica toldavam-me a razão. Birra?... Penso que não.
Olhando para esses anos e relativizando, percebo que seria justo que todas as
hipóteses pedagógicas deveriam ter matemática. Isso, só por si iria fazer
prosseguir os estudos sem ser por fuga.
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Mudei-me para letras – sem sacrifício, pois a escrita e a
história sempre estiveram comigo como as artes plásticas. Não me sinto ou senti
frustrado, propriamente, apenas desgostoso. Nunca fui bom aluno a matemática,
desde a primeira classe. Até ao nono ano safei-me à tangente.
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No décimo e décimo primeiro a loiça era outra. Dizia-me uma
Professora (com «p» bastante grande) que não compreendia como era possível ter
as notas que obtinha, quando era o primeiro ou dos primeiros a entender a
matéria.
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Na verdade, esses patamares de matemática foram, em toda a
minha vida escolar, os que melhor entendi em números. Porém, a minha vocação
era tão grande, que o resultado era em linguagem binária: 0 e 1 – zero e um!
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Tive explicadores e ajudas familiares. Entendia, tudo bem.
Porém, chegada a véspera do teste todo o conhecimento se evaporava. Entendo
hoje, a reacção psicológica… ter matemática, física e química não tinham lógica
nem função. Já a geometria descritiva não me causava dores… fazia sentido para
o futuro que ambicionava.
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Acabei por mudar de área vocacional. Cheguei ao 12º ano com
19 anos. Um professor – professorzeco, com «p» minúsculo – de filosofia gostava
muito de ser gozão. Mas gozo humilhante. Na primeira aula decidiu tentar
enxovalhar-me, por causa da idade com que chegava ao último ano do secundário.
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No final, dirigi-me a esse senhor – baixinho de altura e
carácter – e enfrentei-o. Baixou os olhos e engasgou-se ligeiramente. Pelos vistos,
nenhum aluno o enfrentara nos olhos e o contestara. Expliquei-lhe por que tinha
19 anos e ia terminar o ano lectivo com 20.
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Rancoroso, ainda tentou ensaiar alguns achincalhamentos. A minha
resposta visual recuavam-no e seguia a tentativa de humilhação para outro aluno.
Sempre muito capaz nas coisas das letras e com leituras acertadas, espantei-me
quando saiu a nota da primeira avaliação: 2,5 valores.
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Percebi que não podia permanecer com o sujeitinho como
professor. Anulei a matrícula e candidatei-me a exame nacional: 16 valores. Nas
provas de admissão à faculdade, outros 16 valores. Confirmei o quanto era
pequenino esse sujeitinho, que era professorzinho.
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Com demasiado tempo livre, na altura o 12º apenas tinha três
cadeiras (hoje não sei) e eu tinha anulado uma, tornei-me jornalista em Janeiro
de 1990, no Diário Económico. Cresci imenso e fiz-me mais crescido, mimetizando
os mestres.
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Tardei em acabar o curso de história, e cedo percebi que não
o iria utilizar, e cá continuo às voltas com reportagens, sobretudo. Disciplina
maior do jornalismo, que tenho o privilégio de exercer regularmente.
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As artes não morreram. Ainda hoje desenho e pinto, com
frequência insuficiente. Quem olhar para o blogue preto perceberá que a arte
vive-me e que a uso não como ilustração, mas como complemento do texto, em
diálise – embora haja situações em que são ilustrações e noutras em que a
ilustração é o texto, em forma de legenda.
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Teimo em gostar de arquitectura e dou-me a liberdade de a
julgar. Não tenho habilitações académicas ou de tarimba, mas se todos podemos
discutir literatura, música ou cinema, por que não arquitectura?!
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Bem, a arquitectura não é uma ciência artística, embora
alguns arquitectos e paisanos pensem que sim. A arquitectura, como o design ou
a enologia, é saber técnico. A estética vem por acréscimo – certo disso é que
nunca aspirei a seguir arquitectura, licenciatura que, à época, era ministrada
nas faculdades de belas artes. Tanto quanto sei, hoje está enquadrada em
universidades técnicas.
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Sendo arte ou ciência técnica, a arquitectura pode ser
discutida pelos curiosos e ignorantes, como tudo. Viva a liberdade! Álvaro Siza
Vieira é um dos melhores arquitectos do mundo, vencedor do Prémio Pritzker, referente
a 1998, pelo Pavilhão de Portugal na Exposição Internacional de Lisboa. Aquela
pala é fantástica e espero que o engenheiro – deve ter passado semanas acordado
– que fez os cálculos estruturais tenha ganho também um troféu, não consegui
apurar.
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Nas minhas liberdades de discussão de arquitectura, afirmo
que detesto o trabalho de Álvaro Siza Vieira. Em parte é para chatear a minha
prima, Maria Carolina Palma, que exerce e tem nesse arquitecto do Porto um
marco de referência.
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Um dia disse-lhe desastradamente:
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– A arquitectura do Siza Vieira não é gira!
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Deu-me uma resposta em forma de tiro de canhão:
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– Giros têm de ser os brincos.
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Assunto arrumado.
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Na verdade, o que me chateia na obra de Siza Vieira é a
obsessão pelo branco. Não é a síntese do traço ou o conceito dos edifícios. É o
branco, que se torna melancólico. Para melancólico basto eu!
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É certo que são conhecidas bizarrias, (birras) e teimas.
Quem as não tem? Tratando-se de trabalho (técnico) criativo, Siza Vieira tem
todo o direito de defender a sua estética e de a exercer.
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Não vou enumerar o que gosto e não gosto nos edifícios de
Siza Vieira, digo somente que o Pavilhão de Portugal é uma construção que o mundo
merece ver, nem que seja em fotografia.
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Tenho tido a possibilidade de ver e tocar desenhos, em
liberdade, de Álvaro Siza Vieira, nomeadamente na Quinta do Vale Meão. À solta,
em rótulos ou por aí, os traços agradam-me muito.
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Enófilo, já se percebeu, tem concretizado adegas e rótulos. A
Adega Mayor, em Campo Maior, é um objecto para se ver. O rótulo que se mostra
no vinho que Rui Azinhais Nabeiro – homem dos maiores que Portugal deu à luz –
é duma simplicidade, ou síntese, arrasadora.
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Tratando-se dum vinho de homenagem, o Siza 2009, não o irei
classificar com uma nota redutora, ainda que assumidamente subjectiva e
excêntrica. Não tenho esse direito. É uma homenagem que um amigo fez ao outro.
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Bonito – como os brincos que a minha prima me atirou à
prosápia – o rótulo não é uma ilustração, mas parte integrante dum objecto que
se faz também de vinho. O vinho, pretexto para esta crónica, é obra dos
enólogos Paulo Laureano, o chefe, e Rita Carvalho, que tenho pena ter deixado
de exercer.
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O que é este Siza 2009? É um abraço alentejano, que a casta alicante
bouschet deu o corpo e o espírito. É um alentejano verdadeiro. É um vinho
escuro, que se reflecte na cor do rótulo e se aviva no branco que Siza Vieira
tanto aprecia.
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Não quero falar em descritores, que são coisas a que não dou
um valor determinante. Porém sublinho o cacau e a potência educada como se
revela na boca.
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Produziram-se apenas 2.500 garrafas. Ainda bem que são
poucas, pois acrescentam valor ao desejo de o beber. Álvaro Siza Vieira e Rui
Azinhais Nabeiro merecem um vinho destes.
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Origem: Regional Alentejano
Produtor: Adega Mayor
Nota: X/10
Pala da Lebre Branco 2013
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A crónica é sobre vinho,
garanto! Contudo, há mais coisas para escrever. Quem não quiser ler além do
estritamente vínico que salte para onde o texto retoma a sua cor habitual.
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Vinho sem emoção tem
interesse? Talvez tanto quanto quando é bebido por beber. Os momentos fazem os
vinhos. Nem sempre os vinhos fazem os momentos. Viver é muito mais do que
prazer e ter um só prazer sabe-me a poucachinho.
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As artes plásticas,
sobretudo a pintura, dão-me um prazer que não substitui o vinho, nem por ele é
substituível. A elas posso juntar a música, a heráldica cívica ou vida de dois
países que inventei quando era criança e que mantenho porque o devo.
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Um só copo pode ser
exagero e duas garrafas um défice. Como os beijos e as zangas. Tanto já se
disse escreveu acerca dos momentos e emoções e seus acompanhamentos báquicos. A
eles junto a estética visual.
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O vinho é várias coisas e
uma delas pode ser manifestação artística. Ao mesmo tempo, o seu embrulho pode
dar-lhe valor, diferenciação ou coisa nenhuma. Infelizmente, a sensibilidade
artística é escassa, falta «mundo» a muitos produtores. Há vinhos que se bocejam,
tal como rótulos.
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Nem todas as casas podem
aspirar a serem – em euros disponíveis para a arte – o Château Mouton
Rothschild. As garrafas desta vinícola do Médoc conheceram obras exclusivas de
Picasso, Henry Moore, Kandinsky… é assim desde 1924. Por cá temos o Esporão,
que aposta nos artistas portugueses.
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Volta e meia deparo-me com
preciosidades. Sim, os olhos comem e já comprei vinhos por causa dos rótulos.
Por que não?! Uns valiam a pena e outros não. O mesmo se passou com o título da
obra.
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Os vinhos Ninfa, do meu
homónimo, são a mais recente descoberta artística, com os seus sólidos
impossíveis. Aliás, penúltima, porque chegou-me uma garrafa de Pala da Lebre. A
29 de Junho de 2014 publiquei uma nota acerca da nova imagem deste produtor
duriense. Desde esse dia que está prometido um texto acerca do vinho enviado
para prova.
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É chegado o tempo. Agora,
porque sim. Agora, por que não?! Coisas da vida, nas suas larguras, alturas,
comprimentos e espessuras, que me abstenho de esmiuçar. É agora!
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Já se percebeu que me
maravilhei com o rótulo deste branco. Basta olhar para o blogue encarnado para
se perceber que não gosto de lá ter ilustrações. Não bem não gostar, é não
reconhecer interesse estético no que mostram.
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O trabalho foi concebido
pela Essência do Vinho, mas os créditos devem ser atribuídos a Maria Adão. O Pala da Lebre é
infantil, é a capa dum livro de estórias que uma avó lê ao neto. Mais do que
belo, é terno; e a ternura é confortável. Não sugiro que se esteja a incentivar
o consumo de álcool por parte das crianças. Realço o calor que me transmite.
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Embora seja difícil
acontecer, uma vinha pode ser tão entediante quanto uma máquina de engarrafamento.
Quando não o é? Quando quem olha aprecia a natureza, das ervinhas à bicheza.
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O rótulo do Pala da Lebre
tem as árvores, os montes e as vinhas; animais que se recolhem à capoeira e
outros que são vadios. Fechado numa cidade aberta, vi-me em descanso campestre,
enquanto o bebia e acompanhava com… não me lembro.
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O afecto e o prazer
contaminam, mas tentarei ser justo, ainda que assuma toda a subjectividade a
que tenho direito neste bloco público. À nota atribuída, 0,5 ponto é prazer
visual.
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O Douro encanta-me e o seu
vinho dá-lhe mais luzires. Daí obtenho os tintos mais prazenteiros –
generalizando – e brancos diferenciados. O Pala da Lebre Branco 2013 responde
ao que gosto de encontrar.
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A região tem as alegrias da
personalidade e da família. O Douro sabe a Douro. Este branco tem aquele leve
adocicado – que não é – petulante, que se conjuga com a terra e as ervas
bravias em secagem.
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Rui Walter da Cunha
é o responsável pela enologia. As castas são as gouveio, rabigato e malvasia
fina. O Douro sabe a Douro. Não é um vinho poderoso, mas tem volume e elegância
– esta última nem sempre se consegue por lá. Na garrafa cabem maçãs granny
smith sem euforia, a lembrança de rebuçado e restolho. Na boca mostrou-se
equilibrado e fresco. Faltam-lhe 100 metros, podia o final ser mais longo.
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Origem: Douro
Produtor: Patamar
Ancestral
Nota: 7,5/10
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Nota: Este vinho foi
enviado para prova pelo produtor.
quinta-feira, janeiro 01, 2015
domingo, dezembro 21, 2014
Domini Tinto 2012, Domini Plus Tinto 2011, Hexagon Branco 2013, FSF 2011 e Lancers Espumante Bruto
O tempo passa… vi num documentário que há um mecanismo no
nosso cérebro, deve ser algo como a espiral da corda dos relógios mecânicos,
que faz com que a percepção do tempo varie com a idade.
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Será por causa desse mecanismo que o período de aulas é
demorado para as crianças e vertiginoso para os adultos. Quando conheci o anãozinho
cá de casa tinha ele quase quatro anos e era um bocadinho trapalhão a andar…
andava esquisito. Hoje… corre como um Fórmula 1.
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Assim está a acontecer com este blogue. Os vinhos vão sendo
provados – bebidos, porque aqui há pouca ciência e mais prazer – e levam meses
até se plasmarem em letras. Está bem que a minha vida não é esta… sou
jornalista freelancer, não me posso dar ao luxo de faltar ou de meter baixa ou
ter férias. Cada trabalho é benvido (recuso-me a escrever bem-vindo), há a
família, outros óbis, dormir…
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Portanto, só posso pedir desculpa pelos atrasos a quem me
enviou vinho para prova, pois partiu do pressuposto que seriam publicados os
textos a eles relativos em tempo de novidade e procura direccionada.
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Uma das minhas vítimas preferidas é a firma José Maria da
Fonseca. Aqui vão as linhas da minha avaliação dos vinhos enviados. Começo com
os mais prováveis de chegar às mesas no Natal.
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Desta vez, ao contrário do que é hábito, coloco as
pontuações junto ao texto relativo a cada vinho.
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Domini Tinto 2012
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Bendita (estão a perceber por que é que deve ser benvindo e
não bem-vindo?) touriga francesa, nome da tradição e que o enólogo-mor desta
casa lhe voltou a chamar. Não é envergonhada, mas não é protagonista. Porém,
sem ela o Douro não pode ser Douro – ainda me vou tramar com esta afirmação.
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No lote deste vinho constam a touriga nacional (48%), a
tinta roriz (30%) e a touriga francesa (22%). Um coro bem afinado, onde a
touriga nacional é a maestrina, a tinta roriz os instrumentos de sopro e a
touriga francesa o conjunto de vozes.
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Cá vou aos malditos descritos, pois hoje apetece-me. Lá está
o doce de cereja – nada de compotas ou outro conduto de pão e bolachas – uma pitadinha
de violetas. Ao fundo o terroso da touriga francesa e umas agradáveis notas de
madeira. Na boca mostra-se elegante, de fino trato, com boa acidez e bom final.
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Origem: Douro
Nota: 6,5/10
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Domini Plus Tinto 2011
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Acho estranho não ter escrito antes acerca deste vinho.
Consta dos meus cadernos de anotações, que inclui o telemóvel, cuja diversidade
de recurso não me permite estabelecer uma linha temporal de prova. Devia escrever
a data, mas sempre fui mau com números.
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Este está acima do seu sucessor. A razão, que aqui é
assumidamente subjectiva, é a quantidade de sumo de touriga francesa: 68%. A
tinta roriz (22%) e a touriga nacional (10%) são as parceiras. Obviamente que o
trabalho enológico se repercute.
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As diferentes percentagens das composições dos dois vinhos
espelharão as virtudes de cada casta em cada um dos anos. Ainda assim, acredito
que a pontaria primeira à touriga nacional, no 2011, possa estar relacionada
com o apetite do consumidor.
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Este é muito mais Douro. Tem os aromas bravios da região e
as casas solarengas das quintas. Uma mão cheia de socalcos – não sei se a
propriedade os tem, é mero recurso. Na avaliação olfactiva estão o xisto e sua
terra, as estevas, aquela nota de madeira, talvez de azinho, que lhe oferece a
touriga francesa. Domingos Soares Franco, enólogo-mor, refere frutos pretos…
sim, não divirjo muito; às amoras, mirtilos e ameixas junto figo seco. Quanto a
violetas, ná! Continuo na minha, no Douro não topo muito esta flor, parece-me
sempre mais o doce, geleia e compotas de cereja e/ou outros frutos vermelhos.
Na boca é equilibrado, com boa acidez e um final longo.
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Origem: Douro
Nota: 8/10
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Hexagon Branco 2013
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A marca Hexagon nasceu para os tintos e o seis a que alude
referem-se ao número de castas. Neste branco há apenas quatro: viosinho (34%),
verdelho (30,5%), antão vaz (20%) e alvarinho (15,5%).
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Por partes: acho gira a combinação de castas tão diferentes
e de regiões diversas. Não penso que seja arriscado, é um vinho para amantes
assumidos, que premeiam a diferenciação, e para os apreciadores do estilo desta
firma de Azeitão.
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Como enófilo premeio as diferenças, ainda que, por vezes,
não me sacie completamente o prazer. Reafirmo, este não é um blogue de crítica
«séria» (é sério porque respeita o meu gosto), as provas não são cegas, o
ambiente não é de sala de provas, mas de amizade e convívio e reflecte o meu
gosto. Ainda assim, quando me surge um vinho que não me cai no goto, mas que
tem manifesta qualidade, não o posso penalizar completamente.
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Acresce que não sou enólogo nem vitivinicultor, não tenho
bases académicas para argumentar enologia nem dar conselhos comerciais e
empresariais. Quem me lê sabe o quanto aprecio o trabalho de Domingos Soares
Franco e sua equipa (e família).
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Já se percebeu que não gostei deste vinho. O não gostar é
relativo! A escala decimal é aberta como a de Richter, sendo que o 3 é
positivo, pois não vejo interesse em classificar o evitável (2) nem o imbebível
(1).
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Ora, este vinho – atenção refiro-me a gosto – tem vários
«defeitos»: antão vaz e alvarinho. O viosinho lembra-me o Douro dos meus
amores, onde leio uma alma grande. O verdelho diz-me o nome do enólogo, que tão
bom partido sabe tirar desta casta. A alvarinho é casta que raramente aprecio
fora dos frios de Monção e Melgaço. No Sul, enjoa-me um bocadinho. Depois vem a
casta Yeti – a abominável cultivar do Alentejo.
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Na «prova», os comensais gostaram muito. Eu não! Tenho
reparado que a antão vaz só é bebível quando se lhe junta o arinto – excepção feita
ao primeiro Solista, da Adega Mayor, com direcção de Paulo Laureano, que jurou
que me porá a cantar laudes a esta «coisa».
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Tentando ser justo quanto a qualidade e gosto pessoal… 6! Os
restantes 7.000.000.000 de terráqueos provavelmente deliciar-se-ão. Tem tudo
para agradar.
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Origem: Regional Península de Setúbal
Nota: 6/10
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FSF Tinto 2011
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Adoptei não pontuar vinho de homenagem, a menos que surjam
anualmente ou com grande regularidade. É o caso: Fernando Soares Franco, figura
enorme dos vinhos portugueses.
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É um vinhaço! Em grande! Fez-se de syrah (79%), trincadeira
(17,3%) e tannat (3,7%). Caiu-me muito bem. Mostra-se variado quanto a olfacto,
desde a mineralidade quente das areias, ao figo seco, à menta e chocolate
preto. Enche a boca, com calor e acidez que a equilibra, um final muito longo!
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Origem: Regional Península de Setúbal
Nota: 8,5/10
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Lancers Espumante Bruto, branco e sem indicação de ano,
produzido é método contínuo. É um vinho
que calha muito bem no Verão e que na passagem de ano contrabalança os enfartamentos
e os doces típicos da época.
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Tem uma acidez notória, bolhas brincalhonas a fazerem
cócegas, aromas de frutas de Verão, não tropicais. É prá festa!
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Lancers Espumante Bruto
Origem: Portugal
Nota: 5/10
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Nota: Estes vinhos foram enviados para prova pelo
produtor.
terça-feira, novembro 25, 2014
Os olhos comem e os meus também bebem
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Revelado ou escondido, um Sandeman será sempre noite. O Don tem
mistério suficiente. Podia ser um dos fantasmas de minha casa. Dá o abraço das
coisas antigas, como uma avó, se avó fosse coisa. Andou com os meus olhos ao
colo. Os olhos comem e os meus também bebem. O conforto do belo.
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Nota: Pintura de Loxton Knight.
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Nota: Pintura de Loxton Knight.
sexta-feira, setembro 19, 2014
Casa das Gaeiras Reserva Branco 2013 + Casa das Gaeiras Reserva Tinto 2012
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Há vinhos com história ou que puxam as palavras para a
conversa. São os que prefiro, seja a parlação só centrada no elixir ou vá solta
por onde se deixar. Os dois que agora comento puseram-me a falar com as palavras.
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Quem só quiser ler sobre o vinho... faça o favor de saltar
até onde o parágrafo começa com outra cor.
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Contaram-me que até à década de 70 do século XX o branco das
Gaeiras (Quintas das Gaeiras) era especial, um sucesso de contentamento.
Lamento, mas como nasci em 1970... lá em casa não havia
sopas-de-cavalo-cansado.
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Ainda assim conhecia-o de nome. Mais na memória tenho
o tinto. Não por que o tivesse bebido, mas porque consta dos versos do Fado das
Caldas. Não sei se se refere ao vinho daquela freguesia de Óbidos ou se é relativo ao da Quinta das Gaeiras.
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Aqui confesso – possivelmente pela enésima vez – que sei que
estou contentinho quando ao vinho me apetece juntar o fado e montar um
cavalo... marialvismos... Ora, o Fado das Caldas tem aquele picadinho que pede
mesmo... portanto, com a garganta molhada, vêm-me à alma as palavras e as
notas.
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Uma coisa gira é que há um fado gastronómico que se
diferencia desse apenas pelo poema, é o Fado das Iscas. Coincidentemente, quer um
quer outro são interpretados por dois dos meus fadistas preferidos: Hermínia
Silva e Dom Vicente da Câmara – ela tempera as iscas e ele conduz até às
Caldas.
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Quem acredita no destino tem aqui uma estória que o comprova
– salvo seja, que nada houve entre quem cito. O fidalgo fadista e a mulher
do povo de sangue e alma na voz. Afirmo: Hermínia Silva é a maior fadista
portuguesa desde a Severa – mulher da vida, de que não há registo sonoro, e que
na História de juntou ao marquês de Valença.
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Baseado no romance «A Severa», de Júlio Dantas, o primeiro filme sonoro português, de 1930, centra-se nesse amor impossível do fidalgo e da rameira. No filme «A Severa, de
José Leitão de Barros, as personagens são inspiradas nesse casal de circunstância. Há uma razão lógica, do ponto de vista do
argumento, em fazer coincidir o título do fidalgo ao adjectivo de nobre
boémio.
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No filme, a actriz Dina Teresa representa uma prostituta
cigana, que se envolve amorosamente com o conde de Marialva, representado
António Luís Lopes. O realizador contornou os factos, de modo a não juntar os
seus contemporâneos marquês de Marialva e conde de Vimioso. No entanto, o título
de Marialva foi inicialmente constituído como condado, em 1440, por Dom Afonso
V, para agraciar Vasco Fernandes Coutinho. O título foi extinto, em 1534, após
a morte de Guiomar Coutinho, quinta condessa de Marialva, que não deixou
descendência.
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Hoje, estes cuidados parecem tolos, mas há que
contextualizar. A sociedade portuguesa do início do século XX era muito
conservadora e fechada, existindo um largo e fundo fosso entre o povo e as
elites. Note-se que «A Severa» foi rodado apenas 20 anos após a implantação da
República – que não extinguiu os títulos nobiliárquicos, considerando-os como
património da nação.
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O primeiro marquês de Marialva foi Dom António Luís de
Meneses, que era já o terceiro conde de Cantanhede. A honraria foi-lhe
conferida, em 1661, pelo mérito militar na Guerra da Restauração (1640 a 1668),
pelo Rei Dom Afonso VI.
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Há homens que marcam uma vida-tempo de tal modo que todos os
outros que lhe sucedem ou antecederam deixam de existir; ninguém acredita que houve
mais do que o primeiro marquês de Pombal ou que marquês de Marialva foi só o
que deu nome ao conceito de homem dos prazeres mundanos, das mulheres, cavalos,
toiros e dado ao vinho.
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Ao que parece, o responsável terá sido Dom Pedro José de
Alcântara de Menezes Noronha Coutinho, quarto marquês de Marialva, sexto conde
de Cantanhede e estribeiro-mor do Rei Dom José, considerado como o melhor cavaleiro e mestre de equitação da sua época.
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Já a Severa – Maria Severa Onofriana – não era de etnia
cigana, embora o seu pai o fosse. Chamava-se, pelo primeiro nome, Severo e
assim o passou por alcunha à mulher, Ana Gertrudes, e à filha. A mãe da figura
histórica era natural de Ovar, talvez tivesse vindo para Lisboa para vender
peixe, pois as peixeiras de rua, de canastra à cabeça, eram originárias dessa
terra da Beira Litoral – o falar do povo mudou ovarinas para varinas.
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A Severa passou a vida (1820 a 1846) por quase toda a Lisboa
popular, da Madragoa onde nasceu até à Mouraria, onde morreu. A mãe era
taberneira e prostituta e seguiu-a na vida de cama – morreu jovem, vítima de
tuberculose, no bordel que a acolhia.
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Vivia no meio da pobreza, miséria, falta de higiene, doenças, sujidade, certamente violência física, psicológica e verbal, alcoolismo, boçalidade, entre tantas desgraçadas e homens de faca, estivadores, contrabandistas, embarcadiços e gatunos... e ratazanas, percevejos, piolhos e chatos.
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Os testemunhos dão conta que teria uma
beleza invulgar e exótica e grandes dotes como cantadeira... além de ter pêlos na cara em quantidade suficiente para ganhar a alcunha de «a Barbuda». Argumentos que terão
enfeitiçado Dom Francisco de Paula de Portugal e Castro, segundo marquês de
Valença e décimo conde de Vimioso.
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É fado!
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Isto tudo por causa do verso do tinto das Gaeiras... Já
agora, o que são gaeiras? Não fazia a mínima ideia. Podia ficar sete anos
a mandar bitaites que nunca chegaria lá. De acordo com o «Dicionário Onomástico
Etimológico» de José Pedro Machado, é um local onde há muitos gaios.
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Giro!... gaio é um pássaro, não é?! Perguntei-me a medo – é
que sou homem do campo... mas do Campo Grande, em Lisboa. Nasci ali, mas não
sou dali nem do Sporting Clube de Portugal; sou de Belém, por causa do Clube de
Futebol «Os Belenenses», e da Graça ou São Vicente ou Santa Engrácia ou São
João ou Penha de França por vivência, e por isso simpatizante do popular Clube
Oriental de Lisboa.
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Sim, tinha na ideia, pelas minhas idas ao campo, ao rural, que
gaio é ave. Mas também – segundo a Infopédia – «cabo que se fixa na cabeça
dos paus de carga dos navios»; gaivota juvenil; alegre; jovial – «Do latim
gaudiu – alegre». Já o Priberam informa que é sinónimo de jovial e alegre; «varinha
de pau flexível, terminada por laçadas feitas da própria vara»; «nome da
gaivota que não tem mais de um ano»; cavalo; e «braço de uma espécie de antena
que serve para amarrar à embarcação».
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De tudo isto retiro duas palavras: alegre e jovial.
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Pois que estamos diante dum local rico em gaios, ave de
penas azuis e que não gosta de campo aberto. Prefere as florestas e os bosques, é uma
espécie residente e vive em todo o país. Mede entre 33 centímetros e 36
centímetros, não pesa mais de 190 gramas e pode viver até aos 18 anos. Pertence
à família dos corvídeos e do assentamento de baptismo consta o nome Garrulus
glandarius. Se fosse gente seria artista de variedades, pois é um grande
imitador de sons.
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A Quinta das Gaeiras tem uns belos jardins e floresta à
volta. Fui lá conhecer os novos vinhos – produzidos em parceria com o Grupo
Parras, que detém, entre outras marcas, a Quinta do Gradil – e vim maravilhado.
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Foi dito à mesa que o branco agora apresentado tem a alma
desses antigos que tiveram fama. Acredito no elogio que um conviva teceu ao
enólogo (António Ventura) e equipa, pois é pessoa de saber e respeito.
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Os antigos Gaeiras brancos eram monovarietais de vital.
Queixou-se a equipa técnica do temperamento da casta, que cria dificuldades na vinha e
chatices na adega. Muita parra, muito cacho, muita uva, muita sensibilidade ao
calor, muita sensibilidade à chuva, excessivamente produtiva – basicamente uma
casta com um estado de humor dum agiota com um ataque de gota (esta pertence ao
jornalista João Gonçalo Pereira). Porém, capaz de dar do melhor. Ora: bom
somado com muito resulta em casta predilecta na sub-região de Óbidos.
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Os agrónomos intervieram podando folhas para criar clareiras
que permitissem uma maior insolação dos cachos e assassinando novelos de uvas, para que não fosse tão generosa, a videira. Tudo
correu bem com o vinho de 2013 e com o anterior, que não chegou ao mercado.
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É um grande vinho! Naturalmente fresco – prometi nunca falar
de pH – pelo grau e pelo temperamento, que ilude para mais frescura. Com uma
doçura natural nada óbvia nem enjoativa, que não cansa a boca. Untuoso,
envolvente, sedutor e elegante. Cresce no copo com os minutos. Consegue ter
feminilidade, pela complexidade de aromas entrelaçados sem domínios, indicando delicadeza. Mas também masculinidade, pelo modo de se comportar na boca.
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Bebi-o alegremente a solo, mas ganha muitíssimo mais se lhe
derem comida. É muito perigoso, tem 13 graus de álcool que voam como faixa de seda sobre
mármore.
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O tinto é divertidíssimo. É porque com ele se pode conversar
e conviver e também acompanhar com comida. Inicialmente austero de aromas,
revela-se com arejamento. Se me pedissem para dizer as castas do seu lote, não
acertava uma. Nem uma! Todavia, diante dos «olhos».
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Tudo o que se pode esperar da syrah (50%), da touriga
nacional (30%) e da touriga franca (20%) está à vista. A soma das três não dá
três. As características olfactivas esperadas estão lá, mas o todo pareceu-me
outra coisa. Ondulam, escondem-se e revelam-se, evoluem, regressam.
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Mostra-se firme na boca, mas sem brutalidade. Envolve, sacia
e pede que o reponham. Fundo ao ir-se, longo no ficar. Na prova oral tem
também as características de não revelar o mesmo em todas as vezes que se bebe.
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O tinto é um truque de ilusionismo. Contentíssimo.
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Além da inegável qualidade, são vinhos muito interessantes e
didácticos. Cansam-me os vinhos perfeitinhos, com tudo no sítio – como a Barbie
e o Ken. Estes são perfeitos (a perfeição só Deus sabe e conhece), mas mais do
que filhos da técnica.
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O maestro é António Ventura. Aplaudo de pé!
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Casa das Gaeiras Reserva Tinto 2012
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Origem: Óbidos
Produtor: Grupo Parras
Nota: 7/10
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Casa das Gaeiras Reserva Branco 2013
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Origem: Óbidos
Produtor: Grupo Parras
Nota: 8/10
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Nota1: Gaio, pelo pintor Nigel John Shaw.
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Nota 2: Vídeo do Fado das Caldas – versos de Arnaldo Forte e música de Raúl Ferrão. Interprete: Dom Vicente da Câmara. Os dados relativos à autoria são nebulosos, havendo referências como sendo de outros criadores. Esta informação foi retirada duma partitura que consta do acervo do Museu do Fado. Porém, a mesma instituição possui partituras em que surgem outros nomes. Contactei um etnomusicólogo, que esteve envolvido no trabalho de candidatura do fado a Património Cultural Imaterial da Humanidade, que me referiu que é comum, no início do século XX, haver discrepâncias quanto aos autores.
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Nota 3: Diaporama do Fado das Iscas – versos de José Cosme e música de Raúl Ferrão. Interprete: Hermínia Silva. A situação face à autoria mantém-se.
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Nota 4: Exerto do filme «A Severa», de Leitão de Barros, com Dina Teresa (Severa) e António Luís Lopes (conde de Marialva).
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Nota 5: Estátua do quarto marquês de Marialva, do escultor Celestino Alves André.
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Nota 6: Quadro «O Fado», pintado por José Malhoa.
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Nota 7: Diaporama sobre o gaio, realizado Dom Sobreiro e acessível em www.youtube.com, onde consta o contacto do autor.
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sábado, setembro 13, 2014
Lancers Espumante Bruto Rosé
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O prazer das coisas simples: sair da chuva e entrar em casa
e mergulhar na banheira com água tépida. Apanhar conquilhas para o arroz. Beber
uma Água das Pedras numa sede de alucinação. O abraço da criança que nos ama e
amamos. O abraço da mãe e o beijo do pai. Brincar com Legos, preguiçar, sair
para correr, fazer festas ao cão e ao gato. Piquenicar no Verão. No Inverno a lareira ou repousar quentinho
e embrulhado em mantas, com os olhos a fecharem-se, a ver uma comédia romântica
na televisão.
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O que é exactamente a felicidade e a alegria? É a diferença
entre ser e estar. E contente é a ponte entre as duas.
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Estava triste e alegrei-me. Porquê? Pela boa disposição dum
vinho – descomplicado, leve e jovem. Um vinho que entrou circulou por mim, como
remédio homeopático.
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Em espumante elaborado em método contínuo (charmat)... importa? Talvez
importe... não quero saber disso.
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Sim, a borbulhagem viva e em movimento perpétuo. A
delicadeza da fruta e das flores. Quais? Não quero saber, nem procurei e muito
menos pensei em dizer. Senti pelos olhos, estômago, cérebro, coração e alma – o arrepio quente dum fantasma amigo.
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Definir um vinho pelos parâmetros de avaliação é tantas
vezes aborrecido como dizer que o João está gordo, tem o cabelo preto a
esbranquiçar-se, também na barba, e a encarecar-se, olhos castanhos, que variam entre o escuro, o
mel e até verde-azeitona.
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Castelão e syrah, 12,7 graus de álcool. Explicar o quê?
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Origem: Portugal
Produtor: José Maria da Fonseca
Nota: 8/10
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Nota 1: Este vinho foi enviado para prova pelo produtor.
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Origem: Portugal
Produtor: José Maria da Fonseca
Nota: 8/10
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Nota 1: Este vinho foi enviado para prova pelo produtor.
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Nota 2: Tenho crónicas vínicas atrasadas, mas não
consegui resistir a este. Costumo juntar numa mesma crónica lançamentos ou
vinhos irmãos. Este... Parabéns Domingos Soares Franco e à tua equipa. Ganhei o
dia.
sábado, agosto 30, 2014
Adega de Borba Premium Branco 2013
Porem-me a gostar dum vinho com antão vaz é feito. Este
compadri tein-ín e nã me fez muito mali.
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A Adega de Borba tem vindo a mostrar uma grande consistência
nos seus vinhos. Ser-se regular não é bom nem é mau, pois pode ser as duas
coisas. Pois a Adega de Borba tem vindo a mostrar uma bela regularidade e com
tendência crescente.
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Já se sabe que vai levar uma aparadela por causa do antão
vaz – lamento, a casta complica-me com o olfacto e o paladar. Convém dizer que
está amparada pelas outras que compõem o lote: arinto, verdelho e alvarinho.
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A ficha técnica não especifica a percentagem de cada uma das
castas, mas a frescura deve muito à arinto. O verdelho tempera muito bem, a
alvarinho dá gulodice...
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É um vinho frutado, mas não é a cesta da fruta. Maçã granny
smith, notas de banana, abacaxi, pêssego (julgo que vem da alvarinho) podia ser
mais moderado. Não escrevi nos meus apontamentos, mas quando agora escrevo
vem-me à cabeça uma passagem de melão... pôs que nã sê.
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Resultado harmonioso, prazenteiro na boca. Vinho para todo o
ano.
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Conforme os princípios assumidos, em que a apreciação é
assumidamente subjectiva e obedecendo apenas ao meu gosto pessoal, mas não pretende
penalizar, só porque não gosto, vinhos que outros poderão considerar acima... a
minha nota final estará meio ponto a um ponto abaixo do que merecia o vinho se
fosse menos narcisista e cioso das minhas preferências. Não é preciso ser-se
bruxo... antão vaz.
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Origem: Alentejo
Produtor: Adega de Borba
Nota: 6,5/10
Trinca Bolotas 2013 + Vinha do Monte Rosé 2013
Epá! Que delícia! Encantei-me. Um temperamento tão easy going...
não gosto e não costumo estrangeirar, mas aqui tem de ser, porque é um vinho
capaz de agradar em todo o mundo.
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Ser fácil (é!) e haver muito (julgo que sim!) não são
sinónimos de não prestar – quem duvida que vá ver os números de Champanhe e das
grandes casas. Aquelas duas características que apontei têm uma – de várias
razões – competência enológica. Ponto!
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Apesar do que disse, a verdade é que «fácil» normalmente
significa desinteressante. Fazer-se muito é habito ser medíocre. É um vinho
muito fácil e bom prazer me deu.
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Não é um grande vinho e nem será essa a ideia. É um vinho
tinto muito agradável, equilibrado, que vai bem, no Verão, num jantar menos
leve e que acompanha comidas te tempos mais frescos.
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Este vinho nasceu na Herdade do Peso, em Pedrógão, concelho da
Vidigueira. As castas do seu lote são: alicante bouschet (44%), touriga
nacional (40%) e aragonês (16%).
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É um tinto jovem, muito frutado, mas sem que nem morangos,
amoras, framboesas, mirtilos e ameixa tenha esmagado a outra. Como é fresco,
não é compota para barrar no pão.
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Duas coisas que não têm nada a ver: o nome é «MUINTA GIRO» e o
rótulo muito simpático. Penso que a Sogrape, da produção ao marketing, passando
pela agência que concebeu a face estão de parabéns.
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No dia em que foi apresentado, serviram um Vinha do Monte Rosé
2013 que é 120% Verão. Também ele fácil... embora em patamar mais abaixo do
Trinca Bolotas.
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Trinca Bolotas 2013
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Origem: Alentejo
Produtor: Sogrape
Nota: 7/10
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Vinha do Monte Rosé 2013
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Origem: Regional Alentejano
Produtor: Sogrape
Nota: 5/10
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Nota: Não sei qual é a fixação dos produtores em escrever aragonês com
grafia do século XIX (aragonez), que foi o tempo de maior confusão da língua
portuguesa, pelo menos na matriz europeia.
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