a garrafeira do infotocopiável. mim ninguém me vinifica!... e a opinião é assumidamente subjectiva.
terça-feira, junho 02, 2015
segunda-feira, maio 25, 2015
Quarta edição do Festival do Vinho do Douro Superior
O meu queixume faz sorrir quem vive num país grande. Lisboa
dista de Foz Côa 390 quilómetros e diz o Google que se percorrem em pouco mais
de três e meia… suspiro quando penso no que não importa.
.
Fui na sexta-feira e regressei ontem do Festival do Vinho do
Douro Superior, organizado pela Revista de Vinhos para o município de Foz Côa.
.
Participei como jurado do concurso do festival, que, mais
uma vez, se distinguiu por uma grande qualidade dos vinhos em prova.
.
O melhor vinho branco foi Bons Ares 2003, da Ramos Pinto. O Duorum
Vinhas Velhas Reservas 2012, da Duorum Vinhos, ganhou nos tintos. Nos
generosos, o vencedor foi o Vinho do Porto Quinta da Ervamoira Vintage 2005, da
Ramos Pinto.
.
Mais informações sobre o concurso podem ser obtidas no sítio
da Revista de Vinhos.
quinta-feira, maio 21, 2015
Bebei Babel
.
Não sei as vezes que escrevi palavras alinhadas, mais ou
menos, como estas. Sei que as envio repetidas para algumas pessoas. Lamento,
mas…
.
Quando a vergonha se acanha e, de tão atiçada, se faz forte,
põe as garras de fora e luta, porque a sobrevivência é mais fácil do que a
pobreza.
A notícia correu à velocidade das pernas e do boca-em-boca,
na época não existiam nem telefone, muito menos telemóveis nem se sonhava com
os falecidos peigeres, nem telégrafo, nem telexes, nem imailes, nem ésse-éme-ésses,
nem éme-éme-ésses, nem internete, nem rádio-telefonia, nem televisão, nem
ualquitolquies… havia palavra escrita, mas não jornais. Podiam fazer-se sinais
de fumo, mas naquelas terras não se usavam.
.
Soube-se pela velocidade dos passos e destreza da boca: caiu
a Torre de Babel.
.
Agora que há todos os meios que citei é rápido informar que
a minha obra-prima nem se conseguiu erguer.
.
Ora tentem fazer uma torre de vinho.
.
.
.
Nota: Pintura de Albert Anker.
quarta-feira, maio 20, 2015
Fazer vinho é canja mas galináceos não fazem parte dos lotes
.
Chrétien de Toyes escreveu e fez-se o Graal.
.
José de Arimateia levou-o e o tempo perdeu-o. Achá-lo só os
puros e de merecimento. Sir Galahad, Sir Bors e Sir Percival conseguiram.
.
O Graal desapareceu. Se está escrito, existe. A letra
impressa não mente.
.
Muito mais antiga é a demanda da Pedra Filosofal. Tão antiga
que, pelos artifícios da alquimia, se descobriram verdades de ciência.
.
Antiga e já conseguida. Cientistas conseguiram fabricar
ouro. Ouro que vale mais do que ouro, só um trilionário sem juízo compra esse
metal. A natureza vende mais barato...
.
Se bem que o conseguimento não é bem um concretizamento. A Pedra
Filosofal tem de transformar em ouro qualquer metal plebeu; os sábios apenas
conseguiram fazê-lo e não que consiga metamorfosear qualquer calhau.
.
Ah! O mais prosaico… o Elixir da Eterna Juventude. A morte
chega a todos e assusta muita gente. Também os poderosos do mando falecem e
temem o dia em que a gadanha os faça fechar os olhos.
.
Com o ouro pagaram a homens de ciência e virtude. Como nos
contos das «Mil e Uma Noites», a habilidade estava em conseguir manter o
patrono entretido, acreditando que os progressos se faziam.
.
Aldrabão e famoso, o alquimista era chamado à Corte. O ouro tão
perto, puro veneno. A cobiça e o pesadelo. A maior competência não era fabricar
vida, mas não criar a morte. Ter as perícias para progressos e um sofrimento esperançoso
por não ter tido ainda sucesso.
.
A vida eterna é no Além. Ou… a espada, cutelo, machado,
garrote, forca ou. O fabuloso mercúrio. O mortal mercúrio.
.
Todos os mestres foram um dia aprendizes, mais tarde ainda esperaram como oficiais. Entre os mestres, uns melhores do que outros – nunca esquecendo que
dois mais dois podem não ser cinco.
.
Johann Wolfgang von Goethe poemou «O Aprendiz de Feiticeiro»,
que não poderei ser. Acreditei nos livros das ciências sem mestre e montei um
laboratório com os ingredientes e ferramentas, sabendo colher dos mestres o
conhecimento aproveitável, vinho monovarietal engarrafado.
.
Em segredo comprei as essências e pela noite até de manhã
nada mais fiz do que procurar o Graal, a Pedra Filosofal e o Elixir da Eterna
Juventude.
.
Vinho!
.
Não sei que horas eram quando finalizei a poção. O melhor
vinho do mundo!
.
Engarrafei-o em frascos de perfume de sete decilitros e
meio, devidamente rolhados. Sobre o todo, lacre, como antigamente.
.
Exausto adormeci, sonhando com Xerazade, Isolda, Julieta,
Dulcineia, Dinamene, Bela Adormecida e Maria Carolina de Bourbon Duas Sicílias.
.
Ainda fatigado, revelei o vinho – Elixir da Eterna
Juventude, Pedra Filosofal e Graal.
.
Não tentem fazer isto em casa. Dos vários escolhidos, enófilos
de escol ou só de folia, recebi um quase unânime:
.
– Não é bom. Acho que nem é propriamente mau, é muito
esquisito.
.
Houve um que sentenciou:
.
– É uma grande…
.
Se tivesse sido um êxito, não revelaria a fórmula. Para
memória de chacotas futuras, deixo a composição:
.
Encruzado (15,3%), arinto (15,3%), chardonnay (15,3%), touriga
franca (15,3%), alicante bouschet (15,3%), loureiro (7,7%) touriga nacional
(7,2%), alvarinho (5,7%) e syrah (2,9%).
.
Era suposto ser palheto, mas só consegui tinta de escrever,
mas em encarnado.
.
Com as sobras aproveitáveis criei uma pujança, uma
espécie de tiro da Big Bertha, por isso dei-lhe a alcunha de Thor. Alvarinho
(40%), syrah (33,4%) e touriga nacional (26,6%). Um pouco mais bronzeado do que
o anterior, e mais bebível.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
Nota 1: Por incapacidade da caixa de etiquetas, deixo aqui a relação dos artistas cujas obras tiveram a infelicidade de ilustrar o meu vinho... Lawrence Alma-Tadema, Paul Delvaux, André Derain, Ticiano, Constant Troyon e Mårten Eskil Winge.
.
Nota 2: A imagem principal designa-se por «O Alquimista» e é de autoria desconhecida, mas enquadrável no género alemão, estando datada de 1880.
sexta-feira, janeiro 23, 2015
sexta-feira, janeiro 16, 2015
Siza 2009 – muito mais do que um vinho
.
A crónica é sobre vinho, garanto! Contudo, há mais coisas
para escrever. Quem não quiser ler além do estritamente vínico que salte para
onde o texto retoma a sua cor habitual.
.
.
.
Tenho uma frustração: não segui belas artes. No tempo em que
estava no liceu – Escola Secundária Gil Vicente – a minha primeira opção para
prosseguir os estudos era pintura. O design atraía-me e a escultura nem por
isso. Sonhava também com casas, mas arquitectura estava fora de opção.
.
Acabei por desistir por causa de três cadeiras absolutamente
inúteis para quem quer seguir pintura, design de comunicação ou escultura:
matemática, física e química. Nunca percebi por que haveria de ser flagelado se
quem ia para letras estava dispensado – aliás, a única via em que o terror estava
ausente.
.
Anos depois compreendo a minha frustração. O sentido de
justiça e a falta de lógica toldavam-me a razão. Birra?... Penso que não.
Olhando para esses anos e relativizando, percebo que seria justo que todas as
hipóteses pedagógicas deveriam ter matemática. Isso, só por si iria fazer
prosseguir os estudos sem ser por fuga.
.
Mudei-me para letras – sem sacrifício, pois a escrita e a
história sempre estiveram comigo como as artes plásticas. Não me sinto ou senti
frustrado, propriamente, apenas desgostoso. Nunca fui bom aluno a matemática,
desde a primeira classe. Até ao nono ano safei-me à tangente.
.
No décimo e décimo primeiro a loiça era outra. Dizia-me uma
Professora (com «p» bastante grande) que não compreendia como era possível ter
as notas que obtinha, quando era o primeiro ou dos primeiros a entender a
matéria.
.
Na verdade, esses patamares de matemática foram, em toda a
minha vida escolar, os que melhor entendi em números. Porém, a minha vocação
era tão grande, que o resultado era em linguagem binária: 0 e 1 – zero e um!
.
Tive explicadores e ajudas familiares. Entendia, tudo bem.
Porém, chegada a véspera do teste todo o conhecimento se evaporava. Entendo
hoje, a reacção psicológica… ter matemática, física e química não tinham lógica
nem função. Já a geometria descritiva não me causava dores… fazia sentido para
o futuro que ambicionava.
.
Acabei por mudar de área vocacional. Cheguei ao 12º ano com
19 anos. Um professor – professorzeco, com «p» minúsculo – de filosofia gostava
muito de ser gozão. Mas gozo humilhante. Na primeira aula decidiu tentar
enxovalhar-me, por causa da idade com que chegava ao último ano do secundário.
.
No final, dirigi-me a esse senhor – baixinho de altura e
carácter – e enfrentei-o. Baixou os olhos e engasgou-se ligeiramente. Pelos vistos,
nenhum aluno o enfrentara nos olhos e o contestara. Expliquei-lhe por que tinha
19 anos e ia terminar o ano lectivo com 20.
.
Rancoroso, ainda tentou ensaiar alguns achincalhamentos. A minha
resposta visual recuavam-no e seguia a tentativa de humilhação para outro aluno.
Sempre muito capaz nas coisas das letras e com leituras acertadas, espantei-me
quando saiu a nota da primeira avaliação: 2,5 valores.
.
Percebi que não podia permanecer com o sujeitinho como
professor. Anulei a matrícula e candidatei-me a exame nacional: 16 valores. Nas
provas de admissão à faculdade, outros 16 valores. Confirmei o quanto era
pequenino esse sujeitinho, que era professorzinho.
.
Com demasiado tempo livre, na altura o 12º apenas tinha três
cadeiras (hoje não sei) e eu tinha anulado uma, tornei-me jornalista em Janeiro
de 1990, no Diário Económico. Cresci imenso e fiz-me mais crescido, mimetizando
os mestres.
.
Tardei em acabar o curso de história, e cedo percebi que não
o iria utilizar, e cá continuo às voltas com reportagens, sobretudo. Disciplina
maior do jornalismo, que tenho o privilégio de exercer regularmente.
.
As artes não morreram. Ainda hoje desenho e pinto, com
frequência insuficiente. Quem olhar para o blogue preto perceberá que a arte
vive-me e que a uso não como ilustração, mas como complemento do texto, em
diálise – embora haja situações em que são ilustrações e noutras em que a
ilustração é o texto, em forma de legenda.
.
Teimo em gostar de arquitectura e dou-me a liberdade de a
julgar. Não tenho habilitações académicas ou de tarimba, mas se todos podemos
discutir literatura, música ou cinema, por que não arquitectura?!
.
Bem, a arquitectura não é uma ciência artística, embora
alguns arquitectos e paisanos pensem que sim. A arquitectura, como o design ou
a enologia, é saber técnico. A estética vem por acréscimo – certo disso é que
nunca aspirei a seguir arquitectura, licenciatura que, à época, era ministrada
nas faculdades de belas artes. Tanto quanto sei, hoje está enquadrada em
universidades técnicas.
.
Sendo arte ou ciência técnica, a arquitectura pode ser
discutida pelos curiosos e ignorantes, como tudo. Viva a liberdade! Álvaro Siza
Vieira é um dos melhores arquitectos do mundo, vencedor do Prémio Pritzker, referente
a 1998, pelo Pavilhão de Portugal na Exposição Internacional de Lisboa. Aquela
pala é fantástica e espero que o engenheiro – deve ter passado semanas acordado
– que fez os cálculos estruturais tenha ganho também um troféu, não consegui
apurar.
.
Nas minhas liberdades de discussão de arquitectura, afirmo
que detesto o trabalho de Álvaro Siza Vieira. Em parte é para chatear a minha
prima, Maria Carolina Palma, que exerce e tem nesse arquitecto do Porto um
marco de referência.
.
Um dia disse-lhe desastradamente:
.
– A arquitectura do Siza Vieira não é gira!
.
Deu-me uma resposta em forma de tiro de canhão:
.
– Giros têm de ser os brincos.
.
Assunto arrumado.
.
Na verdade, o que me chateia na obra de Siza Vieira é a
obsessão pelo branco. Não é a síntese do traço ou o conceito dos edifícios. É o
branco, que se torna melancólico. Para melancólico basto eu!
.
É certo que são conhecidas bizarrias, (birras) e teimas.
Quem as não tem? Tratando-se de trabalho (técnico) criativo, Siza Vieira tem
todo o direito de defender a sua estética e de a exercer.
.
Não vou enumerar o que gosto e não gosto nos edifícios de
Siza Vieira, digo somente que o Pavilhão de Portugal é uma construção que o mundo
merece ver, nem que seja em fotografia.
.
Tenho tido a possibilidade de ver e tocar desenhos, em
liberdade, de Álvaro Siza Vieira, nomeadamente na Quinta do Vale Meão. À solta,
em rótulos ou por aí, os traços agradam-me muito.
.
Enófilo, já se percebeu, tem concretizado adegas e rótulos. A
Adega Mayor, em Campo Maior, é um objecto para se ver. O rótulo que se mostra
no vinho que Rui Azinhais Nabeiro – homem dos maiores que Portugal deu à luz –
é duma simplicidade, ou síntese, arrasadora.
.
.
Tratando-se dum vinho de homenagem, o Siza 2009, não o irei
classificar com uma nota redutora, ainda que assumidamente subjectiva e
excêntrica. Não tenho esse direito. É uma homenagem que um amigo fez ao outro.
.
Bonito – como os brincos que a minha prima me atirou à
prosápia – o rótulo não é uma ilustração, mas parte integrante dum objecto que
se faz também de vinho. O vinho, pretexto para esta crónica, é obra dos
enólogos Paulo Laureano, o chefe, e Rita Carvalho, que tenho pena ter deixado
de exercer.
.
O que é este Siza 2009? É um abraço alentejano, que a casta alicante
bouschet deu o corpo e o espírito. É um alentejano verdadeiro. É um vinho
escuro, que se reflecte na cor do rótulo e se aviva no branco que Siza Vieira
tanto aprecia.
.
Não quero falar em descritores, que são coisas a que não dou
um valor determinante. Porém sublinho o cacau e a potência educada como se
revela na boca.
.
Produziram-se apenas 2.500 garrafas. Ainda bem que são
poucas, pois acrescentam valor ao desejo de o beber. Álvaro Siza Vieira e Rui
Azinhais Nabeiro merecem um vinho destes.
.
.
.
Origem: Regional Alentejano
Produtor: Adega Mayor
Nota: X/10
Pala da Lebre Branco 2013
.
A crónica é sobre vinho,
garanto! Contudo, há mais coisas para escrever. Quem não quiser ler além do
estritamente vínico que salte para onde o texto retoma a sua cor habitual.
.
.
.
Vinho sem emoção tem
interesse? Talvez tanto quanto quando é bebido por beber. Os momentos fazem os
vinhos. Nem sempre os vinhos fazem os momentos. Viver é muito mais do que
prazer e ter um só prazer sabe-me a poucachinho.
.
As artes plásticas,
sobretudo a pintura, dão-me um prazer que não substitui o vinho, nem por ele é
substituível. A elas posso juntar a música, a heráldica cívica ou vida de dois
países que inventei quando era criança e que mantenho porque o devo.
.
Um só copo pode ser
exagero e duas garrafas um défice. Como os beijos e as zangas. Tanto já se
disse escreveu acerca dos momentos e emoções e seus acompanhamentos báquicos. A
eles junto a estética visual.
.
O vinho é várias coisas e
uma delas pode ser manifestação artística. Ao mesmo tempo, o seu embrulho pode
dar-lhe valor, diferenciação ou coisa nenhuma. Infelizmente, a sensibilidade
artística é escassa, falta «mundo» a muitos produtores. Há vinhos que se bocejam,
tal como rótulos.
.
Nem todas as casas podem
aspirar a serem – em euros disponíveis para a arte – o Château Mouton
Rothschild. As garrafas desta vinícola do Médoc conheceram obras exclusivas de
Picasso, Henry Moore, Kandinsky… é assim desde 1924. Por cá temos o Esporão,
que aposta nos artistas portugueses.
.
Volta e meia deparo-me com
preciosidades. Sim, os olhos comem e já comprei vinhos por causa dos rótulos.
Por que não?! Uns valiam a pena e outros não. O mesmo se passou com o título da
obra.
.
Os vinhos Ninfa, do meu
homónimo, são a mais recente descoberta artística, com os seus sólidos
impossíveis. Aliás, penúltima, porque chegou-me uma garrafa de Pala da Lebre. A
29 de Junho de 2014 publiquei uma nota acerca da nova imagem deste produtor
duriense. Desde esse dia que está prometido um texto acerca do vinho enviado
para prova.
.
É chegado o tempo. Agora,
porque sim. Agora, por que não?! Coisas da vida, nas suas larguras, alturas,
comprimentos e espessuras, que me abstenho de esmiuçar. É agora!
.
Já se percebeu que me
maravilhei com o rótulo deste branco. Basta olhar para o blogue encarnado para
se perceber que não gosto de lá ter ilustrações. Não bem não gostar, é não
reconhecer interesse estético no que mostram.
.
O trabalho foi concebido
pela Essência do Vinho, mas os créditos devem ser atribuídos a Maria Adão. O Pala da Lebre é
infantil, é a capa dum livro de estórias que uma avó lê ao neto. Mais do que
belo, é terno; e a ternura é confortável. Não sugiro que se esteja a incentivar
o consumo de álcool por parte das crianças. Realço o calor que me transmite.
.
Embora seja difícil
acontecer, uma vinha pode ser tão entediante quanto uma máquina de engarrafamento.
Quando não o é? Quando quem olha aprecia a natureza, das ervinhas à bicheza.
.
O rótulo do Pala da Lebre
tem as árvores, os montes e as vinhas; animais que se recolhem à capoeira e
outros que são vadios. Fechado numa cidade aberta, vi-me em descanso campestre,
enquanto o bebia e acompanhava com… não me lembro.
.
O afecto e o prazer
contaminam, mas tentarei ser justo, ainda que assuma toda a subjectividade a
que tenho direito neste bloco público. À nota atribuída, 0,5 ponto é prazer
visual.
.
O Douro encanta-me e o seu
vinho dá-lhe mais luzires. Daí obtenho os tintos mais prazenteiros –
generalizando – e brancos diferenciados. O Pala da Lebre Branco 2013 responde
ao que gosto de encontrar.
.
A região tem as alegrias da
personalidade e da família. O Douro sabe a Douro. Este branco tem aquele leve
adocicado – que não é – petulante, que se conjuga com a terra e as ervas
bravias em secagem.
.
Rui Walter da Cunha
é o responsável pela enologia. As castas são as gouveio, rabigato e malvasia
fina. O Douro sabe a Douro. Não é um vinho poderoso, mas tem volume e elegância
– esta última nem sempre se consegue por lá. Na garrafa cabem maçãs granny
smith sem euforia, a lembrança de rebuçado e restolho. Na boca mostrou-se
equilibrado e fresco. Faltam-lhe 100 metros, podia o final ser mais longo.
.
.
.
Origem: Douro
Produtor: Patamar
Ancestral
Nota: 7,5/10
.
.
.
Nota: Este vinho foi
enviado para prova pelo produtor.
quinta-feira, janeiro 01, 2015
domingo, dezembro 21, 2014
Domini Tinto 2012, Domini Plus Tinto 2011, Hexagon Branco 2013, FSF 2011 e Lancers Espumante Bruto
O tempo passa… vi num documentário que há um mecanismo no
nosso cérebro, deve ser algo como a espiral da corda dos relógios mecânicos,
que faz com que a percepção do tempo varie com a idade.
.
Será por causa desse mecanismo que o período de aulas é
demorado para as crianças e vertiginoso para os adultos. Quando conheci o anãozinho
cá de casa tinha ele quase quatro anos e era um bocadinho trapalhão a andar…
andava esquisito. Hoje… corre como um Fórmula 1.
.
Assim está a acontecer com este blogue. Os vinhos vão sendo
provados – bebidos, porque aqui há pouca ciência e mais prazer – e levam meses
até se plasmarem em letras. Está bem que a minha vida não é esta… sou
jornalista freelancer, não me posso dar ao luxo de faltar ou de meter baixa ou
ter férias. Cada trabalho é benvido (recuso-me a escrever bem-vindo), há a
família, outros óbis, dormir…
.
Portanto, só posso pedir desculpa pelos atrasos a quem me
enviou vinho para prova, pois partiu do pressuposto que seriam publicados os
textos a eles relativos em tempo de novidade e procura direccionada.
.
Uma das minhas vítimas preferidas é a firma José Maria da
Fonseca. Aqui vão as linhas da minha avaliação dos vinhos enviados. Começo com
os mais prováveis de chegar às mesas no Natal.
.
Desta vez, ao contrário do que é hábito, coloco as
pontuações junto ao texto relativo a cada vinho.
.
.
Domini Tinto 2012
.
Bendita (estão a perceber por que é que deve ser benvindo e
não bem-vindo?) touriga francesa, nome da tradição e que o enólogo-mor desta
casa lhe voltou a chamar. Não é envergonhada, mas não é protagonista. Porém,
sem ela o Douro não pode ser Douro – ainda me vou tramar com esta afirmação.
.
No lote deste vinho constam a touriga nacional (48%), a
tinta roriz (30%) e a touriga francesa (22%). Um coro bem afinado, onde a
touriga nacional é a maestrina, a tinta roriz os instrumentos de sopro e a
touriga francesa o conjunto de vozes.
.
Cá vou aos malditos descritos, pois hoje apetece-me. Lá está
o doce de cereja – nada de compotas ou outro conduto de pão e bolachas – uma pitadinha
de violetas. Ao fundo o terroso da touriga francesa e umas agradáveis notas de
madeira. Na boca mostra-se elegante, de fino trato, com boa acidez e bom final.
.
Origem: Douro
Nota: 6,5/10
.
.
Domini Plus Tinto 2011
.
Acho estranho não ter escrito antes acerca deste vinho.
Consta dos meus cadernos de anotações, que inclui o telemóvel, cuja diversidade
de recurso não me permite estabelecer uma linha temporal de prova. Devia escrever
a data, mas sempre fui mau com números.
.
Este está acima do seu sucessor. A razão, que aqui é
assumidamente subjectiva, é a quantidade de sumo de touriga francesa: 68%. A
tinta roriz (22%) e a touriga nacional (10%) são as parceiras. Obviamente que o
trabalho enológico se repercute.
.
As diferentes percentagens das composições dos dois vinhos
espelharão as virtudes de cada casta em cada um dos anos. Ainda assim, acredito
que a pontaria primeira à touriga nacional, no 2011, possa estar relacionada
com o apetite do consumidor.
.
Este é muito mais Douro. Tem os aromas bravios da região e
as casas solarengas das quintas. Uma mão cheia de socalcos – não sei se a
propriedade os tem, é mero recurso. Na avaliação olfactiva estão o xisto e sua
terra, as estevas, aquela nota de madeira, talvez de azinho, que lhe oferece a
touriga francesa. Domingos Soares Franco, enólogo-mor, refere frutos pretos…
sim, não divirjo muito; às amoras, mirtilos e ameixas junto figo seco. Quanto a
violetas, ná! Continuo na minha, no Douro não topo muito esta flor, parece-me
sempre mais o doce, geleia e compotas de cereja e/ou outros frutos vermelhos.
Na boca é equilibrado, com boa acidez e um final longo.
.
Origem: Douro
Nota: 8/10
.
.
Hexagon Branco 2013
.
A marca Hexagon nasceu para os tintos e o seis a que alude
referem-se ao número de castas. Neste branco há apenas quatro: viosinho (34%),
verdelho (30,5%), antão vaz (20%) e alvarinho (15,5%).
.
Por partes: acho gira a combinação de castas tão diferentes
e de regiões diversas. Não penso que seja arriscado, é um vinho para amantes
assumidos, que premeiam a diferenciação, e para os apreciadores do estilo desta
firma de Azeitão.
.
Como enófilo premeio as diferenças, ainda que, por vezes,
não me sacie completamente o prazer. Reafirmo, este não é um blogue de crítica
«séria» (é sério porque respeita o meu gosto), as provas não são cegas, o
ambiente não é de sala de provas, mas de amizade e convívio e reflecte o meu
gosto. Ainda assim, quando me surge um vinho que não me cai no goto, mas que
tem manifesta qualidade, não o posso penalizar completamente.
.
Acresce que não sou enólogo nem vitivinicultor, não tenho
bases académicas para argumentar enologia nem dar conselhos comerciais e
empresariais. Quem me lê sabe o quanto aprecio o trabalho de Domingos Soares
Franco e sua equipa (e família).
.
Já se percebeu que não gostei deste vinho. O não gostar é
relativo! A escala decimal é aberta como a de Richter, sendo que o 3 é
positivo, pois não vejo interesse em classificar o evitável (2) nem o imbebível
(1).
.
Ora, este vinho – atenção refiro-me a gosto – tem vários
«defeitos»: antão vaz e alvarinho. O viosinho lembra-me o Douro dos meus
amores, onde leio uma alma grande. O verdelho diz-me o nome do enólogo, que tão
bom partido sabe tirar desta casta. A alvarinho é casta que raramente aprecio
fora dos frios de Monção e Melgaço. No Sul, enjoa-me um bocadinho. Depois vem a
casta Yeti – a abominável cultivar do Alentejo.
.
Na «prova», os comensais gostaram muito. Eu não! Tenho
reparado que a antão vaz só é bebível quando se lhe junta o arinto – excepção feita
ao primeiro Solista, da Adega Mayor, com direcção de Paulo Laureano, que jurou
que me porá a cantar laudes a esta «coisa».
.
Tentando ser justo quanto a qualidade e gosto pessoal… 6! Os
restantes 7.000.000.000 de terráqueos provavelmente deliciar-se-ão. Tem tudo
para agradar.
.
Origem: Regional Península de Setúbal
Nota: 6/10
.
.
FSF Tinto 2011
.
Adoptei não pontuar vinho de homenagem, a menos que surjam
anualmente ou com grande regularidade. É o caso: Fernando Soares Franco, figura
enorme dos vinhos portugueses.
.
É um vinhaço! Em grande! Fez-se de syrah (79%), trincadeira
(17,3%) e tannat (3,7%). Caiu-me muito bem. Mostra-se variado quanto a olfacto,
desde a mineralidade quente das areias, ao figo seco, à menta e chocolate
preto. Enche a boca, com calor e acidez que a equilibra, um final muito longo!
.
Origem: Regional Península de Setúbal
Nota: 8,5/10
.
.
Lancers Espumante Bruto, branco e sem indicação de ano,
produzido é método contínuo. É um vinho
que calha muito bem no Verão e que na passagem de ano contrabalança os enfartamentos
e os doces típicos da época.
.
Tem uma acidez notória, bolhas brincalhonas a fazerem
cócegas, aromas de frutas de Verão, não tropicais. É prá festa!
.
Lancers Espumante Bruto
Origem: Portugal
Nota: 5/10
.
.
.
Nota: Estes vinhos foram enviados para prova pelo
produtor.
terça-feira, novembro 25, 2014
Os olhos comem e os meus também bebem
.
Revelado ou escondido, um Sandeman será sempre noite. O Don tem
mistério suficiente. Podia ser um dos fantasmas de minha casa. Dá o abraço das
coisas antigas, como uma avó, se avó fosse coisa. Andou com os meus olhos ao
colo. Os olhos comem e os meus também bebem. O conforto do belo.
.
.
.
Nota: Pintura de Loxton Knight.
.
.
.
Nota: Pintura de Loxton Knight.
Subscrever:
Mensagens (Atom)



.png)
.png)
.png)
.png)
.png)
.png)



.jpg)

