É fácil simpatizar-se com Domingos Alves de Sousa, homem de
simplicidade genuína, mas consciente do valor que tem. É fácil admirar este
homem pela seriedade e qualidade dos seus vinhos. Ao seu lado o filho Tiago e à
beira o enólogo Anselmo Mendes, que teima em fazer vinhos de excelência.
Numa noite de Dezembro, Domingos Alves de Sousa apresentou
os seus Quinta da Gaivosa, propriedade berço dos seus maiores néctares, e os
Quinta de Vale da Raposa, a segunda dos seus domínios. Para não escrever um ror
de textos com notas de prova, ajunto-os todos neste, e-vai-dembute.
Branco da Gaivosa Reserva 2010 com notas olfactivas de
abóbora, citrinos, nomeadamente casca de laranja e flor de laranjeira e, ainda
assim, finamente leitoso. Na boca, seco, mineral, com boa acidez e bom final.
Gaivosa Primeiros Anos Tinto 2009 é a entrada dos vinhos da
Quinta da Gaivosa, fabricado a partir das vinhas mais jovens. Revelou-se guloso
no nariz, embora não se mostrando compotado, aliás com algumas notas verdes e
de madeira verde chamuscada. Na boca é muito suave e com final fixe, mas
esperava mais.
Moi même, pouco afoito a monovarietais, aprovei (quem sou
eu? Até parece que sou importante e influente) este Vale da Raposa Tinto Cão
2009… No nariz lembra um Porto ruby, mas menos gordo, visto ter tempero de
menta, pimenta preta e madeira de pinho aplainada. Na boca é elegante, mas
mostrando bem os taninos, com revelação de ardósia e terra.
Voltando ao moi même… Vale da Raposa Touriga Nacional 2009…
já é habitual os produtores apostarem nesta casta: porque é boa e porque tem
fama, logo vende. Confesso que já me chateia esta mania da touriga nacional …
mas quando um vinho é bom, é bom… e se é muito bom, ou excelente, é muito bom,
ou excelente. Ao nariz vem a compota de frutos vermelhos, gomas, violetas, com
frescura da menta, madeira húmida e ameixa preta. Na boca é elegantíssimo, com
taninos visíveis, excelente acidez e final muito prolongado.
Regressando ao moi même… Vale da Raposa Sousão 2010,
mostrou-se um pouco rústico, sem que isso seja negativo, todavia, embora
campesino, soube ser fidalgo, revelando fineza no trato. No nariz, pastelaria
natalícia, mas com notas químicas, e um pouco de pimenta branca. Na boca
mostrou boa acidez, taninos um bocado rugosos, notas de madeira e belíssimo
final.
Quinta da Gaivosa Tinto 2008 é perfume (do bom), químico,
floral, etéreo. Tem lá menta, madeira, terra, pimenta preta, linóleo. Gostei
mais dele no nariz do que na boca, que é elegante, com óptima acidez, com
festas de chocolate preto e ameixa preta.
Quinta da Gaivosa Vinha de Lordelo Tinto 2009… teimo em
adorar os vinhos desta parcela. O que se há-de fazer? (aqui entra um smiley a
piscar o olho aos leitores). É o mais austero de nariz de todos os vinhos aqui
relatados e também o mais curioso, diria quase inédito: cais. Isso mesmo, cais,
de porto de mar, de muralha e barcos… mistura de água, sal, petróleo e
desperdício de pano… Anselmo Mendes disse-me alcatrão, mas não concordo! A boca
é doce, gulosa, com madeira tostada, taninos raçudos, muito gastronómico, com
final longuíssimo.
Alves de Sousa Reserva Pessoal Tinto 2003… ufa! Outro grande
vinhaço! Numa consulta na sala, este foi o vinho da noite. Tenho de concordar,
ou quase. Tem uma qualidade de sufocar, mas o meu coração ficou com o Lordelo
(embora com a mesma nota). O produtor quer que os Reserva Especial saiam para o
mundo com, pelo menos, sete anos, dos quais cinco anos em garrafa. É de homem! Tanto
mais que muita gente anda a botar vinhos «inacabados» cá para fora (julgo que por
razões de tesouraria). Olfactivamente mostrou manteiga, anis, flor de
laranjeira, vegetal… uma grande pinta! A boca, ui, ui, ui… elegante, pujante,
polido… acidez muito feliz, prometendo anos de alegrias.
Branco da Gaivosa Reserva 2010
Gaivosa Primeiros Anos Tinto 2009
Vale da Raposa Tinto Cão 2009
Vale da Raposa Touriga Nacional 2009
Vale da Raposa Sousão 2010
Quinta da Gaivosa Tinto 2008
Quinta da Gaivosa Vinha de Lordelo Tinto 2009
Alves de Sousa Reserva Pessoal Tinto 2003