sexta-feira, dezembro 20, 2013

Quadros da Colecção Privada de Domingos Soares Franco

Com assinalável atraso, porque a vida não está fácil, cá seguem os vinhos que vou tendo em atraso.
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Diz-me o instinto, e também o rótulo, que mestre Domingos Soares Franco faz com esta gama o que lhe dá na telha... talvez um pouco refreado pelo irmão António, que o faz ter os pés mais assentes na terra. Mas isto digo eu, sem qualquer fundamento.
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Ora cá vai o primeiro: Colecção Privada Domingos Soares Franco Moscatel Roxo 2012. Trata-se dum espumante e como o Ano Novo está a chegar pode ser uma aposta.
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Não é vinho para quem já é batido nestas coisas das bolhinhas, mas não há dúvida que pode reunir, em felicidade, convidas dom diferentes graus de enofilia e até aqueles que o único vinho que bebem é o espumante do novo ano.
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Achei-o um pouco doce, mas com final seco. E aí está o equilíbrio da unanimidade, ou quase.
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Origem: Regional Península de Setúbal
Produtor: José Maria da Fonseca
Nota: 4/10
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Colecção Privada Domingos Soares Franco Syrah e Touriga Francesa 2011
A touriga francesa aka touriga franca é a provocação de Domingos Soares Franco, que gosta de ver o furinho na legislação e ir por aí dentro. Curto isso.
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A touriga francesa (por causa dele ando com vontade de voltar à terminologia original) dá-me uma paixão... sei, porque já me disse, que Domingos Soares Franco também a aprecia bastante.
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Aqui, na área de Setúbal, não atinge o patamar do esplendor do Douro. Nota-se que é estranha ali, mas encanta sempre. O casamento com syrah dá-lhe um toque internacional.
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Origem: Regional Península de Setúbal
Produtor: José Maria da Fonseca
Nota: 7/10
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Colecção Privada Domingos Soares Franco Verdelho 2012 parece-me polivalente, para tempos frios e quentes. Um pleno, porque bastante gastronómico. Todavia, à conversa cai igualmente catita.
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Origem: Regional Península de Setúbal
Produtor: José Maria da Fonseca
Nota: 6/10
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Colecção Privada Domingos Soares Franco Grüner Veltliner, Rabigato e Viognier 2012... ai que coisa tão esquisita!... e tão agradável que é!... Tanto mundo e viagem, temperos daqui e dali. Pois este encantou-me bastante.
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Origem: Regional Península de Setúbal
Produtor: José Maria da Fonseca
Nota: 7/10
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Nota: Estes vinhos foram enviados para prova pelo produtor.

segunda-feira, dezembro 09, 2013

Vila Santa Reserva Branco 2012

João Portugal Ramos e sua equipa são duma grande fiabilidade. Vindima após vindima conseguem manter alta a qualidade e o perfil. Claro que há os vinhos mais correntes e outros que melhor exprimem o ano.
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Não querendo entrar na enochatice das vírgulas das vindimas e da precipitação nos três minutos anteriores à colheita, vou dizer apenas o que me apraz... é que sou enófilo e não comentador capaz de sublinhar o 4-3-3 e a função do número 6 no rendimento da equipa.
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Primeiro tenho a dizer que a antão vaz não apareceu. Não a notei nem na boca, nem no nariz nem na documentação fornecida. Aleluia! Este vinho fez-se com a arinto (sempre fresca), a alvarinho (por vezes enjoativa no Alentejo, aqui temperou bem) e a sauvignon blan (carácter mais complexo).
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É um vinho para ser acompanhado por comida. Bebe-lo depois da praia não lhe convém, porque não convém ao enófilo. Junte-se-lhe comida e vai crescer em satisfação.
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Origem: Regional Alentejano
Produtor: João Portugal Ramos
Nota: 6/10

Solista Verdelho 2012

Fresquinho e suave... boa onda, mas não é bem o que chamaria de piscina.
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A edição de 2010 fora feita com a antão vaz (blheck!), mas a dupla de enólogos Paulo Laureano / Rita Carvalho fizeram a maravilha de me maravilhar. A adega tem novo mestre, Rui Reguinga, que é homem de grande mestria.
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Não sei se este Solista é já da sua lavra. O que sei é que gostei dele. Esperava «aquele» solista, o da casta tenebrosa. Esse surpreendeu, até por isso. Este espantou-me menos. A «culpa» não é dele, mas do estrondo do anterior.
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Não lhe aponto negativas. Não é suposto ser um grande vinho, mas um néctar para prazer e consenso. Eu, que tenho mau feitio, digo apenas que é muito certinho. Mas isso digo eu, que tenho a mania que sou duro e mauzão.
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É um vinho para agradar à sogra, que tem a mania que não gosta de brancos.
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Origem: Regional Alentejano
Produtor: Adega Mayor
Nota: 5/10
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Nota: Este vinho foi enviado para prova pelo produtor.

Monte Mayor Branco 2012

Tem piada, tem. Fresco e agradável.
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Num vinho que tem a casta antão vaz, esta simples afirmação é um elogio. Para quem não sabe, digo. Para quem sabe, relembro... odeio a antão vaz.
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Felizmente, neste vinho nota-se pouco! A verdelho dá-lhe mundo e a arinto frescura.
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Origem: Regional Alentejano
Produtor: Adega Mayor
Nota: 4/10
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Nota: Este vinho foi enviado para prova pelo produtor.

Monte Mayor Reserva Tinto 2011

Eis um vinho que, embora sem ofuscamento, dá um bom prazer. Não digo que seja banal, não é isso. Digo que é consensual. Julgo que não existirá ninguém que possa dizer que não gosta.
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Não me arrebatou, mas com satisfação acompanhou uma bela peça de carne de vaca. Nada de gordura excessiva. Casaram-se bem e foram muito felizes.
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Fez-se com as castas aragonês, trincadeira, alicante bouschet, syrah e petit verdot. Tendo tanta coisa, pode ser muita coisa. Não é um alentejanão, no sentido da bombarda, mas não é um alentejaninho, na fragilidade delicada.
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Pode ser muita coisa e como o Alentejo é vasto e variado, é também alentejano.
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Origem: Regional Alentejano
Produtor:
Adega Mayor:
Nota: 5,5/10
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Nota: Este vinho foi enviado para prova pelo produtor.

Fiúza 3 Castas Nature

Este é um vinho descomplicado. Sinceramente não me disse grande coisa. Vai bem com uns acepipes... pasta de atum ou de caranguejo – parece-me, pelo sentido do que dizem, pois pêche (dito à moda do Algarve) e coisa que a minha boquinha não manja.
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Feito com as castas vital, arinto e sauvignon blanc, este frisante não lhes dá grandes características. Achei-o industrial... bem feito. Só isso.
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Origem: Regional Tejo
Produtor: Fiúza & Bright

Nota: 3/10

Ninfa Escolha Pinot Noir 2011 e Ninfa Escolha Sauvignon Blanc 2012

O tempo voa! Parece mesmo que foi ontem que escrevi estacrónica sobre o pinot noir de João Barbosa – um homem simpático com quem simpatizei desde a primeira hora. Apesar do nome e do apelido, não consta que tenhamos parentela.
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Num evento há uns meses (nem quero pensar há quantos) mostrou-me este vinho já feito. Um espectáculo. Tudo o que esperei dele se confirmou.
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Nesse primeiro encontro, quando nos conhecemos, disse-lhe que estava na calha entrar na lista dos meus vinhos preferidos... Bingo!
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O Ninfa Escolha Sauvignon Blanc 2012 é outro vinho para bom contentamento. Nada do espalhafato do «novo mundo», que é uma intoxicação e um aborrecimento. Este é limonado e com ananás, nada enjoativo. Prolonga-se na boca e apreciei-lhe a mineralidade.
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Ninfa Escolha Pinot Noir 2011
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Origem: Tejo
Produtor: João Barbosa
Nota: 9/10
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Ninfa Escolha Sauvignon Blanc 2012
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Origem: Regional Tejo
Produtor: João M Barbosa
Nota: 6/10

quarta-feira, outubro 16, 2013

Kopke 375

Lisboa, cerca das 18h00, uma nanomultidão aguarda a revelação duma nova jóia da Kopke. Ao fundo da sala dum bar decadente, anacrónico e feio está colocada a cobiçada gema.
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O pedestal deixa brilhar a garrafa de Porto da edição comemorativa dos 375 anos da Kopke, casa criada pelos alemães Cristiano e Nicolau Kopke. É a mais antiga firma no negócio e é natural que tenha preciosidades na oficina. Uma delas é a que foi engarrafada para a celebração.
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Da colheita de 1940 restam quatro cascos (se ouvi bem) e os enólogos provaram-nas até encontrarem a certa. O ano colheita é simbólico, pois foi aí que se reconheceu oficialmente a empresa como a decana.
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Este Porto Colheita não foi refrescado com vinho doutros anos, mas conheceu um estágio de acerto e rejuvenescimento em barricas avinhadas, embora não jovens.
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O vinho mostra uma enorme frescura e ímpeto. Tem raça, estilo e personalidade. Tem vida e revela os anos. Uma acidez para lá de Marraquexe, uma untuosidade além de Bagdade um final quase em Osaca. Complexo e equilibrado, não efusivo no nariz e com tudo o que é suposto ter num tawny tão antigo, e não é pouco.
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A qualidade, a antiguidade, a raridade e o simbolismo deste vinho fazem com que não possa ser barato. Vale o preço? Para mim, está barato. Há quem não entenda. Infelizmente... diria inf€lismente não posso satisfazer o meu desejo.
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Ensaiei um roubo. Nada melhor que ter muita gente para subtrair o diamante. Discreto e sorrateiro, aproximei-me do pedestal. Avancei decidido... ninguém me levou a sério!
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E eu que gosto tanto de sonhar acordado...
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Queria ser um herói e não um anti-herói. Não vos posso dar a beber Kopke 375, mas posso ilustrar-vos o meu estado de espírito. Estou entre um e outro.
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Origem: Vinho do Porto
Produtor: Kopke
Nota: 10/10
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Nota: Vídeos das séries televisivas «Missão Impossível» e «Olho Vivo».

Épico... no Flor de Lis

Abençoado almoço! Quem me tem lido sabe que ando afastado da escrita de comida. Várias são as razões, mas desta não escapei. Não quero exagerar, mas penso que esta refeição me vai ficar na memória e por boas razões.
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Bem sei que há sempre mentes laboriosas a traçar conjecturas, maquinações e teorias conspirativas. Para que possam mais facilmente atirar pedras, tenho a dizer que fui convidado. Tenho de referir isso, porque não vou poupar elogios. Quem quer mal arranja sempre pretexto, mas assim fica tudo clarinho. Não me sinto diminuído pelo convite nem devo nada, mas o conhecimento do mundo faz-me iniciar a crónica com esta ressalva.
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O sítio chama-se Flor de Lis, é o restaurante de referência do hotel Epic Sana, uma unidade de cinco estrelas, inaugurada em Março, e situada nas Amoreiras (Lisboa). À frente dos tachos está o jovem francês Patrick Lefeuvre, que sabiamente foi recrutado ao Ritz, onde era subchefe.
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Tenho muitas palavras para elogiar a refeição que me proporcionaram. Duas são: Estrela Michelin. Não me parece exagero, tendo em consideração a imaginação, consistência criativa, qualidade técnica e requinte.
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Embora afirme que é de desconfiar dum cozinheiro magro, penso que neste se pode confiar. O mestre recorre a produtos portugueses, reconhecíveis, mas não lhes dá uma voltinha a fingir que a cozinha é muito tuga, nem os manipula de modo a que sejam irreconhecíveis ou indiferentes. Não é a armar ao pingarelho, é mesmo elegante. A «estrelinha» não depende de mim, nem tenho um milésimo de voto na matéria.
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Considero haver duas minudências a criticar e um pormaior. As miudezas foram uma disfuncional faca para a manteiga e o material do tampo da mesa. Este último aspecto é um bocadinho irritante... os talheres fartam-se de dançar, parecem gaiatos. A mesa é bonita e colocar-lhe uma toalha seria ofender-lhe a estética, mas não é muito funcional.
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O aspecto grave não tem a ver com a cozinha, mas com o sanitário. O sabonete das mãos tem um cheiro, impositivo, artificial e persistente, que destrói qualquer aroma posto na mesa. Este aspecto tem mesmo de ser melhorado, caso a direcção da cadeia Sana queira apostar na gastronomia. Não basta ter um bom chefe, é preciso não lhe estragar o trabalho.
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Procurei, na página de internet do Epic Sana Lisboa, referências ao chefe e ao escanção. Admito poder ter visto mal, mas penso que seria positivo tirar partido mediático destes profissionais.
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O pretexto da visita foi a nova carta de Outono e Inverno. A oferta é vasta, mas não comentarei o que não provei, pelo que os curiosos devem espiolhar o sítio do hotel na internet (julgo que está lá... se não está, devia estar).
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As propostas de cozinha são criativas, de autor artista, com referências a várias coordenadas, mas há igualmente sugestões portuguesas. Se faz falta boa mesa com receitas nossas, também merecemos mundo. Cosmopolita não é apenas cuspir fogo no Chiado e ser estrangeiro no Martim Moniz. Lisboa precisa muito de imaginação, de artistas e não de artífices.
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Apresentaram-me o menu de degustação, no valor de 50 euros, e que consiste em quatro empratamentos, fora o vinho. Dois néctares recomendados pelo escanção custam 15 euros e quatro vinhos 39 moedas. Pelos números, compensa pedir duas vezes dois vinhos... não faz sentido, digo eu, cujo negócio é a escrita.
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Antes das decisões, a casa coloca três manteigas, cada qual melhor que a anterior. Isto que digo tem valor, pois não sou grande amante de natas batidas. Como quando esganado ou quando visualmente troco os olhos pelo nariz.
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Primeiro tiro: «Carpaccio de pato e terrina de foie gras caramelizada, milho e baunilha». Simplesmente delicioso. O fígado estava delicadíssimo, diria sensual. Desfez-se na boca, guloso. O caramelizado com a textura, consistência e espessura certas. Nota máxima (não tenho, mas faz de conta).
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O segundo tiro do menu de degustação foi diferente do habitual, visto tratar-se de peixe. O meu segundo tiro substituiu o «Filete de cherne corado e ravioli de caldeirada à portuguesa». Deve ser delicioso... tenho pena. Quem não sabe, fica a saber. Não como peixe, devido a intolerância olfactiva. É de família! E se acham estranho, pensem naquelas pessoas que não aturam o aroma (delicioso – diverso, como o do pescado) do queijo. É assim a vida, calhou-me a mim.
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Segundo tiro: «Salada de legumes, queijo Manchego e vinagrete de kumuat». Diria vinagreta, à portuguesa, mas o nome do prato é esse... blá, blá, blá... mas isso não interessa nada, como diria a impagável Teresa Guilherme. Legumes gostosos, sem texturas disfarçadas, com pouco tempero e suave, o que me parece excelente para não danificar os produtos. Julgo que me disseram que eram de agricultura biológica... ponto a averiguar. Sim, é importante!
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Terceiro tiro: «Cabrito assado em alecrim, aipo e pimenta sarawak e legumes biológicos». Uau! Bolas! Uau, mesmo! Apesar de ter falado com o chefe, não perguntei se era cabrito de raça autóctone. Mais uma vez delicado, sem artifícios. E só boa matéria-prima permite resultados para boa memória. Quem tem lembrança, ou avós antigas, conheceu aqueles cozinhados de horas de lume brando, numa lareira ou num fogão a lenha. Tempo demasiado para a pressa de hoje, sendo que depressa e bem, não há quem. Pois, essas comidas de antanho tinham o tempo certo, para tudo. Este cabrito esteve ao fogo suave por 12 horas. Tão simples que parece fácil. Tão simples, com ingredientes tão comuns. É sábio não acrescentar o que é supérfluo.
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Quarto tiro: «Cremoso de avelã, pipoca e gelado de amendoim». Para descrição, parece uma invenção de pré-adolescente. Na casa chamam-lhe Snikers, como o chocolate (!). Está bem para referência em prosa e para brincar com o gastrónomo que se senta à mesa, mas o mimo não merece essa comparação. O que tenho a dizer? Que é muito feliz. Bela ideia e, mais uma vez, boa concretização. Todavia, tenho a dizer que foi a iguaria que menos me entusiasmou nesta refeição.
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Não apontei as datas de colheita dos vinhos, nem as especificidades de referência, mas trataram-se de Herdade dos Grous e Quinta da Giesta. Ambos tintos, portaram-se bem. Para a sobremesa veio um Messias Tawny Reserve. Percebo a ideia, mas não concordo. A presença de chocolate de leite apeteceu-me mais com um LBV (que o escanção trouxe à minha sugestão).
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Por que digo que merece a estrelinha dos pneus? Dou duas razões: a qualidade da refeição e experiências inferiores em estrelados. É cedo, muito cedo para sonhos. Gostava que a bordassem na jaleca de Patrick Lefeuvre.
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Funcionamento: Aberto todos os dias da semana.
Horário: 7h00 às 10h00 – ao fim-de-semana até às 11h00 – das 12h30 às 15h00 – das 19h00 às 23h00.
Menu de degustação: 50 euros + vinho
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Nota: Esta refeição foi feita a convite do restaurante.

quinta-feira, setembro 12, 2013

Vinhas do Cruzeiro Vinhão Escolha 2011

O bom e o mau, como o claro e o escuro, o preto e o branco, nunca (!) acontecem – mas contudo acrescento que tudo, nada, sempre, nunca são palavras tramadas. A vida é assim.
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Tenho apreço pela tradição. Não pela fantochada do folclore, mas da verdade que existe no étnico. A qualidade é um valor absoluto, mas os parâmetros de aferição não são; a escala varia, as relações afectivas pesam, a experiência de vida é decisiva, as sugestões sublinham e influenciam.
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Portanto: não gosto de Vinho Verde tinto. Tanto quanto desejo que viva pela eternidade. Não sei se quero que mude. Mudar? Para ficar outra coisa? Mudar para que os gajos que não gostam de Vinho Verde tinto passem a gostar? Não faz sentido. Num tom de brincadeira, não de cinismo, digo que quero que o Vinho Verde tinto fique como está, para que, há falta de melhor assunto, tenhamos algo com que afiar a língua.
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Este vinho dá motivo a conversa, tem muito para dizer. A Casa do Cruzeiro, uma bela residência solarenga, que outrora, antes da vila a abraçar, servia para descanso da família durante o Verão. Como seria de esperar, o domínio tem vinhas. E já agora, de quê? Vinhão e loureiro... que mais poderia ser? O vinho da de loureiro não bebi.
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Porém, este vinho não tem nada a ver com os donos da casa. As uvas vêm de vinhas que estão em terrenos que fizeram parte do morgadio. Este vinho é da Escola Profissional de Agricultura e Desenvolvimento Rural de Ponte de Lima, que também o engarrafa. Este vinho é didáctico. É didáctico para quem o faz e para quem o bebe.
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Ensina a quem nunca provou um Verde tinto onde está o portão do Inferno... mas numa suavíssima visão... o Verde tinto, entenda-se. Esta afirmação traduz-se em: «consegue ser bebido». Tem o seu gás... o amigo Paulo Rosendo hoje andou de esfregona a limpar uma cena de crime. Um mar sanguíneo... ninguém homicidiou (a palavra não existe), apenas o gás forçou a cápsula e a rolha; Bum!
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O facto de se conseguir beber não quer dizer que seja «mau» Verde tinto. Autenticidade, tem. Falta-lhe é o fulgor desabrido dos tradicionais, a loucura insana de quem sai a correr a gritar que há fogo no fim da rua, com os olhos esbugalhados e a língua a quase saltar da boca, os gestos amplos quase desacertados e ilógicos, numa velocidade vertiginosa.
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É aí a falha! Na essência é um verdadeiro Vinho Verde tinto, mas, à conta de muito sermão e porrada, deixa que «eu» o tenha conseguido beber. Defeitos mais do que desculpáveis, até por se tratar dum vinho de escola. A haver falha seria sempre do professor.
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É como o miúdo travesso que sai de manha para ir à mercearia e só volta à noite, trazendo apenas a fisga e dois pardais, que passa ao pé de freiras e diz um palavrão, mas que ao domingo, com o banho tomado e bem penteado, ouve missa e come à mesa com o padre... só porque o obrigaram!
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O Vinhas do Cruzeiro tem a cor da tinta de escrever (só que em notas encarnadas), densas, profundas, misteriosas; pouco grau (11) e tem um aroma limpo. O que não percebo é a acidez. O que fizeram dela? Está castrada.
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Não estando a dizer mal para dizer bem, não fazendo o favor a ninguém, digo que gostei com sinceridade. Defeito? Fizeram-no perfeitinho.
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Ninguém nasce ensinado e não sou ninguém para dar lições de enologia a ninguém. Se fosse eu a fazer, faria certamente muitíssimo pior.
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Conselho aos fazedores: para a próxima amordacem o professor ou anotem mal os valores que lhe fornecem e façam uma rave na adega (oiçam e dancem house, free jazz e Quim Barreiros enquanto o fazem). Partam isso tudo! Ponham o vinhão a dizer palavrões! Essa é a tradição! C******!
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Origem: Vinho Verde
Produtor: Escola Profissional de Agricultura e Desenvolvimento Rural de Ponte de Lima
Nota: X
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Nota 1: Tenho a escrita dos vinhos atrasada e este entra à fascista.