ponto de ordem à mesa

O mundo gira e dá voltas. Teimosamente às voltas. Pensava que o joaoamesa.blogspot.com estava morto ou, pelo menos, em estado de coma. Ou pior, sem qualquer sinal vital, ligado à blogosfera por nostalgia e arquivo. Mal morto, o blogue mantém o endereço, mas muda de título.

domingo, junho 24, 2012

Beyra Superior Branco 2011

Um grande senhor! Um dos melhores brancos que me lembro de ter bebido. Aprecio a diferença e este parece ser o resultado da adição dos dois outros, mas em que a soma de dois com três dá oito.
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Continua a saga da surpresa. Para mim, este é o mais fácil de todos os Beyras, mas isso não lhe retira mérito. Mantém-se diferente do comum, mostra-se mineral, mais elegante do que o primeiro, mais civilizado do que o Quartz. Dos três irmãos este é o que estudou para doutor, trata do corpo e aviva a alma.
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O Beyra Superior tem a mesma tangerina dos manos, mas soma-lhe a casca de toranja. É mineral e complexo, e com um feliz ramalhete onde sobressaem os aromas da rosa, delicados e majestosos. Na boca tem uma estrutura que é maravilha, uma angulosidade rica, uma acidez de espanto e um final enorme.
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Origem: Beira Interior
Produtor: Beyra
Nota: 8,5/10

sábado, junho 23, 2012

Beyra Quartz 2011

A terra onde as vidas que fizeram este vinho estão cravado no solo granítico e muito rico em quartzo. O cristal molda o rosto, impõe-se, e dá-lhe carácter. Parece que Fernando Pessoa disse da Coca Cola que primeiro estranha-se e depois entranha-se, o aforismo vingou e hoje uso-o neste texto para caracterizar o Quartz.
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O meu primeiro contacto não foi eufórico, diria que decepcionante. Se, por um lado, notei a diferença face ao previsível, por outro desgostou-me um pouco o desconcerto. O bicho é esquisito, mas tem muita raça. Num segundo copo comecei a perceber melhor a complexidade da fera. Quando me puseram um queijo seco e um pouco salgado da Beira Baixa o Quartz emergiu magno. Grande vinho.
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Não é fácil de escalar esta parede de pedra granítica, com evocações de tangerina. É duro, anguloso, com pujança… mas ao mesmo tempo com delicadeza e profundidade. É complexo e diferente. Não é consensual.
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Origem: Beira Interior
Produtor: Bayra
Nota: 6,5/10

sexta-feira, junho 22, 2012

Beyra Branco 2011

Ainda há gente de coragem. Com esta crise chata e que se agarra à vida, com uma data de produtores com as mãos deitadas à cabeça, Rui Madeira, o homem da VDS e filho do patrão da CARM, atirou-se ao trabalho na Beira Interior, em Vermiosa, no concelho de Figueira de Castelo Rodrigo, ali onde ninguém se lembra de investir, em vinho ou em coisa alguma.
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O projecto designa-se por Beyra, nome da empresa e da marca. O lema é «vinho com altitude», diria vinho com atitude. Se a altura de se jogar ao negócio é arriscada, se o local é improvável, já a qualidade não surpreendente. Porque a região tem, penso eu, características para vinhos de grande qualidade, sobretudo brancos, e com carácter distintivo. Depois há o enólogo, que ninguém duvida da competência.
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A terra dali é tanto granítica como xistosa e situa-se a uma altitude média de 700 metros. Saem vinhos minerais e frescos. Diferentes e surpreendentes no perfil.
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Os tintos hão-de vir, agora vão-se fazendo no descanso laborioso das barricas. Já na rua estão três brancos: Beyra, Beyra Quartz e Beyra Superior. Cada um deles terá aqui uma nova, agora fica o entrada de gama.
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O Beyra é um vinho fácil, mas desafiante. Quem gosta dos vinhos docinhos e saltitantes talvez não o aprecie. Quem gosta da diversidade e aprecia a diferença tem uma boa opção. Fez-se com uvas síria e fonte cal. É um vinho seco e perfumado, delicado. É mineral e cítrico, duas características que valorizo.
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Origem: Beira Interior
Produtor: Beyra
Nota: 6/10

quinta-feira, junho 21, 2012

Quinta do Cardo Síria 2011

A Beira Interior tem uma frescura que dificilmente outras regiões atingem. Gosto disso. Gosto da mineralidade dos vinhos da região (dentro de dias vão surgir três novas entradas de vinhos desta zona). Os Quinta dos Cardo Síria dão-me alegria há muito tempo. Este… idem, idem, aspas, aspas.
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O perfil mantém-se e a qualidade também. Bom preço. Uma óptima opção para o lazer e para a mesa de carnes brancas e peixinho (que é coisa que não como, mas sei). Penso eu de que…
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Origem: Beira Interior
Produtor: Companhia das Quintas
Nota: 7/10
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Nota: Este vinho foi enviado para prova pelo produtor.

quarta-feira, junho 20, 2012

Prova Régia Premium 2011

Gosto tanto dos Prova Régia que até comentei uma colheita em duplicado… imaginem! Tenho de poupar a cabeça… ou talvez dar-lhe mais uso. Este é outro Prova Régia, ainda não tinha sido bebido e postado por aqui. Conheci-o numa prova e entretanto enviaram-mo para casa para que escrevesse de minha justiça.
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Pois que sim, que gosto. Que gosto sim. Não ao ponto de o fazer descolar muito do homónimo, mas indubitavelmente mais prazenteiro. Gosto de Bucelas! O que hei-de fazer?
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Tem mais estrutura do que o parceiro e final talvez um tanto mais prolongado. Gosto da mineralidade e das notas de laranja.
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Origem: Bucelas
Produtor: Companhia das Quintas
Nota: 6,5/10
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Nota: Este vinho foi enviado para prova pelo produtor.

terça-feira, junho 19, 2012

Quinta de Pancas Branco 2011

A região de Lisboa tem vindo a afastar-se da imagem de produtora apenas de grandes volumes, com o surgimento de cada vez mais produtores de qualidade. A Quinta de Pancas foi pioneira na diferenciação, ainda no tempo dos anteriores donos do negócio.
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Actualmente inserida no grupo Companhia das Quintas mantém-se fiel à procura da qualidade e, ao mesmo tempo, de preço competitivo. A dupla João Corrêa e Nuno do Ó consegue sucesso nas fórmulas enológicas, criando vinhos fáceis, sem serem simplórios, para diferentes gostos.
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Dos brancos da Companhia das Quintas este é, por certo, não teimo, o que aprecio menos. Os meus sentidos fogem para os Bucelas e para os da Beira Interior. Todavia gosto e compro-o com regularidade.
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O presente vinho fez-se com uvas das castas arinto, chadonnay e vital. Notas de prova? Hoje não estou nessa.
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Origem: Regional Lisboa
Produtor: Companhia das Quintas
Nota: 5,5/10

sexta-feira, junho 08, 2012

João Portugal Ramos - visita a Estremoz

João Portugal Ramos foi nas décadas de 80 e 90 um verdadeiro «driving wine maker». Em Portugal não eram muitas as casas com enólogos, embora desde há muitos anos os houvesse. Mas foi, penso eu, um dos divulgadores da palavra e, com seu trabalho, promotor dum aumento da qualidade dos vinhos portugueses, coisa que o mercado reconheceu.
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O primeiro passo do seu projecto a solo deu-se em 1989, com cinco hectares de vinha em Estremoz. No final da década de 90, João Portugal Ramos optou por deixar a estrada para se dedicar apenas à sua empresa. Desde então tem mimado os portugueses com criações de alta gama e vinhos, que sendo populares e de baixo preço, patenteiam qualidade.
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Desde que se tornou empresário que não tem parado. Parece ter tomado o gosto de criar projectos, sempre em regiões diferentes. Primeiro foi o Alentejo (J. Portugal Ramos), depois o Ribatejo (Falua), há cinco anos lançou-se no Douro (Duorum – com o seu amigo e gigante da enologia José Maria Soares Franco), agora vai apresentar-se nos Vinhos Verdes. A estes soma-se a pequena casa Quinta de Foz de Arouce, situada na Beira e propriedade do seu sogro.
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Feita esta apresentação, adianto o motivo desta crónica: uma visita à adega João Portugal Ramos, a 26 de Maio, em Estremoz. Foi tempo de provar as novidades da casa e algumas colheitas com uns anitos e em muito boa forma.
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Numa visita e prova com vários bloguistas e responsáveis por sítios vínicos na net, provaram-se 11 novidades, ou novidades e alguns vinhos apresentados recentemente. O primeiro a vir para a mesa foi o Loios Branco 2011, que foi já algo duma nota no blogue do «je». Outro vinho também já comentado foi o Quintada Viçosa S.T. 2009.
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Marquês de Borba Branco 2011… fácil e «fresquinho» no toque. Fez-se com arinto, antão vaz, verdelho e viognier. Felizmente para mim, o antão vaz não chateou muito. No nariz agradou-me a frescura cítrica e mineral, menos o (maldito) maracujá. Na boca mostrou boa acidez.
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Vila Santa Reserva Branco 2011… outra categoria. Fresco, mais estruturado, com algumas notas conferidas pela madeira. Feito com arinto, alvarinho e sauvignon blanc. Em termos olfactivos mostrou-me uma fina manteiga, finíssimo fumo, amêndoa, especiarias, nomeadamente uma subtil pimenta branca (atchim!), e presença herbácea. A boca tem ananás e minério, final bem catita.
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Loios Tinto 2011, que se fez sobretudo com aragonês e trincadeira… as restantes são… mistéeeeeeriooo!... Ok, não perguntei. Certamente ter-me-iam dito. Não é vinho que me diga muito, mas não peca por falta de qualidade. No nariz tem amoras com força, mas revela-se muito óbvio. Na boca demonstra doçura e suavidade, com um final com duração engraçada.
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Marquês de Borba Tinto 2011 continua fiel a si mesmo. A marca é fiável na qualidade e no perfil. A edição do ano passado fez-se com uvas das castas alicante bouschet, aragonês, touriga nacional, syrah e cabernet sauvignon. Não é um vinho exuberante no nariz, mas mostra-se agradável com compota e avelã. Na boca é suave, macio e equilibrado.
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O Vila Santa Trincadeira 2009 foi dos mais aplaudidos na visita. Dentro do lote dos monovarietais da marca não foi unânime quanto a ser o número um. Fui um dos que preferiram outra opção. Gostei do movimento uniformemente acelerado que mostrou no nariz; primeiro lento (algo austero), ganhando velocidade até derreter o prazer. No nariz notas de fumo, framboesa, amora, alguma menta, terra… com os minutos passados revela flores e couro jovem. Enche bem a boca, tem profundidade, belíssimo final.
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Vila Santa Aragonez 2009, o monovarietal que menos me impressionou, mas de inegável qualidade. Os manos é que lhe «baterem» (aíii!...). No nariz mostrou frescura, chocolate preto, alguma goma e muito xisto; muito agradável. Na boca revelou doçura, mas também frescura,  taninos com personalidade e belo final.
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Vila Santa Syrah 2009… muito fixe! No nariz mostrou cacau, pimenta branca em pó, menta, xisto. Embora com doçura na boca, não se mostrou exagerado, com frescura, com taninos vivaços, um vinho que preenche bem a gruta.
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O Vila Santa Reserva Tinto 2010 já me encantou menos que o anterior… pois, bolas! O problema não é do vinho, mas da companhia do outro. Este fez-se com aragonês, touriga nacional, syrah, cabernet sauvignon e alicante bouschet. No nariz mostra fumo, amoras, ameixa preta madura e alguma goma. Na boca empurra com doce, mas tem taninos elegantes, boa acidez e bom final.
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A lide estava a correr bem e desde o primeiro Vila Santa que o inteligente mandou tocar a banda. Quando chega o Marquês de Borba Reserva Tinto 2009 o tema España Cani está ao rubro e nas bancadas começam a ser mais efusivos os olés. Este tinto conta com trincadeira, aragonês, alicante bouschet e cabernet sauvignon… pois é, que rico arranjinho no nariz: húmus, turfa ligeira, menta, canela, pimenta branca, chocolate, cereja madura, compota de morango… Na boca, ui! Consistente, muito estruturado, viva acidez, final muito longo.
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Loios Branco 2011
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Origem: Regional Alentejano
Produtor: J. Portugal Ramos
Nota: 4/10
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Marquês de Borba Branco 2011
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Origem: Alentejo
Produtor: J. Portugal Ramos
Nota: 5/10
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Vila Santa Reserva Branco 2011
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Origem: Alentejo
Produtor: J. Portugal Ramos
Nota: 6/10
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Loios Tinto 2011
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Origem: Regional Alentejano
Produtor: J. Portugal Ramos
Nota: 4,5/10
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Marquês de Borba Tinto 2011
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Origem: Alentejo
Produtor: J. Portugal Ramos
Nota: 5,5/10
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Vila Santa Trincadeira 2009
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Origem: Regional Alentejano
Produtor: J. Portugal Ramos
Nota: 7/10
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Vila Santa Aragonez 2009
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Origem: Regional Alentejano
Produtor: J. Portugal Ramos
Nota: 6,5/10
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Vila Santa Syrah 2009
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Origem: Regional Alentejano
Produtor: J. Portugal Ramos
Nota: 7,5/10
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Vila Santa Reserva Tinto 2010
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Origem: Regional Alentejano
Produtor: J. Portugal Ramos
Nota: 7/10
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Quinta da Viçosa S.T. 2009
Origem: Regional Alentejano
Produtor: J. Portugal Ramos
Nota: 8/10
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Marquês de Borba Reserva Tinto 2009
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Origem: Alentejo
Produtor: J. Portugal Ramos
Nota: 8,5/10

sexta-feira, junho 01, 2012

Quinta da Ponte Pedrinha Touriga Nacional 2007

A complicação não é sinónimo de elevação, nem a simplicidade é demérito. Sabe-se que é mais difícil fazer simples, o que denota mestria e conhecimento, do que ornamentos rebuscados. Falo de simplicidade, não de simplismo nem em singeleza.
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Há uns anos, não muito distantes, brincava-se:
– Onde há mais touriga nacional plantada?
– No contra-rótulo… -
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Não passou muito tempo, pelo que muitos hectares de touriga nacional estão ainda e apenas no verso das garrafas… (será que o redondo tem verso?). Mas no Dão, berço da casta, sei que as videiras da casta estão bem instaladas na terra. E este vinho não engana, ela está mesmo lá. Não porque o rótulo o garanta, mas porque o aroma não engana.
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Dizia: simples. Sim, touriga nacional sem artifícios. Simples e clara, bem definida. Há uns meses referi um touriga nacional do Dão como caso didáctico, o TN by Falorca, pois este é-o também, mas de modo mais positivo. Tem o que deve. Nem mais.
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Nota negativa para o embrulho. Queixo-me muitas vezes de se apostar em garrafas estupidamente pesadas para «valorizar» o vinho, o que, nos tempos presentes, pode funcionar como uma má acção de marketing, tendo em vista a pegada de carbono. Pois neste caso bato em sentido inverso: este vinho merece garrafa melhor. Este vasilhame é para vinhitos sem ambição nem valor. Ok, não sei quanto custa o vidro, não sei quanto custa o vinho… sei é que o vinho merece vidro melhor e com melhor cor.
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Origem: Dão
Produtor: Maria de Lourdes Mendes Oliva Nunes Osório
Nota: 6/10
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Nota: Este vinho foi enviado para prova pelo produtor.