sábado, julho 14, 2012

Ben Rosh 2004

Comentar um vinho que é uma homenagem não é fácil para quem está de boa-fé ou não se acha uma luz no mundo. Um vinho não é bom nem mau se for, ou deixar de ser, uma evocação. Escrever sobre um vinho ou livro ou disco ou obra criativa merece, à partida e acima de tudo, respeito. Sendo uma homenagem maior tem de ser a vénia e o cuidado.
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Aprendi, ao longo de 22 anos de jornalismo, a estar acima de tais «sentimentalismos». Mas não só um blogue é uma «folha impressa», com suas prerrogativas de vantagem e atenuantes, como humanamente não posso brutalizar inconscientemente. Entre uma e outra coisa cabe muita coisa. Com isto não digo mal ou bem, nem o quero fazer, apenas ressalvo.
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Este vinho merece-me uma pausa solene, porque lembra uma vida. Não é por não ser judeu que a história deste vinho me faz mais leve. Alguém que parte em demanda da «sua questão» e torna sua a causa dum povo merece um respeito de arrepiar.
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Admiro a bravura do capitão Barros Bastos, que adoptou o nome hebraico Ben Rosh… fez-se circuncidar, aprendeu hebraico, lutou pela causa judaica num país  áspero (católico apostólico romano que tantas malfeitorias fez em nome do Deus ao longo de séculos) e penou pelas suas acções.
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Sou incompetente e ignorante para escrever sobre o capitão Barros Bastos, oficial condecorado na Grande Guerra e «apagado» dos registos heróicos pela sua fé e actos. Humanamente faço-lhe uma vénia. Quantos são os que fariam o que fez? Remeto para a Wikipédia.
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Por ser uma homenagem, por sentir o volume da obra deste homem (não tendo a minha fé ou sendo família), recuso-me a dar a nota numérica, como habitualmente faço. Não que não tenha gostado do vinho. Gostei e bastante, e independentemente do que a ele está associado.
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Num país com uma longa tradição judaica, é impressionante a tão fraca, quase ausente, oferta de vinhos judaicos. Provei dois, há uns anos, e a qualidade era criticável. Portugal e a sua longa ligação hebraica merecem mais vinhos kosher ou kasher, para os iberistas. Este faz justiça.
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Só conheço o 2004, não sei se houve anteriores ou posteriores. Notei-o em boa forma, com frescura e promessa de longevidade. Elegante e escorreito, suavizou-se.
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Perante Ben Rosh, recolho a minha opinião e faço um brinde.
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Origem: Regional Estremadura
Produtor: Sociedade Agrícola Félix Rocha
Nota: X/10
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Nota: Disse-me um amigo que dei grandes voltas no texto. Respondo: já gostava do vinho antes de o ter bebido e depois gostei muito dele. Talvez tenha dado demasiadas explicações, mas a vida deste homem tocou-me.

1 comentário:

Nuno Guerreiro Josué disse...

Bom vinho. Excelente prosa!