ponto de ordem à mesa

Quando comecei no jornalismo, em 1990, estava longe de pensar que um dia haveria de escrever sobre gastronomia. Em todo este tempo apaixonei-me e debati-me com o vício da informação.
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A verdade é que também nunca me imaginei no jornalismo económico… E gosto! Gosto mesmo muito. Desde há uns anos que junto economia e agricultura, em televisão (muitas saudades) e imprensa. Sou muito feliz por poder fazer reportagem.
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No início do século deram-me a responsabilidade e liberdade para escrever opinião. Foi no extinto diário A Capital – perda tão dolorosa quanto a do Diário de Lisboa ou do Diário Popular ou do Século, muitos mais. Publicava às quintas-feiras e – momento de vaidade – era citado às sextas-feiras. Vaidade porque sou pequenino e escrevia as primeiras letras de opinião.
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Em 2006 arrisquei e apresentei um blogue de gastronomia, centrado no vinho, em parceria com o meu grande amigo Paulo Rosendo – http://a-adega.blogspot.pt. Demasiado amigos, findamos o sítio – ainda acessível – e criei o joaoamesa.blogspot.com.
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O nome não é brilhante (é mesmo mau) e, embora diga claramente de quem é e aponte a responsabilidade, é narcisista… sou vaidoso, mas narcisista parece-me fato exagerado para vestir. Calhou narcisista, paciência. Pensei muitas vezes em mudar-lhe o chamamento, mas quem me lia (ou lê) já se habituara… ficou.
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Por limitações físicas – intolerância olfactiva a pescados – percepção de falta de mundo (cultura) e insuficiência financeira para manter activa uma crítica de comida, a gastronomia passou a apresentar-se apenas na vertente enófila.
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Embora desligando a ousadia de escrever sobre pratos, aceitei alguns convites para refeições, na qualidade de blogueiro. Todavia, nunca deixei de informar acerca das limitações.
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Nunca pensei em vir a tornar-me jornalista de vinhos, mas a vida… Sempre disse – e mantenho – que não quero ser crítico de vinhos. A actividade como crítico foi sempre amadora, assumidamente apaixonada e pouco científica.
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Tive propostas para patrocínios e para colocar publicidade. Nem hesitei a dar resposta negativa. Um blogue, como o entendo, ou como quero para mim, tem de se manter fora desse âmbito.
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Desde há uns anos que a revista Epicur me tem no painel de prova. Obviamente, vou despojado do lado apaixonado da crítica no joaoamesa.blogspot.com. Avalio – às cegas, esquecendo o gosto pessoal, refutando preferências –, com empenho, os vinhos apresentados.
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Nunca pensei, mas surgiram-me, num ápice, quatro desafios que se completam, mas que esvaziam o joaoamesa.blogspot.com e ditam a sentença:
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1) O http://reportersombra.com/ onde solto pensamentos outrora plasmados no joaoamesa.blogspot.com. Porquê? Porquê fazer o mesmo que se fazia no blogue – sem a componente de crítica e atribuição de notas –, porquê? Porque passei a ter um editor. É bom ter alguém que possa chamar à razão, apontar falhas, sublinhar melhoramentos ou dando apoio.
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2) Antigo camarada – do tempo em que os jornalistas se tratavam por camaradas – de redacção, o director da Epicur convidou-me para «bater» notícias. A notícia, a simples notícia que é a base de todo o ofício de jornalismo. Portanto, podem ler-me EM http://epicur.pt/. A notícia é o pão.
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3) Quase em simultâneo apareceu-me o desafio de escrever opinião. É muito diferente opinar num blogue ou num órgão de comunicação social profissional. A responsabilidade dá um prazer muito diferente do de franco-atirador. A http://blend-allaboutwine.com/pt-pt/ traz-me a doce memória de A Capital, mas acerca de vinho, em vez de economia e política.
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4) A Doze é a quarta dimensão. É uma revista trimestral – ainda sem sítio na internet – onde se quer desmontar o vinho. Não é notícia, não é opinião, não é velejar à deriva. Não é uma revista de gastronomia, é uma revista masculina, de luxo, onde há que se leia, deixando de lado as meninas de perna-aberta ou as «envergonhadas» em trajes menores.
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Sou hoje um jornalista feliz. Se aqui cito as publicações gastronómicas, não posso deixar de sublinhar o prazer em colaborar com a Vida Rural e com a publicação angolana Figuras & Negócios.
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Sou um jornalista feliz! Agradecido aos meus directores.
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O joaoamesa.blogspot.com não morreu. Está a cozinhar a baixa temperatura. Terá episodicamente textos, mais provavelmente imagens de expressões artísticas versando a gastronomia.

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

Sabor a Brasil

Alameda dos Oceanos, Fracção J – Parque das Nações, Lisboa
Telefone: 21 895 51 43

Embora não seja fanático, aprecio a cozinha brasileira. Em Lisboa há alguns restaurantes e, como em tudo, há uns que se recomendam e outros que merecem crítica negativa.
No Sabor a Brasil as doses são grandes. Dali ninguém sai com fome. Não sei se o leitor considera este facto positivo. Não desvalorizo, mas para mim não é determinante para agradar.
Se se pode considerar a dimensão das doses como positivo, o resto já não tem apontamento favorável. Por exemplo, a picanha é farta, mas os acompanhamentos de feijão e couve são curtos. As batatas fritas tresandavam a óleo, tanto no sabor como no aroma, além de desconfortáveis para comer com garfo por serem às rodelas. A carne não era saborosa, longe daquelas que afamaram a picanha em Portugal. A sobremesa, à base de coco, com molho com coco, manjá branco com baba de moça, não mostrava muito o fruto, mas antes um enjoativo sabor e cheiro a baunilha.O vinho caro para a qualidade. O serviço de copos a melhorar.

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

Bastardinho de Azeitão 30 anos

Não esperava muito deste vinho, mas também não esperava pouco. Uma coisa me intrigava: por que razão desaparece um vinho? Na verdade, a pergunta deveria ser por que razão desaparecem umas determinadas vinhas. A resposta está em parte nas expectativas: nem bom nem mau. Aqui há uma injustiça na forma: o Bastardinho está claramente numa categoria de valor. A outra parte da resposta está no (Moscatel de) Setúbal.
Talvez se o Setúbal não disputasse território aproximado e, parcialmente, sobreposto o Bastardinho de Azeitão ainda vivesse. É quase aquela pergunta armadilhada dum anúncio: porquê algodão se pode ter seda?! Se um produtor pode fazer melhor e se o mercado reconhece essa qualidade, para quê continuar a produzir o Bastardinho se há o Setúbal?
Nisto há também lamento, porque o vinho é bom, leva esforço para nascer e, desta forma, desaparecem vinho e vinhas. Já não bastava não ter este vinho histórico uma Denominação de Origem Controlada própria, como lhe calhar ainda o azar de não ter quem lhe pegasse e o resgatasse com poder, tal como aconteceu com o Colares (Fundação Oriente) e Carcavelos (Estação Agronómica Nacional).

Origem: nd (Terras do Sado)
Produtor: José Maria da Fonseca
Nota: 6/10