ponto de ordem à mesa

O mundo gira e dá voltas. Teimosamente às voltas. Pensava que o joaoamesa.blogspot.com estava morto ou, pelo menos, em estado de coma. Ou pior, sem qualquer sinal vital, ligado à blogosfera por nostalgia e arquivo. Mal morto, o blogue mantém o endereço, mas muda de título.

quinta-feira, janeiro 31, 2013

Vinhos argentinos mostrados em Lisboa

Sabe-se que muitas vezes as embaixadas portuguesas no estrangeiro servem vinhos doutras proveniências que não a pátria. Tiros nos pés de diplomacia de croquete e canapés entediantes, que dariam, no mínimo, chamada do embaixador a Lisboa para justificações e até destituição. Isso seria num país a sério e não nesta terra de opereta.
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Ao contrário dessas repartições portuguesas no mundo, em que cujos os responsáveis se sentem muitas vezes como aristocratas (quem lhes dera, palavra de monárquico), outros diplomatas fazem o que devem fazer: promovem o país, fazem-no representar. Tem diplomacia inteligente.
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A embaixada da Argentina em Lisboa organizou uma mostra de vinhos do país. Ousadia faze-lo num velho produtor europeu. E fez muito bem, pelo bem do seu país e dos enófilos portugueses.
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Em prova estiveram 24 néctares. Devido à impossibilidade técnica de poder com tempo conversar com todos os tendeiros, para saber mais das casas e das filosofias, a prova foi injustamente uma carreira.
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É impossível, aqui ou em qualquer mostra idêntica. Não é uma crítica nem um lamento, é uma constatação. Faz parte do ofício, digo eu que também sou jornalista. Por isso, não poderei adiantar muito sobre cada produtor. Peço, por isso, desculpa e compreensão aos leitores e aos simpáticos anfitriões. Vou limitar-me a citar as referências, dar as notas de prova e uma notação.
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A avaliação é claramente positiva. A ordem de aparição dos vinhos, tinha de ser uma, é decalcada do folheto fornecidos com as indicações básicas do vinhos, embora as notas de prova sejam minhas.
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BRANCOS
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Finca Flichman Mistério Chardonnay 2011
Nariz: banana e baunilha.
Boca: bom corpo e final interessante.
Nota: 6/10
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Trapiche Varietal Sauvignon Blanc 2011
Nariz: não demasiado exuberante, com as características da casta, com a qual embirro.
Boca: Fresca e suava.
Nota: 5,5/10
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Trapiche Zaphy Torrontés Biológico 2011
Nariz: fresco e com rebuçado, mas não excessivo na doçura. Tropicalidade e levemente floral.
Boca: Muito fresco, fruta fresca, bom corpo.
Nota: 7/10
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Terrazas Reserva Torrontés 2010
Nariz: alguma austeridade, com sublinhado de abacaxi.
Boca: Evocação tropical e belo final.
Nota: 7/10
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Colomé Torrontés 2011
Nariz: manga no ponto de maturação, algo mineral.
Boca: fresco e sensação sedutoramente frágil, feminino.
Nota: 6/10
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Crios Torrontés 2011
Nariz: muito fresco, vegetal, flores suaves, sedutor, uma finura de tropicalismo.
Boca: corpo longo, boa estrutura, frescura, bom final.
Nota: 7,5/10
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TINTOS
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Finca Flinchman Reserva Cabernet Sauvignon 2010
Nariz: vegetal e fresco, com notas de erva-doce.
Boca: taninos com raça, mas pouca subtileza. Final interessante.
Nota: 5,5/10
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Finca Flinchman Gestos Malbec 2011
Nariz: fresco, sem notas que sobressaiam.
Boca: taninos elegantes e boa envolvência.
Nota: 6/10
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Trapiche Oak Cask Malbec 2011
Nariz: vegetal, com nota de couve em cru, leve fumo.
Boca: taninos por domesticar e acidez banal.
Nota: 4/10
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Colomé Malbec 2010
Nariz: profundo e complexo; anis, um pouco de alcaçuz, avelã, pimenta, groselha.
Boca: taninos elegantes, boa acidez e final apimentado.
Nota: 7/10
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Crios Malbec 2011
Nariz: não particularmente interessante, com alguma ameixa preta.
Boca: adocicado.
Nota: 4/10
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Crios Cabernet Sauvignon 2009
Nariz: pimento, castanha e um pouco de rebuçado.
Boca: com alguma acidez, equilibrado, mas sem rasgo.
Nota: 5/10
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Crios Syrah Bonarda 2009
Nariz: fresco, com menta e pimenta branca, leve alcaçuz.
Boca: com fundura e persistência, taninos relevantes, algum chocolate preto.
Nota: 7/10
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Susana Balbo Malbec 2010
Nariz: fruta preta, mas com bastante evocação de madeira, mas polido.
Boca: suave, com elegância e fundura. Fácil e curto de descrever, mas bem interessante.
Nota: 7,5/10
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Fabre Montmayou Gran Reserva Malbec & Touriga Nacional 2009
Nariz: interessante integração das violetas e cerejas da casta portuguesa, noz-moscada, cassis,
Boca: madeira bem integrada, profundo, fresco e com promessa de boa evolução em garrafa.
Nota: 7,5/10
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Enzo Bianchi 2005
Nariz: pimenta branca, castanha e avelã.
Boca: taninos com raça, algum metal.
Nota: 6/10
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Famiglia Bianchi Malbec 2008
Nariz: um pouco oxidado, lembrando um tawny novo.
Boca: elegante e fresco.
Nota: 5/10
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Famiglia Bianchi Cabernet Sauvignon 2007
Nariz: pimento, pimenta preta, noz-moscada, madeira, algum anis, tudo bem casado.
Boca: doce, mas com frescura, taninos com carácter.
Nota: 6/10
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Elsa Malbec 2008
Nariz: notas evoluídas.
Boca: boa estrutura, taninos com elegância e final sedutor.
Nota: 6/10
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Arrabal 2009 – NÃO PROVADO.
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COLHEITA TARDIA
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Susana Balbo Late Harvest Torrontés 2010
Nariz: bom reflex da casta, doçura sedutora e ananás.
Boca: Muito doce e pouco subtil.
Nota: 5/10

quarta-feira, janeiro 30, 2013

Quinta de Carvalhais Único 2009

Há vinhos assim… são o que muitos gostavam de ser. Este é um deles. Chama-se Único e, não sendo o único vinho do Dão de categoria esmigalhadora, tem um carácter, personalidade e ADN bem identificativos.
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O Dão é uma região de enorme potencial que, por via de se ter deixado dormir na forma, perdeu protagonismo. Mas o potencial está lá, pode entrar na moda, mas nunca se irá bater em pé de igualdade com o Douro e muito menos com o Alentejo.
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Atenção: refiro-me a quantidades e a dimensão de produtores, não em qualidade ou carisma. Ao Dão falta dimensão das propriedades e massa crítica, coisa que o empresarial Alentejo tem e o tradicional Douro aprendeu com o Vinho do Porto.
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A Quinta de Carvalhais é uma jóia da Sogrape no Dão, grande casa em todo o país. O Único é o seu emblema máximo. Gostei da colheita de 2005, mas a de 2009 extravasou a expectativa. Se as coisas continuarem assim, com constante afinações, os Único serão, desejo, mais do que um actual belíssimo vinho para se colocarem mesmo no topo, ombreando com referências já consagradas. Que assim seja!
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A filosofia da Sogrape para os Único é o surgimento em anos considerados excepcionais. Penso que fazem bem, se querem criar aura e prestígio… coisa que a casa sabe fazer como poucos, e com justificado reconhecimento.
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O Dão está todo dentro do Único, com sua elegância e profundidade. Tinto com frescura, subtilezas, diferentes níveis de leitura, conforme o tempo que se conversa com ele no copo. Muito gastronómico, é um vinho de salão. Um aristocrata de temperamento e modo. Um grande vinho.
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Origem: Dão
Produtor: Sogrape
Nota: 8,5/10
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Nota: Este vinho foi enviado para prova pelo produtor.

terça-feira, janeiro 29, 2013

Tons de Duorum Tinto 2011

O Tons de Duorum Tinto é já um clássico. Não me cansa bebê-lo. É sempre boa companhia e mesmo contrabalançado com pesos-pesados do Douro, que normalmente abrem a refeição chez moi, o Tons de Duorum fica bem na fotografia.
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Esta marca está integrada no projecto que o enólogo e empresário João Portugal Ramos desenvolve no Douro, em parceria com o seu amigo, e também figura grada da enologia, José Maria Soares Franco. Ainda que não ligando à chamada relação entre a qualidade e o preço, este(s) é dificilmente imbatível, com o seu valor indicativo de 3,99 euros!!!!!
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Seja o que for essa coisa da relação entre qualidade e o preço, que ainda que exista nem sempre expressa o local do seu nascimento, o Douro está metido nesta garrafa. Lá estão as típicas touriga franca (do meu coração), touriga nacional e tinta Roriz. Lá está o Douro e sua esteva e notas lenhosas.
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Origem: Douro
Produtor: Duorum Vinhos
Nota: 6/10
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Nota: Este vinho foi enviado para prova pelo produtor.

segunda-feira, janeiro 28, 2013

Conde de Vimioso Espumante Extrabruto 2009

Ora aqui está um vinho que não fui à bola! É bem feito, pois outra coisa não seria de esperar de João Portugal Ramos e sua equipa, mas não aqueceu nem arrefeceu. Encolhi os ombros e digo: nã…
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Se por um lado não surpreende no nariz, mostra-se mais interessante na boca, exceptuando um pormenor, que, por acaso, é um pormaior: a borbulhagem… Parece sais de frutos, tudo aos saltos, bolhas empertigadas.
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Não… a este não posso dar grande nota, embora lhe atribua uma positiva… isto de dar notas a vinhos de grandes enólogos põe-me numa posição pretensiosa, em bicos de pés… mas se tenho a ousadia de blogar…
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No nariz mostra algum mel, massa de pão e um ramalhete suave (flores que não sei). Na boca, apesar de Extra Bruto, tem frescura, sente-se entre o mel e o metálico. A borbulhagem é que, francamente… não!
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Origem: Tejo
Produtor: Falua
Nota: 3,5/10
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Nota: Este vinho foi enviado para prova pelo produtor.

domingo, janeiro 27, 2013

Vinhos Contemporal - Continente

Os Contemporal são vinhos da casa de distribuição Continente. Como tal, a empresa espera vinhos com baixo preço de embate e qualidade apetecível. Como conseguem preços tão «em conta» não sei… embora me pareça que quem aguenta a canga são os vitivinicultores.
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Bem, Portugal é um país livre e cada um vende o que tem a quem quer… e cada um compra a quem quer. E o preço certo? E o preço justo? Matéria que aqui não quero entrar. Todavia, não deixo de ficar surpreendido com os preços das marcas brancas.
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O enólogo e crítico de vinhos Aníbal Coutinho escolheu uma mão cheia a néctares que representassem o país e agradassem ao consumidor. Penso que conseguiu. Não há grandes vinhos, nem poderia haver aos preços praticados, mas estes estão muito acima do mero «feliz» ou cumpridor dos mínimos.
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A escolha de Aníbal Coutinho, que considero eficaz na selecção, em termos de qualidade, recaiu num Verde branco, um Península de Setúbal branco, num Dão tinto e num Douro tinto. Aqui tenho de fazer um à-parte. Como é possível haver «reservas» a este preço? Há algo de estranho na república portuguesa…
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Começando por aquele que menos me agradou: Contemporal Alvarinho 2011. Fico positivo, bem feito, mas que não compraria. Achei-o nada surpreendente e quase maçador. Todavia, florezinhas, tropicalidade (cada vez me chateia mais – no geral), fresco e delgado.
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Já o Contemporal Branco 2011 da Península de Setúbal me pareceu bem mais interessante, com mais alma; com limão, lima… muita frescura e com embate simpático na boca.
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Nos tintos, tanto um como o outro estão abaixo do que DEVERIA ser um reserva, mas se a lei e os certificadores o permitem… enfim!... Porém, gostei deles, dentro das balizas colocadas.
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O Contemporal Douro Reserva Tinto 2010 não me impressionou no nariz, com uma discreta, mas presente, touriga nacional. Na boca também não deslumbrou, mas revelou alguma profundidade.
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O Contemporal Dão Reserva Tinto 2009 já me surpreendeu bastante… acima do cinco, mas não suficiente para o cinco e meio. É o melhor destes vinhos. Tem temperamento de Dão, mas a touriga nacional do seu interior já me lembra um pouco as do Douro, mais geleia. Mas as violetas estão lá. Gostei dele na boca, da sua estrutura.
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Cada caso é um caso, mas não posso deixar de notar o abismo que vai entre a oferta de Dão tinto da do Pingo Doce, que merece ser incinerada. A quinta do tio Belmiro é Dão e a do tio Alexandre desmotiva.
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Origem: Vinho Verde
Produtor/distribuidor: Continente
Nota: 4/10
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Contemporal Branco 2011
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Origem: Península de Setúbal
Produtor/distribuidor: Continente
Nota: 5/10
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Contemporal Douro Reserva Tinto 2010
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Origem: Douro
Produtor/distribuidor: Continente
Nota: 4,5/10
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Comptemporal Dão Reserva Tinto 2009
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Origem: Dão
Produtor/distribuidor: Continente
Nota: 5/10
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Nota: Estes vinhos foram enviados para prova pelo distribuidor.

sábado, janeiro 26, 2013

Terra d'Alter Telhas Branco 2010 - e outros (notações)

Isto agora é sempre a andar e com prévio pedido de desculpa a leitores e produtores. Motivos pessoais e profissionais ditaram o atraso na publicação dos textos.
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O Hotel da Estrela, que funciona também como escola de hotelaria, foi o palco para a estreia do novo topo de gama branco da casa Terra d’ Alter; o Telhas Branco 2010. À prova estiveram ainda outros vinhos, cuja referência será publicada após nota final.
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Trata-se dum vinho feito exclusivamente com a casta viognier e conheceu 11 meses de estágio em barricas de carvalho francês. No nariz revela manteiga de amendoim, pau de laranjeira, ameixa, pimenta rosa, baunilha e com uma subtil evocação de sal. Na boca mostra-se com frescura, guloso, com bom corpo, criado com notas de damasco e ameixa.
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O Telhas Branco 2010 tem tudo para encantar. Se não me engano as amigas hão-de gostar, pois tem carácter dum cavalheiro. Não é um homenzarrão, é um cavalheiro bem parecido. Em meu entender vai crescer, dêem-lhe mais dois ou três anos.
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Embora a generalidade dos vinhos receba apenas notação, não posso deixar de escrever os descritores dos topos de gama tintos:
– Telhas Tinto 2009: no nariz especiarias, nomeadamente erva-doce e pimenta da Jamaica, evocações balsâmicas, violetas, suave rebuçado e um pouco de café. Na boca revelou um embate doce, chocolate preto, taninos elegantes, frescura e envolvência.
– Outeiro Tinto 2010: ainda fechado no nariz, precisado de tempo. Ainda  assim mostrou ligeiro café, um pouco de erva-doce, ameixa em passa, cereja, anis e notas especiadas. Na boca tem doçura, muito macio, boa estrutura, nuance de madeira e compota de figo.
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Origem:  Regional Alentejano
Produtor: Terra d’Alter
Nota: 7,5/10
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Nota: foram também apresentados os vinhos Terra d’Alter Síria 2012 (5/10), Terra d’Alter Alvarinho 2012 (5/10), Terra d’Alter Reserva Branco 2011 (5,5/10), Terra d’Alter Alfrocheiro 2011 (5/10), Terra d’Alter Touriga Nacional 2010 (5,5/10), Terra d’Alter Reserva Tinto 2010 (6/10), Telhas Tinto 2009 (7,5/10) e Outeiro Tinto 2010 (8/10).

sexta-feira, janeiro 25, 2013

Quinta do Quetzal Rich White 2010 - e outros (notações)

Isto agora é sempre a andar e com prévio pedido de desculpa a leitores e produtores. Motivos pessoais e profissionais ditaram o atraso na publicação dos textos.
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Uma colecção de vinhos Quetzal foi mostrada em Lisboa, na renovada Casa da Comida. Entre os néctares servidos, o destaque foi para o licoroso, branco, apelidado, tal como o seu irmão tinto, de Rich.
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O Quinta do Quetzal Rich White 2010 é um caso de prisão, devido à sua perigosidade! É muito guloso, escorregando para cima (ups!) direito ao cérebro. Trata-se dum monovarietal de Antão Vaz (a tal casta que eu não gosto), cujos frutos foram colhidos sobremaduros. É um vinho com frescura, apesar do seu doce trago.
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Origem: Regional Alentejano
Produtor: Quinta do Quetzal
Nota: 7/10
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Nota: Foram também lançados os vinhos Guadalupe Selection Branco 2011 (5,5/10), Guadalupe Selection Tinto 2009 (5,5/10), Quinta do Quetzal Reserva Branco 2011 (7,5/10) e Quinta do Quetzal Reserva Tinto 2009 (7,5/10).

quinta-feira, janeiro 24, 2013

Herdade das Servas Vinhas Velhas Tinto 2009 - e outros (notações)

Isto agora é sempre a andar e com prévio pedido de desculpa a leitores e produtores. Motivos pessoais e profissionais ditaram o atraso na publicação dos textos.
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Este tinto da Herdade das Servas caiu-me no goto: fácil e sem desprimor. Venha alguém dizer-me que não gosta deste vinho… Ná! Duvido que alguém se chegue à frente ou levante o braço.
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A Herdade das Servas tem-se revelado uma casa interessante, aliando uma parte de tradição e outra de modernidade. Tem o peso de séculos de criação familiar de vinhos e adopta modernas técnicas. Vinhos facilmente identificativos do Alentejo, sem que por isso se tornem demasiado internacionais.
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É um vinho redondo e gostoso, com boa acidez. Revela notas de fruta preta e de compota. Tem pujança sem ser abrutalhado.
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Origem: Regional Alentejano
Produtor: Herdade das Servas
Nota: 7,5/10
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Nota: Na apresentação deste néctar debutaram ainda Monte das Servas Escolha Branco 2011 (4,5/10) e Herdade das Servas Branco 2011 (5,5/10).

quarta-feira, janeiro 23, 2013

Morgadio da Calçada

Estive em Provozende, terra de que já ouvira falar e que pouco mais sabia que fica no Douro vinhateiro. A povoação é minúscula, percebe-se pelo calcar nas pedras, mas mesmo assim pouco vi dela.
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Manuel Villasboas, fidalgo de província e moderno profissional no Porto, é um homem simpático que, pouco depois de o entrevistar, tratou logo de me pôr à vontade, sugerindo que nos tratássemos por tu. Sem demora ou contrariedade assim se fez a sua, e minha, vontade.
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O Morgadio da Calçada foi instituído no século XVII pelo desembargador Jerónimo da Cunha Pimentel. A família Pimentel, através deste ramo Cunha e o dos Serpa, tem uma tradicional importância na região duriense.
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Ao contrário do que acontece(u) noutros países, a nobreza portuguesa não dispôs, regra geral, de grandes casas. Para lá da fronteira a riqueza era maior e avançando para França ou Alemanha a diferença ainda maior. Porém, o que faltou em magnificência não faltou em poesia e charme.
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A casa de Manuel Villasboas tem um inquestionável encanto, edificada num estilo neo-clássico rural, que não engana quanto aos costados nem se distancia da nobreza portuguesa típica. Hoje, além de emblema familiar, o conjunto arquitectónico é um empreendimento turístico, onde se junta tradição e um certo despojamento «clean» contemporâneo.
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Mas o que aqui importa é o vinho; uma parceria entre Villasboas e o enólogo-artista, tanto iconocasta quanto tradicional e minimalista,  com toque de Midas, Dirk Niepoort, também ele oriundo duma família de pergaminhos, neste caso relacionados com o Vinho do Porto.
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Já dei conta neste blogue http://joaoamesa.blogspot.pt/2012/12/morgadio-da-calcada-apresenta-novos.html nota de alguns vinhos deste minúsculo produtor. Agora apeteceu-me voltar à carga.
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A área total de vinha é de cerca de 4,5 hectares, dos quais 2,5 de castas brancas. A vinha está dividida em três parcelas, uma mais antiga, com mais de 100 anos, onde se misturam tintas com brancas, uma só de brancas, com cerca de 20 anos, e outra de tintas com perto de 30 anos.
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Em termos de castas, as uvas brancas plantadas são as côdega, moscatel galego, gouveio, rabigato e viosinho e as tintas as tinta roriz, touriga franca e touriga nacional. Na vinha mais antiga, tal como é comum no Douro em parcelas com videiras dessa antiguidade, as variedades encontram-se misturadas, sendo até difícil diagnosticar todas as presentes.
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A vinha, situada a 600 metros de altitude, com 6.000 pés de vide por hectare, não é mecanizada. Assim, o trabalho é realizado com recurso a tracção animal. É giro, tem pinta, mas é caro. E então? Esperar-se-á que uma vinha desta dimensão dê um milhão de litros de massificação? Há pouco e tem de ser caro. Juro que não sei de preços.
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Actualmente, o Morgadio da Calçada tem nove referências (branco, tinto, branco reserva, tinto reserva, Porto Dry White, LBV 2007, Tawny Colheita 1998, Tawny Reserva e Ruby Reserva). Provadas que foram as novidades, e que deixei já escritura, embora sem notas de prova ou notação (todas acima dos 6,5 / 7), fingindo-me de esquecido quanto aos descritores… coisa que até nem diz muito…
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Antes de partir, tenho de sublinhar um Porto, daqueles muito velhos que andam pelas adegas das quintas. Uma relíquia a que tive acesso e que consegui bebericar mais do que um dedal. Um tawny muito velho, que terá idade sabida, mas que não me lembro. Talvez nem seja importante. Relevante é saber que no Morgadio da Calçada se guarda um tesoiro. 

«A vida de um vinho» Reserva 2008

Peço perdão aos leitores pelo atraso na publicação deste texto, no geral, e ao produtor, em particular. Motivos de ordem pessoal e profissional afastaram-me do blogue e, por isso, tudo se atrasou. Este caso é para mim mais relevante por se tratar duma iniciativa solidária. Peço, por isso, também desculpa aos beneficiários da acção. Espero que ainda vá a tempo de ajudar.
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«A Vida de um Vinho» é mais do que um vinho, é um projecto de solidariedade social, lançado pela Casa Ermelinda Freitas, destinado inteiramente à Cáritas de Setúbal. O projecto nasceu em 2008 e tem agora o apogeu, com o lançamento comercial.
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A ideia de apoiar uma causa social do distrito de Setúbal nasceu «numa conversa de amigos», afirmou Leonor Freitas, empresária que lidera esta casa produtora. Ao vinho juntaram-se a música e a pintura.
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No total foram produzidas 1.500 garrafas magnum (1,5 litros). Desse total, 500 vão ser vendidas com um CD com músicas originais do maestro Jorge Salgueiro e uma serigrafia do mestre  Mário Rocha, a um preço de 175 euros. As restantes 1.000 garrafas estão acompanhada apenas pelo CD, a um preço de 100 euros.
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As garrafas podem ser adquiridas na loja da adega da Casa Ermelinda Freitas ou nos supermercados El Corte Inglés de Lisboa, Porto e Cascais.
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Em cada ano, Mário Rocha tem apresentado um quadro diferente, alusivo à história do vinho. Um evoca a vindima, outro o estágio em barrica, o terceiro a evolução do néctar e o quarto o convívio. As obras de arte, além de reproduzidas em serigrafias que acompanharão algumas garrafas, serão também elas vendidas e a sua receita remetida para a Cáritas setubalense.
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O vinho resulta de um lote composto maioritariamente pela casta castelão (70%), a mais representativa da região da Península de Setúbal, e por touriga nacional, syrah e cabernetsauvignon.
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O vinho estagiou 14 meses em barricas de carvalho francês e a parte restante em garrafa.Em termos de descritores olfactivos, mostra frutos pretos, compota, pimenta branca e uma pequeníssima de erva-doce. Na boca revela-se potente, com grande volume e um longo e quente final, com nuances de castanha e avelã. É um vinho que merece ser guardado por uns anos, pois tem bom potencial de evolução, podendo atingir o seu clímax dentro de dez anos e uma boa saúde até mais 15.
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Origem: Palmela
Produtor: Casa Ermelinda Freitas
Nota: X

sexta-feira, janeiro 18, 2013

O pinot noir de João Barbosa

Ando para aqui com o blogue atrasado e cometo outra gafe… não foi o senhor Cunha que me veio pedir, sou mesmo eu quem laborou a coisa. Textos vínicos em bicha de espera e este entra logo. Pareço eu no Lux! À frente de toda a gente e sem pagar. Diga-se que aqui também ninguém paga nada.
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Entrevistei (profissionalmente) o meu homónimo dos vinhos Ninfa e Lapa dos Gaivões. Estava marcado nas estrelas que «João» e «Barbosa» quando se juntam dão pessoas fantásticas. Ele e eu (!!!) somos pessoas fantásticas… eu, principalmente sou belo e gracioso, apesar dos cento e alguns quilos. Além do mais, sou do Belenenses!
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Contei-lhe que um dia hei-de fazer um vinho: lote de baga, ramisco e touriga franca. Ainda lhe disse que ia ter um problema com ele, por causa da marca, mas João Barbosa continuou simpático. Bolas!
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Brincadeira à parte, o senhor é uma simpatia e atenciosidade (existe?) que cativam. Como escrevi e disse (é feio fazer autocitações, mas eu posso) muitas vezes, a paixão, trabalho e empenho traduzem-se no final. O amor que damos reverte. É a lei do retorno…  quem faz com pouco gosto nunca fará bem feito. É por isso que a comida das mães é sempre a melhor do mundo…
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Ora, seis vezes três: dezoito… vinho do Tejo? Pois, não é o que se pensa quando se fala em grandes vinhos, ainda que se saiba que a qualidade cresceu muito de há uns (poucos) anos a esta parte.
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Grandes vinhos? João Barbosa tem vinhos de qualidade inquestionável, mas tem um que é absolutamente fora de série… fora do sério. Vim do Alto da Serra (Rio Maior) excitadíssimo para escrever este texto. Há muito tempo que não me comovia assim e poucas foram as vezes em que me empolguei desta maneira.
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O vinho ainda não está engarrafado e só será descoberto daqui por uns meses. Entretanto, João Barbosa deu-mo a provar. Fantástico! Ou fazendo um trocadilho com as línguas portuguesa e inglesa: funtástico!
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Trata-se dum pinot noir como haverá poucos, quiçá nenhum, em Portugal. Tem cor de pinot noir e é elegante como um bom Borgonha. Suave e macio; não é veludo, é seda. Seda, mesmo. Uma acidez de ressuscitar. Um ataque de coração pelo melhor. Emoção, vida, personalidade e carácter. Um vinho único, que um enófilo tem de provar.
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A colheita é de 2011 e, como só acontece com os grandes vinhos, tem séculos pela frente. E irá em crescendo. Dez anos? Espero voltar a ele dentro de dez, vinte e trinta anos. Um colosso!
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Desculpem-me tantos elogios, mas estou nervoso de contente. Ganda pinta de vinho!
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Tenho, no livrinho do coração, alguns vinhos portugueses que me conquistam ano após ano, os meus Grand Cru, que não dispenso e que ponho as mãos no fogo pela sua qualidade. Quero bebê-los até morrer e a eles voltar na próxima encarnação: Quinta do Vale Meão, Quinta de Foz de Arouce Vinhas Velhas de Santa Maria e Cavalo Maluco, nos tintos, e Maritávora Grande Reserva Branco.
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O meu pensar do que quem faz por gosto, ou quem acarinha o que é seu, sangra amor e deleite é válido para Francisco Olazabal, conde de Foz de Arouce, José Mota Capitão e Manuel Gomes Mota… além dos respectivos enólogos (Francisco Olazabal, João Portugal Ramos, Paulo Laureano/Mota Capitão e Jorge Serôdio Borges), penso eu (de que, como terá dito aqueloutro senhor do Porto). Isso mesmo se pode dizer de João Barbosa e do alquimista júnior, que já não é nenhuma promessa, Pedro Pereira Gonçalves… o tal que, quando estava em Vale d’Algares, me prometeu uma prova cega de tintos…
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Bem, dessas minhas referências portuguesas de eleição nenhuma leva nota abaixo de nove… sendo que (já me cansa escrever isto tantas vezes) a classificação não é nem óbvia nem proporcional… o três é positivo e não é nem metade, nem um terço nem um quarto de quatro… é três. E o dez é uma nota aberta, que vai do dez até ao infinito antes de onze.
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Este pinot noir de 2011, que João Barbosa irá um dia mostrar ao mundo, terá, pelo menos, um nove. E tenho quase a certeza que assim será para sempre. Como o amor.

segunda-feira, janeiro 14, 2013

IVIN internacionaliza-se

A IVIN, distribuidora de vinho portuguesa, arrancou com a SAVIN, empresa de distribuição independente do grupo que opera no mercado da África do Sul, informou a empresa em comunicado.
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O novo projecto comercializa, para já, apenas marcas de vinho de produtores locais sul-africanos, mas dá provas de querer introduzir marcas portuguesas no seu catálogo comercial, já no primeiro semestre deste ano. Miguel Grijó, fundador da SAVIN, espera uma facturação anual de perto de 500 mil euros.

Bollinger apresenta nova antiga garrafa

A casa de Champanhe Bollinger irá proceder à renovação de todas as suas garrafas para um formato inspirado numa garrafa do século XIX, «cujas características permitem uma melhor preservação da qualidade», garantiu a marca em comunicado.
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O novo formato de garrafa foi inspirado numa garrafa datada de 1846, redescoberta nas caves da Bollinger. Baptizada «1846», a nova garrafa apresenta uma parte superior mais alongada  e a base ligeiramente mais alargada, «permitindo uma menor circulação de oxigénio e logo a preservação das características únicas do Champanhe».
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Para já, apenas o Special Cuvée pode ser já adquirido neste novo formato, mas até ao final do ano e nos seguintes, todos os Champanhes Bollinger passarão a adoptar o novo formato.
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Mathieu Kauffmann, chefe de caves Bollinger, afirma: «a curvatura desta velha garrafa permite aproximarmo-nos dos benefícios de uma versão magnum, pois para além da forma mais elegante e atractiva, a conjugação entre o gargalo mais estreito e a base mais larga permite-nos preservar a qualidade do Champanhe por mais tempo».

Turismo de Portugal lançou manual de pastelaria

O Turismo de Portugal lançou um livro para a pastelaria nacional e internacional, informou a instituição em comunicado. «O  Manual Técnico de Pastelaria pretende ser uma referência para a formação em pastelaria dos jovens alunos e dos profissionais no activo, bem como uma base para o lançamento de novos negócios na área da hotelaria e turismo».
O Manual Técnico de Pastelaria, elaborado por oito chefes das Escolas do Turismo de Portugal, aborda os conceitos básicos de pastelaria, os géneros alimentícios utilizados, explica a confecção de massas de base, cremes, merengues, doces e geleias, molhos, pastelaria clássica, pastelaria internacional, pastelaria festiva, pastelaria regional e conventual, assim como técnicas relacionadas com chocolate, gelados e panificação.
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O livro, que estará à venda nas escolas e que será disponibilizado, gratuitamente, em suporte tecnológico a todos os alunos, pode ser adquirido pelo preço de 15 euros.
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Fábio Bernardino (Escola de Hotelaria e Turismo do Estoril), Henrique Leandro (Escola de Hotelaria e Turismo do Algarve), Hugo Florentino (Escola de Hotelaria e Turismo do Oeste), Inácio Berlinda (Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa), Jorge Ferraz (Escola de Hotelaria e Turismo do Porto), Paula Mártires (Escola de Hotelaria e Turismo de Portimão), Paulo Santos (Escola de Hotelaria e Turismo do Oeste) e Ricardo Santos (Escola de Hotelaria e Turismo de Coimbra) são os autores do livro, que é prefaciado por Fernando Melo, jornalista, gastrónomo e crítico de bebidas e comidas.

Este é o quarto manual técnico editado pelo Turismo de Portugal para apoiar as atividades de formação nas suas escolas, que se junta ao Manual de Técnicas de Operações Turísticas e Hoteleiras – Alojamento, Manual de Técnicas de Cozinha Pastelaria e do Manual de Técnicas de Serviço de Restauração e Bebidas.

Vistas à JMF batem recorde

O Enoturismo da José Maria da Fonseca fechou o ano de 2012 com números recorde de visitas, atingindo mais de 32 mil visitantes e o meio milhão de euros de facturação. Em 2012, visitaram a José Maria da Fonseca pessoas de 66 países. Portugal está em primeiro lugar com 34% do total de visitantes, seguido do Reino Unido, EUA, Rússia, Alemanha, Brasil e França.

Granjó fez 100 anos

A marca de vinhos Grandjó’ nascida na Granja de Alijó e pertença da Real Companhia Velha, celebrou cem anos de existência, sendo por isso a marca de vinhos do Douro mais antiga.
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De acordo com o comunicado da Real Companhia Velha, embora a marca Grandjó tenha sido registada em 1912, há registos «não oficiais» que indicam que a sua existência é anterior a esta data. «No livro “Vinificação Moderna” (de Pedro Bravo e Duarte Oliveira), que data de 1925, é feita referência ao Grandjó como existente desde 1910. Nesta obra é enfatizado o facto de o aparecimento deste vinho na região de Alijó ter sido uma ideia de grande mérito, pois é uma zona onde se produzem essencialmente vinhos brancos DOC Douro e alguns generosos (Porto e Moscatel). Sendo uma região não vocacionada para tintos (os mais consumidos e vendidos em todo o mundo), torna-se evidente a limitação que esta dependência trás à região. O Grandjó, nomeadamente o late harvest, é portanto um vinho de grande qualidade, nobreza e importância para esta região».

Adega da Granja celebrou 60 anos

A Adega Cooperativa de Granja celebrou os seus 60 anos de história e apresentou os seus mais recentes vinhos.
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Manuel Bio, presidente executivo da empresa, revelou que a Adega Cooperativa de Granja quintuplicou a sua produção desde 2009. De acordo com o comunicado da cooperativa, Manuel Bio adiantou que esse resultado se deveu «aliando a tecnologia e os recursos humanos especializados a uma produção de vinhos com carácter e identidade, referiu ainda que o trajecto delineado para o futuro». Assim, a Adega Cooperativa da Granja «será capaz de contornar a conjuntura actual, dado o crescimento dos últimos anos e o bom trabalho que tem vindo a ser desenvolvido».